Apesar de ontem – Revista Cult

 

“O real resiste”, disse o poeta Arnaldo Antunes em meio à batalha dura que vencemos no domingo. A frase ajuda a compreender o momento que acabamos de viver. O real resiste à mentira organizada, à fabricação do ressentimento e às tecnologias que tentam substituir a experiência humana por uma realidade produzida para atender aos interesses econômicos e políticos de plutocratas e tecnoligarcas do capitalismo financeiro, de plataforma e vigilância. O real resiste porque, mesmo quando forças autoritárias parecem dominar o debate público, há pessoas dispostas a disputar o mundo e defender um futuro mais promissor.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições brasileiras, em 25 de outubro, ultrapassa as fronteiras do país. Lula foi eleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. A diferença não apaga a dimensão da ameaça enfrentada, mas mostra que a extrema direita não conseguiu transformar sua máquina de propaganda em hegemonia eleitoral. Pela primeira vez desde a redemocratização, o candidato que terminou em segundo lugar no primeiro turno, venceu o segundo. A vitória resultou de mobilização social, organização política e disputa de narrativas.

O real resistiu nas ruas e nas redes. A ocupação do espaço público, com forte participação de jovens estudantes, devolveu à política uma dimensão que os algoritmos tendem a reduzir: a presença dos corpos, a convivência, o conflito democrático e a possibilidade de reconhecer o outro para além da tela. Nas mídias sociais, usuários organizados em diferentes frentes enfrentaram a desinformação e ajudaram a fortalecer uma candidatura submetida a condições desiguais de disputa. A Agência Brasil registrou a importância da mobilização digital e das manifestações de rua para a virada eleitoral.

Artistas, intelectuais, jornalistas e cidadãos também compreenderam a gravidade daquele momento. Entre eles, incluo a mim mesmo. Não nos movia a expectativa de que um presidente resolvesse sozinho as contradições do país, mas a consciência de que estava em jogo a possibilidade de continuar disputando democraticamente os sentidos da vida coletiva.

A eleição brasileira também se insere num cenário internacional de articulação entre lideranças autoritárias, interesses econômicos, setores religiosos, máquinas de propaganda e plataformas digitais. Desde a primeira eleição de Donald Trump, em 2016, consolidou-se uma engrenagem baseada em ressentimento, espetáculo, desinformação e manipulação algorítmica. A vitória de Lula interrompeu, no Brasil, parte desta engrenagem que se materializava na candidatura de Flávio Bolsonaro.

Por isso, as relações entre big techs, Trump, Netanyahu e a direita israelense, o cyber-criminoso argentino Fernando Cerimedo e o PL de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas com atenção. Há indícios de uma articulação política e tecnológica que combina plataformas, inteligência artificial, redes de influência e desinformação. As empresas que controlam a circulação de informações não são neutras: seus sistemas definem o que ganha alcance, o que desaparece e quais emoções são estimuladas. Trump e Netanyahu aparecem como os ícones políticos internacionais dessa ofensiva antidemocrática, antirrepublicana e iliberal; Cerimedo aparece como seu operador de propaganda e engenharia digital na América Latina; e Flávio Bolsonaro e o PL como beneficiários dessa organização político-criminosa no Brasil. Isto venho descrevendo e denunciando há tempos, antes mesmo de meu último encontro pessoal com o presidente Lula, em 2023, quando lhe falei com detalhes dessa conjuntura.

Durante a campanha, a candidatura de Lula denunciou restrições à distribuição de suas publicações e diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial da Meta. Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que a empresa garantisse tratamento igualitário às candidaturas, sob pena de multa diária de 500 mil reais. No dia seguinte, o plenário do TSE manteve a decisão. A Meta negou favorecimento político e atribuiu os episódios a “falhas técnicas e ao cumprimento das regras eleitorais”. Ainda assim, as decisões judiciais, as denúncias e a opacidade das plataformas mostram que o alcance das candidaturas e a formação da opinião pública se tornaram objetos de disputa política desde a primeira eleição de Donald Trump em 2016.

A engrenagem envolve, portanto, dinheiro, propaganda, influenciadores, setores religiosos e uma indústria de ressentimento que transforma medo em voto. 

A resistência do real que levou Lula à vitória ocorreu igualmente no campo do jornalismo. Em meio à manipulação de informações e ao moralismo seletivo, veículos e profissionais investigaram fatos de interesse público e confrontaram versões convenientes aos interesses dos donos da mídia hereditária (principalmente os das Organizações Globo, mas também os da Folha de S. Paulo, Estadão, Veja, Metrópoles, CNN Brasil et caterva, que abriram mão da ética jornalística para se transformarem em esgotos de desinformação que desembocavam no bueiro da campanha de Flávio Bolsonaro, favorecendo-a inegavelmente): A revista Piauí, por exemplo, publicou reportagens sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro, acompanhando uma investigação de repercussão política e econômica. O canal Revelando, dirigido por Alessandra Orofino, o ICL, The Intercept Brasil, Paulo Motoryn, a Revista Fórum e a Revista Cult, que é minha tribuna, assim como perfis independentes nas redes, participaram de diferentes maneiras de levar a verdade dos fatos aos eleitores e desmascarar a desonestidade intelectual dos sabujos que se fingiam de “neutros”. 

Defender o bom jornalismo não significa defender Lula, mas reconhecer a importância de investigar, verificar, contextualizar honestamente os fatos e prestar contas ao público, principalmente quando se sabe no que Flávio Bolsonaro está envolvido. E não podemos nos esquecer da organização, por parte do deputado André Janones, do “exército” de usuários orgânicos das mídias sociais que enfrentou os algoritmos e impulsionou naturalmente a campanha de Lula, entrelaçando as ações nas redes com as ações nas ruas, numa espécie de Zion brasileira da trilogia Matrix. O PT que estava reduzido à racionalidade de machos burocratas do século 20 nos deve muito e espero que atue com mais gratidão e menos traição aos bravos e bravas soldados que deram o melhor de si nessa batalha! Oremos!

