A figueira do mal – Revista Cult

 

 

A “árvore genealógica” de extrema direita que nos deu os mais recentes frutos envenenados de ignorância e ódio – Eduarda Campopiano e Lucas Pavanato, campeões históricos de votos entre os eleitores que acorreram às urnas no último dia 04 de outubro – é a mesmíssima que pariu, em ordem decrescente, o criminoso Nikolas Ferreira, o “fanático insosso” Juliano Cazarré, os tóxicos e violentos do MBL e de outras startups que emergiram no contexto do golpe contra Dilma de 2016, os abomináveis Allan dos Santos e Paulo Figueiredo, o palhaço sem graça Danilo Gentili, os mafiosos Bolsonaro e o boquirroto mistificador Olavo de Carvalho. Esta árvore tem, contudo, galhos e ramificações mais antigas, que remontam ao ciclo nazifascista da Europa, que começa em fins do século 19 e sobrevive inclusive ao fim da Segunda Guerra Mundial (na qual os nazifascistas foram derrotados), na  longevidade das ditaduras dos criminosos Franco e Salazar, na Espanha e em Portugal, respectivamente. “Fanático insosso” é como o escritor indiano Pankaj Mishra chama a esses frutos espúrios.

Mas, antes de empreender essa genealogia da estupidez nazifascista, quero esclarecer que tomo aqui a palavra “genealogia” no sentido que lhe conferiu o filósofo francês Michel Foucault, cujo centenário a Cult comemora este mês com um dossiê (inserir link). E esse conceito foucaultiano chegou à minha formação intelectual pela brilhante crítica literária Eneida Leal Cunha, minha orientadora no mestrado em Letras e Linguística na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em que me dediquei a estudar as narrativas jurídicas, jornalísticas e literárias produzidas pelo massacre do Carandiru em 1992. Nessa investigação, eu já encontrei mais um fruto ruim daquela árvore genealógica de fascistas racistas (perdoem-me o pleonasmo!): Afanázio Jazadji, que celebrou, em sua coluna no jornal Notícias Populares, o massacre dos “111 presos quase todos pretos ou quase brancos tratados como pretos”, como definiram Gil e Caetano em sua memorável “Haiti”.

Saído de uma graduação essencialmente francesa em Comunicação Social na mesma UFBA, em cujo TCC estudei as representações racistas da violência urbana nas páginas de polícia dos jornais impressos da Bahia, foi Eneida Leal Cunha quem me apresentou a autores decoloniais (como Homi Bhabha e Néstor García Canclini), mas antes a Nietzsche, Foucault e Derrida. Por isso, hoje, minhas flores em vida vão para ela, uma das mentes mais brilhantes de uma geração de professores intelectuais que ainda não encontrou substituta à altura.

Crítica literária de enorme prestígio, Eneida Leal Cunha é professora titular aposentada de Literatura Brasileira da UFBA, instituição na qual construiu parte fundamental de sua trajetória acadêmica. Graduou-se em Letras Vernáculas pela Universidade Católica do Salvador, em 1972, concluiu o mestrado em Letras e Linguística pela UFBA, em 1979, e doutorou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), em 1993. Também foi professora da PUC-Rio e desenvolve pesquisas nos campos da literatura brasileira, da literatura comparada e dos estudos culturais. Sua produção intelectual investiga as relações entre literatura, história, identidade, cultura e poder, com especial atenção às questões étnico-raciais, às representações da africanidade e à diáspora africana. Além de sua contribuição à crítica literária brasileira, destaca-se pela formação de pesquisadores e pela reflexão sobre os vínculos entre produção cultural e sociedade. Para ela, hoje vão mais do que flores em vida: vai a minha enorme gratidão!

Voltemos à “árvore genealógica” ou genealogia política dos campeões de voto em São Paulo.

Para Michel Foucault, a genealogia é uma maneira de investigar a origem histórica de nossas ideias, valores, instituições e formas de poder, mostrando que eles não nasceram de uma essência imutável nem seguiram uma evolução linear e inevitável.

Campopiano e Pavanato são os frutos mais recentes de um populismo político seguido principalmente por homens brancos raivosos dispostos a tudo diante da perda de privilégios, e que ressurge no Ocidente no final da primeira década deste século. Inspirador do fanático mistificador brasileiro Olavo de Carvalho, que formou, pelo YouTube, uma geração de idiotas que se acreditavam “inteligentes”, o canadense Jordan B. Peterson foi o que, na América do Norte, apareceu com suas “12 regras para viver: Um antídoto para o caos”, um compilado de lugares-comuns e slogans semelhante ao execrável “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, que Carvalho lançaria depois no Brasil e que faria a cabeça dos idiotas do MBL e do lavajatismo e de celebridades ocas e ressentidas como Danilo Gentili.

