Quando se pensa em Salomé, o imaginário coletivo tende a evocar, antes de tudo, a imagem da mulher que seduziu Nietzsche e outros grandes pensadores de seu tempo. Uma leitura que, à primeira vista, parece elogiosa: Lou, a mulher mítica, sedutora, poderosa, que enlouquecia de desejo os titãs da sua época. Isso não seria algo a se lamentar. Do que descobri da biografia dela, não me parece que se sentiria ofendida com essa descrição, inclusive por nunca ter parecido agir em busca do olhar de aprovação, ou não parecer se incomodar muito em como seria definida pelos outros. Sua forma de viver a vida foi além de se importar se os outros a julgavam uma enfeitiçadora de homens. Mas, diante da força dessa imagem que rodou e roda o mundo, podemos nos questionar em que medida grande parte de suas contribuições intelectuais acabou ofuscada pela imagem de mulher-bruxa. Isso porque quando sua figura reaparece, reiteradamente, como a de mulher sedutora, é quase como se sua relevância histórica dependesse desse fascínio, apagando o foco de suas inestimáveis contribuições filosóficas, psicanalíticas e literárias.
Os efeitos mágicos dos encontros com Salomé, assim como a aproximação entre o erotismo e o ato criativo que atravessa sua vida e sua obra, fazem parte da lenda Lou Salomé: contava-se que cada homem por quem ela se apaixonava dava à luz um livro magistral após nove meses. Não existia Lou sem paixão: não apenas pelos outros, como pela vida; esse era o caminho de sua criação, esse era o elemento de transformação do outro e de invenção de si. Nela encontramos a criatividade como uma maneira de existir e temos nela um escrever (d)a psicanálise marcado por essa abertura, um feminino (poético) inscrito no estilo de escrita. Algo que, em alguma medida, não escapou a seus contemporâneos quando a apelidaram de a poeta da psicanálise.
Dentro do campo psicanalítico, ela foi uma das principais interlocutoras tanto do pai da psicanálise – Sigmund Freud – quanto do círculo psicanalítico da primeira geração de psicanalistas, dentre os quais podemos destacar Ferenczi e Tausk, grandes entusiastas da riqueza intelectual e afetiva das trocas com Salomé.
A psicanalista Nina Leite situa Lou na série de outras mulheres insubmissas que, na esteira de Dora, levou a psicanálise e os psicanalistas a pensarem, a se abrirem ao inconsciente, a algo do campo do indomável. É assim que Leite comenta o efeito Salomé em Freud como algo (do feminino) que vai muito além da imagem de sedução tão respaldada, mas que fala do desconhecido a que Freud pôde acessar via Lou. Vale retomar que essa é a definição que Lou Salomé dá ao feminino, que só pode ser encontrado em si por meio do outro: esse desconhecido, inefável, mas acessível também em um homem – no caso Freud – por meio de uma mulher.
Em Salomé, a presença do feminino se revela não apenas na tessitura da sua escrita, mas também como um dos temas de suas principais contribuições ao campo psicanalítico. O erotismo ligado ao feminino é o tema mais persistente na sua obra se concebermos como, para ela, o erotismo se amplia e abarca seus interesses filosóficos anteriores ao seu encontro com a psicanálise: o Todo-místico, os percursos em que cada um se une ao todo, em que o humano se conecta ao universo. Mais do que uma suposta atribuição de gênero, para ela o feminino é algo da ordem de uma epifania criativa que todos os humanos experienciariam no momento de fantasiar, de ilusão na construção da realidade, do surgimento do traço mais singular de si a partir da imersão no universo, da mistura com o Todo.
É interessante notar como há uma positividade do feminino em Salomé. Não se trata de um feminino complementar, que deveria se ater a suprir uma falta do outro. Para ela, uma mulher (alguém em posição feminina) teria uma maior sensibilidade ao Todo, um saber de que o que a une a outro não permite algo fechado, que há sempre algo do universal no mais íntimo de cada um. Nesse contexto, o corpo feminino seria propício para encarnar essa experiência do para além de si, de encontro com a vida, com o universo. Sob essa perspectiva, maternidade, erotismo e arte seriam experiências especialmente fecundas, que possibilitam transcender a si mesmo, pondo algo do corpo em jogo, algo que toca ao nível do ser e que alicerça o momento criativo de união com o mundo.
Aqui estamos diante de um feminino não fálico, enquanto elemento de vida, de abertura, de outros gozos que permitem a união com o Todo. Assim, ao se reconhecerem não todo, tanto o homem quanto a mulher acessariam a uma posição feminina inovadora. Nesse sentido, Lou vai além do Édipo, rompendo com qualquer vestígio da ideia de mulher como supostamente invejosa do falo (pênis), com relações de rivalidade. Ela seria justamente a personificação dessa liberdade, de uma sexualidade a ser inventada por cada um. Sob esse ângulo, o enigma que a movia não era o assassinato do pai pelos filhos ou a rivalidade com o pai e entre irmãos – sob um crivo edípico –, mas a questão do vazio com o qual ela deparou ao pensar no mundo sem Deus. Desse modo, sua grande questão seria o Outro que não existe e a vida e a liberdade que se podem criar com isso, a partir disso.
