A história dos feminismos é, até hoje, uma história pouco contada, pouco valorizada e alvo de um apagamento sistemático. O antifeminismo prospera onde a história falha, e contar a história feminista é, em si, uma estratégia política. A cada passo de avanço que as mulheres dão na direção da conquista de um direito, há uma onda conservadora que tenta colocar o feminino de volta ao espaço doméstico, o backlash. Nos últimos anos, as conquistas não foram poucas na América Latina, a Argentina aprovou a lei do aborto legal, seguro e gratuito, o feminicídio foi tipificado como crime e compreendemos que as mulheres não podem mais ser culpadas pela violência que sofrem. Campanhas que começaram nas redes sociais como Me too, Ni una a menos, Meu primeiro assédio e Un violador en tu camino nomearam uma série de comportamentos e agressões que eram normalizadas pelo hábito e não poderiam mais ser aceitas. Desde então, um novo backlash começou a se organizar no território digital para cooptar os mais jovens com a mesma intensidade dos feminismos. E essa atuação não ficou limitada a este espaço, foi muito além e observamos o resultado, no primeiro turno das eleições brasileiras, no dia 04 de outubro. Quando mulheres eleitas se declaram abertamente antifeministas, chegando ao ponto de negar a existência do feminicídio e defender que as cidadãs “deveriam ficar em casa”, o que está em jogo?
O antifeminismo não é um fenômeno novo. Sempre existiram mulheres que se opuseram aos movimentos feministas. As figuras que emergem hoje representam apenas uma nova versão desse fenômeno. A grande questão é: por que elas surgem agora com tanta força? O antifeminismo “vende” porque a trajetória de lutas que garantiu direitos básicos é tratada como algo distante e abstrato. A juventude do presente não sabe o que é viver em um mundo onde não existem direitos adquiridos. E se não conhecemos a história, não conseguimos defender as conquistas ou sequer compreender o que elas representam.
Para entender a gravidade desse apagamento, é preciso recuperar a cronologia dessa luta. A nomenclatura das “ondas” é um recurso didático limitante, que muitas vezes ignora as batalhas travadas antes do século 20. A primeira reivindicação não foi o voto feminino, mas o direito à educação. No 19, a maior parte das mulheres era analfabeta; o único destino das meninas era o casamento e a procriação. A luta pelo direito de aprender a ler e a escrever foi o pontapé inicial. Nísia Floresta, em 1832, em um dos seus mais conhecidos livros, o Direitos das mulheres e injustiça dos homens, denunciava o círculo vicioso ao qual a mulher estava encerrada: não se tinha ciência [no sentido de conhecimento] porque não se tinha estudo; e não se tinha estudo porque não se tinha ciência.
Se a educação foi a chave para a emancipação feminina no 19, ela segue como peça fundamental para essa mesma autonomia até hoje. No Brasil, Nísia Floresta nos mostrou que esse movimento não surgiu apenas nos grandes centros ou foi importado da Europa, mesmo daqui, as intelectuais estavam conectadas com o que se discutia no mundo. Elas usaram o jornal como espaço público de atuação, antes mesmo dos livros. Publicações femininas do século 19 criaram verdadeiras redes de sociabilidade e sororidade, conectando mulheres de norte a sul do país.
Uma das evidências do resultado do primeiro turno das eleições de 2026, no Brasil, é consequência do que é destacado como memoricídio feminino pela professora de Literatura e intelectual brasileira, Constância Lima Duarte. Esse conceito define a destruição intencional e sistemática da história de um grupo. Isso se dá com a destruição física de documentos e a ausência de uma história que é apagada até mesmo dos cânones literários. Quantas escritoras geniais não foram rejeitadas pela crítica por serem “extravagantes” demais ou por escreverem sobre o próprio corpo ou a desvalorização do feminino? O que era considerado “bom” estava atrelado ao masculino. O memoricídio apagou nomes, obras e a própria existência dessas mulheres.
