Há uma aparente e estranha contradição atravessando o nosso tempo. Nunca as mulheres dispuseram, em escala global, de tantos instrumentos jurídicos para reivindicar igualdade; e talvez poucas vezes, desde que essa igualdade passou a ser considerada politicamente legítima, tenha sido tão audível o desejo de fazê-la recuar por uma ala raivosa, ressentida e engajada na manutenção do próprio poder. Essa contradição não é apenas uma impressão produzida pelas redes sociais. Entre 2019 e 2024, foram registradas mundialmente quase cem reformas legais positivas destinadas a remover normas discriminatórias e ampliar estruturas de igualdade de gênero. Ao mesmo tempo, aproximadamente um quarto dos países que reportaram às Nações Unidas sobre a implementação da Plataforma de Pequim reconheceu enfrentar diversos tipos de reações contrárias aos direitos das mulheres. A própria ONU Mulheres passou a empregar sistematicamente a expressão gender backlash para descrever esse fenômeno internacional de contestação às conquistas femininas. Talvez seja justamente essa coexistência simultânea entre expansão jurídica da igualdade e radicalização cultural do antifeminismo que esteja sendo insuficientemente compreendida. Continuamos organizando a história das mulheres através de duas metáforas incompatíveis e igualmente falhas. A primeira é a do progresso linear: o passado teria sido patriarcal, mas o direito e a democracia estariam progressivamente corrigindo essa desigualdade. A segunda é a do ciclo fechado: toda conquista feminina provocaria inevitavelmente uma reação, condenando-nos a repetir indefinidamente a mesma guerra entre emancipação e restauração. É preciso pensar na superação dicotômica de ambas. Não uma linha ou um círculo, mas uma espiral.
Há avanço histórico real e isso é inegável. Mulheres conquistam acesso à universidade, autoridade religiosa, autonomia econômica. A história não retorna exatamente ao ponto anterior. Contudo, cada deslocamento significativo na distribuição de poder produz movimentos de reorganização das estruturas que esse deslocamento ameaça. O patriarcado não permanece imóvel enquanto as mulheres mudam. Ele também aprende, encontra traduções e novas formas. Ele substitui justificativas exauridas por outras mais sofisticadas. É precisamente essa extraordinária capacidade de metamorfose que a socióloga Sylvia Walby observou ao teorizar o patriarcado não como uma instituição monolítica, mas como um sistema composto por estruturas capazes de se reorganizar diante das transformações políticas e culturais. Susan Faludi percebeu fenômeno semelhante em outra escala, mostrando como determinadas conquistas feministas nos Estados Unidos foram acompanhadas por uma ofensiva cultural que procurava convencer as próprias mulheres de que sua liberdade as tornara solitárias e infelizes. O fenômeno mais amplo no qual essas operações de adaptação e resistência patriarcal transcultural se tocam e se alimentam merece um léxico específico e uma linguagem que o traduza: a chamo de Apocalipse de Gênero.
A escolha da palavra “apocalipse” é deliberadamente ambígua. No vocabulário corrente, tornou-se sinônimo de destruição e catástrofe. Mas o grego apokálypsis designa, antes de tudo, um desvelamento: aquilo que estava encoberto torna-se visível. O Apocalipse de Gênero é, nesse primeiro sentido, uma teoria do desvelamento. Procura tornar visível uma operação de poder que se torna quase imperceptível justamente porque consegue apresentar-se como natureza, tradição ou vontade de Deus.
O corpo da mulher nunca foi apenas um corpo privado. Historicamente, ele foi convertido em fronteira. Nele, sociedades negociaram descendência, legitimidade, pureza, honra e pertencimento. Gerda Lerner insistiu no caráter histórico (e não natural) dessa arquitetura milenar de subordinação. Contudo, se Lerner nos ajuda a compreender a criação do patriarcado, o Apocalipse de Gênero pretende investigar uma operação adicional: como uma construção histórica se transforma em verdade transcendente. Uma sociedade pode organizar-se patriarcalmente porque determinados grupos controlam a terra, a guerra e as instituições. Isso é história. Mas quando essa organização passa a ser narrada como reflexo da própria estrutura do cosmos, ocorre uma operação brutal. O contingente recebe estatuto ontológico. A hierarquia transforma-se em criação e aquilo que poderia ser formulado como “os homens adquiriram progressivamente maior controle sobre as instituições” é posteriormente enunciado como “Deus criou homens e mulheres com funções diferentes”. A história desaparece. Resta apenas a ordem. Não a esmo a teóloga Mary Daly diz que “Se o homem é macho, então o macho é deus”.