Peterson e Carvalho recorrem e distorcem o conceito de Carl Jung de “arquétipos” para defender que “a cultura simbólica é arquetípica e miticamente masculina” e, por isso, seria “antinatural” resistir à hegemonia do macho. Vejam que este é também o discurso do ator Juliano Cazarré, discípulo de Olavo de Carvalho, em seu curso para machos inseguros chamado pomposamente de “O farol e a forja”.

Contudo, apesar de recorrerem vulgarmente às ideias de ancestralidade e mito presentes na obra de Carl Jung – intelectual já controverso em sua época por seu excesso de mistificação –, Peterson e Carvalho não vão além do século 19, principalmente de seu final, quando pululavam charlatães intelectuais que pregavam credos de redenção e purificação enquanto se agravava a crise econômica e política do capitalismo, que abalava a fé na democracia, e que fariam a cabeça de sociopatas como Mussolini, Hitler e Franco. Qualquer semelhança com o que estamos vivendo desde a primeira década do século 21 não é mera coincidência. O sucesso eleitoral de idiotas mistificadores corresponde à insegurança de eleitores diante de um mundo que se transforma irreversivelmente, derruba velhas hierarquias e traz à tona novas formas de viver. O voto nesses mentirosos profissionais e o sucesso de charlatães como Pablo Marçal e Augusto Cury correspondem ao mesmo desejo de restauração de uma ordem e de privilégios perdidos. Isso também mostra a assimetria de poder entre o saber construído nas universidades – que exige leituras de livros, experimentos, testes, teses, antíteses, síntese, memória e consensos construídos em diálogos baseados em honestidade intelectual – e a doutrinação de vigaristas disfarçados de “intelectuais” no YouTube e no TikTok.

As palavras de Romain Rolland, escritas em 1910, para descrever o clima “intelectual” da época cabem perfeitamente para dar cabo dos gurus do MBL e de suas crias Campopiano e Pavanato: “Com o trem da religião, pequenas lufadas de teosofia, misticismo, crenças esotéricas e ocultismo chegaram para se instalar no porão da mente ocidental”. Um dos ideólogos fascistas que faziam sucesso naquela época era Julius Evola, guru de Steve Bannon. Outro desses reacionários com verniz intelectual para enganar e fabricar idiotas – embora digam o contrário; e isto está claro na metáfora da “red pill”, apropriação tão distorcida da narrativa de Matrix quanto a referência aos “arquétipos” junguianos – foi Joseph Campbell, que, além de atacar os intelectuais marxistas de sua universidade, mal disfarçava um ódio virulento contra os judeus e os negros.

O próprio Donald Trump foi formado como figura pública a partir dessa tradição de charlatães e “fanáticos insossos”. Em seu livro “The art of the deal” (A arte da negociação), o atual presidente dos EUA acusado de crimes em série e atualmente rejeitado por quase 75% da população daquele país, confessa vender a povo uma mistificação: a do empresário bem sucedido nos negócios, a do homem de Deus e um defensor da pátria e da família e do bons costumes. Como a maioria alemã dos anos 1930, a maior parte dos votantes elegeu este ignorante motivado e impostor que agora ameaça abertamente países democráticos como o Brasil.

Vejam, portanto, que a árvore genealógica política dos atuais reacionários misóginos, racistas e homofóbicos que saíram vitoriosos no primeiro turno das eleições abriga os criminosos que perpetraram o Holocausto, a Guerra Civil Espanhola e toda sorte de atrocidades que vieram com a ascensão do fascismo e a consequente Segunda Guerra Mundial. E, por suposto, do lado das esquerdas, os vitoriosos não poderiam ter sido outros que os que fazem das mídias sociais sua fonte de “conhecimento” e sua vitrine. Ao fim e ao cabo, trata-se da vitória da mistificação digital!

Devemos, portanto, temer (sem deixar de resistir) a esse espetáculo de estafadores mentirosos e intelectualmente limitados. Eles podem nos meter em campos de concentração, câmaras de gás e valas comuns. Cada eleitor que deu seu voto a essa camarilha trevosa deve arcar com as consequências de sua escolha, pois o mundo que desejou restaurar através desse voto não será restaurado nem com toda a violência que os eleitos pregam. Um novo mundo vai nascer amanhã, apesar de hoje.

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc) e O anonimato dos afetos escondidos (Tusquets Editores).

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/a-figueira-do-mal/