A mobilização internacional também foi visível. Madonna compartilhou uma publicação do fotógrafo Rafael Pavarotti em apoio a Lula, e outras personalidades estrangeiras se manifestaram em favor do presidente. O diretor de cinema Kleber Mendonça reuniu grandes astros de Hollywood fazendo o L. Políticos de prestígio internacional manifestaram seu apoio a Lula. Esses gestos situaram a eleição brasileira num debate mais amplo sobre democracia, cultura, direitos e soberania, que é travado em todo o mundo contra a extrema direita.

Há, porém, outra dimensão dessa vitória: a disputa estética. Não se trata de hierarquizar gostos pessoais nem de dividir a sociedade entre quem supostamente entende ou não de arte. Trata-se de compreender a estética política como produção de sensibilidades, comportamentos, imagens de sucesso e formas de expressão. Em determinados contextos, a vulgaridade pode ser apresentada como autenticidade, a brutalidade como força e a ignorância como motivo de orgulho.

A partir de uma provocação da filósofa Marilena Chaui sobre a classe média brasileira, proponho pensar como a abominação estética pode acompanhar formas de abominação ética, cognitiva e política. Chaui associa a dimensão ética à violência, a cognitiva à ignorância e a política ao autoritarismo e ao fascismo. A extensão dessa reflexão para o campo estético é minha: interessa-me observar o que ocorre quando a violência se transforma em espetáculo, a ignorância em credencial e o autoritarismo em entretenimento.

A estética fascista não se reduz a preferências musicais, gêneros populares ou modos de vestir. Ela aparece na exaltação da força, na obediência ao chefe, no desprezo pela diferença, na hierarquização dos seres humanos e na transformação do outro em objeto de escárnio ou eliminação. Contra as artes vivas, as belezas das periferias, as festas populares e as manifestações culturais dos trabalhadores e trabalhadoras que estão com Lula, levantou-se a ostentação sem responsabilidade, a fama sem compromisso social e a indigência intelectual de cantores sertanejos e digital influencers que enriqueceram com as bets e com a Lei Rouanet, contraditoriamente demonizada por eles e usada para atacar injustamente artistas independentes.

Hannah Arendt ajuda a compreender como a ausência de pensamento crítico pode favorecer a banalização do mal. A arte, quando não se submete à propaganda nem à lógica estreita do mercado, amplia horizontes, desorganiza certezas e nos aproxima de experiências diferentes das nossas. A liberdade artística, a pluralidade estética e a imaginação são incompatíveis com a imposição de uma única forma legítima de existir, que era o objetivo da organização criminosa em torno de Flávio Bolsonaro.

O problema não é o sertanejo. A música sertaneja tem diversidade e importância na experiência afetiva de milhões de brasileiros. A questão está na transformação de artistas em instrumentos de propaganda e na associação, em alguns casos, entre a indústria da celebridade, plataformas de apostas e exploração da vulnerabilidade econômica e psíquica do público. A ludopatia deve ser tratada como problema de saúde pública, com prevenção, acolhimento e responsabilização de quem lucra com práticas predatórias.

Nesse ponto, a disputa estética encontra a disputa econômica. As big techs lucram com a atenção; as apostas, com a promessa de enriquecimento rápido; e os políticos autoritários e mentirosos como os da extrema direita ganham com tudo isto. Esses interesses se alimentam de uma sociedade marcada por insegurança material, competição e promessas de redenção individual.

A defesa da democracia também requer cuidado ao tratar das relações entre extrema direita, religião e atores internacionais. É preciso distinguir fiéis de dirigentes, comunidades de fé de empreendimentos comerciais e igrejas inteiras de eventuais responsáveis por condutas ilícitas. A campanha de Lula enfrentou também a instrumentalização da religião para legitimar o autoritarismo, encobrir interesses econômicos ou atacar direitos. Não, por acaso, em seu discurso imediato à vitória, o presidente tenha defendido enfaticamente a laicidade do estado e garantido que vai enfrentar a intolerância religiosa. No calor da emoção, Lula se esqueceu de mencionar explicitamente os pretos e mestiços e sua luta antirracista histórica, e de mencionar a comunidade LGBTQIAP+ que também tanto se mobilizou para lhe garantir a vitória no segundo turno. Mas nada que ele não possa corrigir no futuro imediato! 

A vitória de Lula não significa que o perigo da extrema direita tenha sido superado. Apenas mostra que a resistência é possível quando jovens ocupam as ruas, cidadãos se organizam, artistas recusam o silêncio, jornalistas investigam e pessoas comuns defendem sua capacidade de pensar diante das máquinas que disputam sua atenção.

Resistir é devolver à política seu caráter coletivo, em vez de reduzi-la a um espetáculo de egos. É fazer da esperança um projeto, não uma mercadoria. É proteger a cultura da propaganda e garantir às artes sua capacidade de imaginar outras formas de vida.

Apesar de ontem, há um amanhã possível. Não porque a história tenha garantido a vitória do bem, mas porque milhões de pessoas recusaram a ideia de que o mundo dos monstros fosse o único possível. A vitória de Lula é uma abertura, não uma conclusão; uma oportunidade, não uma absolvição. Exigirá vigilância, memória, autocrítica e trabalho coletivo.

Por representar, para muitos de nós, uma possibilidade de reconstruir a democracia e disputar um futuro de prosperidade, sustentabilidade, igualdade, fraternidade e liberdade, minhas flores em vida — vermelhas como o sangue de nossas veias — vão para Lula!

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/apesar-de-ontem/