Diante do avanço conservador e do apagamento sistemático, é preciso ocupar espaços de debate, assim como fizeram essas mulheres do passado. Devemos estruturar argumentos em múltiplas frentes. É fundamental trazer dados e insistir na clareza conceitual. Precisamos reafirmar o feminicídio como conceito que condensa as múltiplas formas de violência que se manifestam contra a mulher. O conceito tem o poder de qualificar, explicar e dar significado à experiência vivida, sem ele, cria-se um espaço invisível para o crime. O conceito é uma categoria essencial do pensamento político, esvaziar o seu significado é retirar a carga que legitima o próprio debate público. Vem daí a sua importância e também o maior perigo dos discursos antifeministas.
Não é de hoje, que as leis sobre o assassinato de mulheres por questões de gênero são questionadas. Antes de ser eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, então deputado federal, já defendia o homicídio para acabar com o “mimimi” do feminicídio, em 2017, em um vídeo publicado no dia internacional da mulher. Na época da declaração do Bolsonaro, o Brasil era o quinto país do mundo que mais matava mulheres por questões de gênero. Desde 2006, a Lei Maria da Penha tornou mais rigorosa a punição para crimes contra os corpos femininos. Hoje, a própria lei Maria da Penha é alvo de ataques.
Uma outra crítica veio pouco tempo depois, em 2025, o presidente argentino Javier Milei afirmou que estava elaborando um projeto de lei para retirar o feminicídio do Código Penal argentino. Da mesma forma, outra conquista feminista como a garantia ao aborto legal é um tema sob constante ameaçada no governo de Milei. As narrativas da extrema-direita que fomentam a desinformação contribuem para ampliar o nível de ruído informacional em um contexto em que cada dado é questionado e tudo pode ser fake news, mas não é só isso, esses discursos incentivam também o aumento da violência. Esvaziar o debate político e não classificar juridicamente comportamentos, agressões e crimes contra mulheres e corpos femininos é uma estratégia para mantê-los na impunidade e retirar a responsabilidade do Estado.
Estamos vivendo novos tempos sob velhas opressões. O assédio sexual, a violência obstétrica, o feminicídio e a precariedade sempre existiram, mas hoje têm nome. Definir essas violências é um ato de resistência. A grande vitória dos feminismos foi naturalizar uma série de conquistas que antes pareciam utópicas e inalcançáveis. Porém, esses movimentos não conseguiram articular uma forte reação a contraofensiva que a palavra “feminista” sofreu, adquirindo preconceitos e significados pejorativos ao longo da história. Os feminismos também não conseguiram lutar contra uma amnésia que apaga as conquistas femininas de tempos em tempos.
Casos concretos de violência e a ascensão de discursos reacionários no Legislativo servem como exemplos dolorosos e que demandam ação. A estratégia atual deve ser construir pontes: começar pela provocação pública e fundamentar estudos mais profundos. A categoria “mulher” ainda é essencial e não pode ser esvaziada. Disputar essa arena não é apenas uma questão de justiça histórica, mas uma demanda por sobrevivência para os corpos femininos do futuro. Escrever a história do feminismo é, em si, uma luta feminista.
Os movimentos conservadores de hoje nada mais são do que a recente expressão de um backlash que acompanha as mulheres desde que elas ousaram aprender a ler e a escrever. Ele se reorganiza, ganha novos rostos, novas plataformas e novas adeptas e porta-vozes. O antifeminismo se amplifica quando não são contadas as conquistas do passado e os direitos básicos são encarados como dádivas naturais, e não valorizados como resultado de séculos de batalha. Recontar as histórias das mulheres, insistentemente, é a forma mais eficaz de impedir que o retrocesso se apresente como novidade. Quem conhece de onde veio, sabe o que não pode perder e não aceita voltar atrás.
Ana Cristina Frias é jornalista e historiadora, doutora em História Social da Cultura pela PUC-Rio. Por mais de 15 anos, trabalhou como executiva de comunicação na Rede Globo.
Carolina Giovannetti é historiadora e pedagoga e doutora e mestra em educação pela UFMG e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Educação da mesma instituição
(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));
Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/a-disputa-pela-historia-o-antifeminismo-e-a-urgencia-de-uma-historia-feminista/