É a esse processo que proponho dar o nome de sacralização retrospectiva da desigualdade. O adjetivo “retrospectiva” é aqui a chave conceitual. A literatura sociológica clássica já demonstrou como a religião pode funcionar como legitimadora de assimetrias sociais. No entanto, a sacralização retrospectiva descreve um mecanismo temporal específico: a desigualdade não nasce sagrada; ela se instala pela força, pela economia ou pela coerção, consolida-se pelo tempo até virar “tradição”, e apenas a posteriori é envelopada em um discurso teológico que a projeta para o princípio dos tempos. A desigualdade é inventada no meio do caminho, mas a teologia cristã a empurra para o Gênesis através de uma linguagem mítica escrita historicamente de modo retroativo. Esse mecanismo de sacralização exige um instrumento de manutenção. Não basta criar o mito da subordinação divina; é preciso garantir que aqueles que são subordinados não tenham acesso às ferramentas de reinterpretação do mito.
No judaísmo feminista, Judith Plaskow formulou uma pergunta que parece simples até que percebamos suas consequências: “Quem estava no Sinai?”. A questão deixa de ser apenas “o que a religião diz sobre as mulheres?” para tornar-se “quem teve autoridade para dizer o que a religião é?”. Essa mudança de eixo é de grande importância, pois revela a dimensão epistemológica da desigualdade. O poder religioso não consiste apenas em poder obedecer ou mandar. Consiste em poder nomear. Quem define Deus? Quem determina o sentido legítimo da Escritura? Quem fala no espaço litúrgico? Quem ocupa a memória? É para descrever essa dinâmica que temos o conceito de expropriação hermenêutica.
A filósofa Miranda Fricker introduziu o conceito indispensável de “injustiça hermenêutica” para descrever a lacuna de recursos interpretativos disponíveis para grupos marginalizados compreenderem suas próprias experiências. A expropriação hermenêutica, contudo, avança um passo em direção à intencionalidade do poder religioso. Não se trata apenas de uma lacuna passiva de sentido, mas de um confisco ativo. Uma comunidade pode permitir que mulheres creiam em Deus, lotem os templos, sustentem financeiramente a instituição, e simultaneamente expropriá-las da capacidade de produzir discurso autorizado sobre esse mesmo Deus.
Mulheres habitam a religião, mas não controlam a linguagem através da qual a religião as define. Ao contrário, são controladas e docilizadas por ela. O que ocorre é uma espécie de lobotomia teológica. Uma forma extraordinariamente sofisticada de poder, pois o oprimido passa a utilizar o vocabulário do opressor para descrever a si mesmo. Quando teólogas como Elisabeth Schüssler Fiorenza no cristianismo ou Amina Wadud no islamismo propõem a reconstrução histórica e a “desleitura” (unreading) de interpretações patriarcais sedimentadas, elas não estão apenas fazendo exegese, mas revertendo a expropriação hermenêutica e esta não opera no vácuo; ela incide violentamente sobre os corpos. É impossível compreender o Apocalipse de Gênero em tempo presente sem aprofundar a relação intrínseca entre honra masculina, propriedade sexual e a sacralização do corpo feminino através de um manual divinamente surrado aos ouvidos masculinos. Nas sociedades patriarcais clássicas, a mulher não possuía honra intrínseca; ela era a depositária da honra da linhagem masculina (do pai ou do marido). A pureza sexual feminina foi elevada à condição de capital simbólico mais valioso de uma família. A teologia do hímen e os testes de virgindade, presentes em culturas tão diversas, não eram exigências de santidade moral, afinal, nunca se exigiu contrapartida masculina, mas garantias de propriedade. Garantia-se que a linhagem não seria contaminada e que a herança seria transmitida ao herdeiro legítimo. O que a sacralização retrospectiva fez foi pegar essa necessidade econômica e jurídica de controle patrimonial e transformá-la em virtude espiritual. A mulher foi ensinada a ver a guarda do próprio corpo como um serviço a Deus, quando, na verdade, era um serviço ao patrimônio de um homem, seja este o pai da família, o marido como novo núcleo ou até o irmão a ser cuidado no futuro. A violência de gênero, portanto, não é uma anomalia do sistema; é a sua ferramenta de manutenção. Quando uma mulher transgride essa fronteira, a violência contra ela assume uma dimensão comunicativa. Como demonstra Rita Segato, o feminicídio e a violência sexual são linguagens de poder e territorialidade. O corpo da mulher é o território sobre o qual a soberania masculina escreve a sua lei, frequentemente com o aval silencioso (ou explícito) de uma hermenêutica expropriada.