O narcisismo ganhará uma versão que podemos designar de feminina e que se articula justamente com sua busca intelectual e existencial de pensar o reencontro de cada um com o universo. No texto Narcisismo como dupla direção, Lou irá valorizar o papel do narcisismo para o reencontro com o substrato primitivo em cada um, o qual teria como gênese o Todo. Ela usa a imagem do cordão umbilical para falar de uma parte de exterioridade tão íntima de nós, extimidade encarnada que ilustra quanto haveria em cada um de nós um estado de indiferenciação, um registro originário corporal, zona fronteiriça em que o humano se conecta com o Todo. Ela faz uma releitura do mito de Narciso, como aquele que se suicida ao se afogar na própria imagem refletida na água. Para Lou, o amor de si é força vital, pois, estruturalmente, significa amar também tanto os outros quanto o mundo, o universo, o Todo. O Narciso de Lou não se mata ao adentrar a própria imagem; ele renasce um novo ser devido à imersão de seu reflexo na natureza (Todo). Quando Narciso se fusiona com sua imagem refletida na água, há uma nova descoberta do Todo, e surge uma parte de si até então desconhecida.
Aqui se torna evidente um traço característico de seu modo de pensar: Lou frequentemente se apropria de conceitos psicanalíticos de forma bastante livre, quase “canibal”, reinterpretando-os em direções distintas daquelas incorporadas em outras tradições teóricas. Em vez de endossar plenamente o dualismo pulsional freudiano, Narcisismo como dupla direção retrata como a psicanalista concebe uma dinamicidade que não se circunscreve em uma oposição entre pulsão de vida e pulsão de morte. Lou preferia pensar em uma dupla tendência do narcisismo, uma das quais corresponderia ao movimento de ida, outra, ao do retorno à indiferenciação originária, isto é, à identificação primordial com o Todo. O narcisismo, nesse sentido, não seria uma fase a ser superada no desenvolvimento, mas uma dimensão persistente da experiência humana, na qual o sujeito permanece ligado a uma totalidade que transcende a individualidade. Criatividade e vitalidade encontrariam, assim, sua fonte nesse substrato indestrutível que sustenta a experiência humana: o narcisismo.
A tarefa da psicanalista consistiria, então, em aproximar-se dessa dimensão originária junto ao analisando, acompanhando-o neste movimento de ir e vir, para que o analisando ressurgisse alargado, tanto existencial quanto pulsionalmente, pelo encontro com o Todo. Isso não se limitaria ao campo analítico estrito, transcorrido dentro de um consultório. Inclusive, é precioso notar como ela descreve nessa linha de pensamento toda criação artística, assim como podemos observar nas suas profundas trocas epistolares com o poeta Rilke as ressonâncias do feminino, da abertura possível de uma relação em que ambos se entregam a zonas profundas de intimidade e de encontro com o não pensado.
O movimento de pensamento de Salomé operava com frequência uma transformação conceitual reintroduzindo na esfera da vitalidade o patológico, o destrutivo, assinalando os limites de nossa capacidade de pensar certas dimensões da experiência. Essa mesma perspectiva aparece em sua releitura da pulsão de morte: em vez de concebê-la como uma tendência destrutiva fundamental, ela tende a inverter o valor negativo que essa noção adquire na metapsicologia freudiana, propondo que vida e morte se entrelaçam enquanto uma totalidade que nos escapa, assim como a metade da lua que, embora nos seja invisível, ainda assim forma parte do todo. Lou sugere que a teoria freudiana enfrenta uma dificuldade metodológica ao tentar conceber o inorgânico apenas em termos negativos. Aquilo que chamamos de “inorgânico” em psicanálise, afirma ela, talvez não seja mais do que o limite de nossa capacidade de pensar certas dimensões da vida psíquica. Nesse sentido, o que se apresenta como morte poderia ser compreendido como uma ressonância particular da própria vida.
Lou Andreas-Salomé deslocou o acento de vários conceitos freudianos para a dimensão do feminino; precisamente aquilo que, no texto de Freud, permanece não conceitualizado, mas inquietante. Se levarmos em conta toda a produção da autora que não foi oficialmente incorporada ao mainstream, inclusive sua troca de correspondências com a primeira geração de psicanalistas, é evidente a marca de um feminino que vai muito além de qualquer captura fálica restrita. Aliás, é interessante pensar o papel de Lou como esse feminino plural que era interlocutor de Freud. Relembremos aqui como ela explora o conceito de narcisismo e pulsão de vida/pulsão de morte propondo uma abertura da psicanálise, um revigorar possível da psicanálise se ela se permitir alargar o campo do (im)pensável, denunciando muito mais limites de certos modos de se praticar a psicanálise do que características do “objeto” em si.
Quando se apaga Lou da psicanálise, apaga-se esse feminino plural, insistente, que ecoou com toda sua força subversiva nos primórdios do campo e que marcou intensamente os primeiros psicanalistas em sua criatividade para ousarem pensar o que nunca antes havia sido pensado no campo das ideias. O feminino em Lou, esse que aprendemos com Lou, é convite aberto e ilimitado para ousarmos, para sermos livres, para rompermos com prisões fálico-normativas no modo de pensar o mundo.
Procurei, neste texto, realizar um convite para atravessarmos o véu do mito e redescobrirmos Salomé para além da figura consagrada da mulher sedutora que despertou a paixão de grandes homens de seu tempo. Sem negar a força dessa imagem – que ela própria jamais pareceu repudiar –, propus um deslocamento: apresentar alguns pontos de suas principais contribuições ao campo psicanalítico, tendo como pano de fundo o retrato de sua figura múltipla e inquietante, cuja obra permanece relevante e demanda reconhecimento à altura de sua importância.
Marina Bialer é psicanalista, escritora, membra do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e doutora em psicologia clínica pela USP e em psicopatologia pela Université Paris
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