Sedimentação, Apocalipse e Armagedom como modelos analíticos
Se apokálypsis é desvelamento, o Armagedom é seu filho primogênito, pois representa a reação violenta àquilo que foi desvelado. A literatura apocalíptica não é composta apenas por revelação; ela é habitada por bestas, combate cósmico e julgamento final. Essa dimensão bélica é fundamental. O que estamos testemunhando hoje não é um mero “retrocesso” conservador, mas uma fase particular de uma longa disputa. Para compreendê-la, proponho que o Apocalipse de Gênero seja lido não como um evento isolado, mas como um modelo analítico operando em uma tríade cíclica: Sedimentação, Apocalipse, Armagedom.
Sedimentação: É o longo período em que as desigualdades históricas e as relações contingentes de poder se solidificam. A sacralização retrospectiva faz seu trabalho. A expropriação hermenêutica é total. A subordinação feminina é percebida como ordem natural ou vontade divina. A estrutura é invisível porque é onipresente;
Apocalipse (O Desvelamento): Ocorre quando a sedimentação é rompida. Mulheres acessam a universidade, o mercado de trabalho, o púlpito, uma própria epistemologia. A hermenêutica feminista é um removedor de véus. Aquilo que durante séculos pôde ser descrito como natureza passa a ser reconhecido como história. A ordem divina revela suas relações humanas de poder. O privilégio masculino perde seu disfarce ontológico;
Armagedom (A Restauração): O desvelamento produz crise. Quanto mais relações consideradas naturais são reveladas como históricas, maior a energia empregada para renaturalizá-las. Forças de restauração mobilizam-se para reinstalar como natureza aquilo que foi exposto como poder. A disputa deixa de ser apresentada como negociação social e transforma-se numa guerra moral. A mulher autônoma ameaça “a família”; o mulherismo ameaça “a civilização do sul global”. A oposição política é demonizada como ameaça existencial. É precisamente esse modelo que explica o aparente paradoxo contemporâneo. A expansão jurídica da igualdade (Apocalipse) desencadeia inevitavelmente a radicalização cultural do antifeminismo (Armagedom). A violência da reação é proporcional ao grau de desvelamento alcançado. Após o Armagedom, a poeira baixa e uma nova Sedimentação se inicia. Mas nunca exatamente no mesmo lugar. Por isso a imagem da espiral. Porque mulheres não retornam simplesmente à condição de suas ancestrais. Mesmo quando direitos retrocedem, permanece a memória da liberdade. Permanece a linguagem jurídica. Permanece a experiência histórica. Elas choram pela filha de Jefté, mas não morrem como a filha de Jefté (ver Juizes).
Talvez seja justamente essa memória que torne determinadas restaurações contemporâneas (do afã pelo modelo tradwife nas redes sociais ao avanço legislativo contra direitos reprodutivos) tão violentas e estridentes. Elas já não precisam apenas impedir uma liberdade desconhecida. Elas precisam convencer mulheres que experimentaram a autonomia de que deveriam desejar perdê-la. E talvez nenhuma batalha seja mais difícil para uma ordem hierárquica do que esta: transformar novamente em destino aquilo que alguém já descobriu ser história.
(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));
Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/apocalipse-de-genero-a-metamorfose-do-patriarcado-e-a-guerra-contra-as-mulheres/

