Em 16 de julho de 1990, a irmã mais nova da escritora mexicana Cristina Rivera Garza foi estrangulada na própria cama pelo então namorado. Foragido, Ángel González Ramos, o autor de seu feminicídio, nunca foi encontrado pela polícia. Passadas três décadas, a autora decidiu contar a história em O invencível verão de Liliana (Autêntica Contemporânea, 2022), livro que lhe abriu portas no Brasil e articula uma amálgama de gêneros em sua composição. Ao transitar entre o arquivo, o ensaio e a memória, a obra lhe rendeu uma vitória na categoria Livro de Memórias ou Autobiografia no prêmio Pulitzer. É uma das mais altas honrarias internacionais a reconhecer trabalhos na área da literatura.
“É mentira que o tempo passa. O tempo fica travado. Há um corpo inerte aqui, preso entre as dobradiças e os parafusos do tempo, que suspende o ritmo e a sequência. Estamos presos numa bolha de culpa e vergonha, perguntando-nos constantemente: o que não vimos? Esse é o eco”, afirma em um dos trechos. Prestes a desembarcar em Paraty, onde terá destaque como convidada da tradicional Festa Literária Internacional, a Flip, Rivera Garza conduz o leitor em direção a alguns dos temas centrais de sua escrita, desenvolvidos com afinco similar em outros dois livros também traduzidos para o português.
Se em Autobiografia do algodão (Autêntica Contemporânea, 2025) ela se debruça sobre os deslocamentos de seus antepassados, agricultores que viveram na fronteira do México durante a década dourada de 1930, em Os mortos indóceis (WMF Martins Fontes, 2024) procura expor teorias. Desde 1989 vivendo nos Estados Unidos, onde se tornou professora na Universidade de Houston, propõe uma visão crítica do processo de escrita no século XXI. Em suas palavras, é chegado o momento em que o abandono da introspecção autoral dará espaço às narrativas que se formam na coletividade. Nesta coletânea, que reúne uma seleção de ensaios publicados ao longo de décadas e, mais tarde, reescritos, Rivera Garza vai além da urgência estética. Busca refletir seu ofício a partir das fissuras desconcertantes da linguagem, capazes de levá-la a escrever entre e para os mortos.
À Cult, por telefone, ela falou sobre a relação que mantém com o passado, além de discutir questões de autoria e leitura ativa em tempos de inteligência artificial. Na conversa, a escritora, que é responsável pela criação de um doutorado em escrita criativa, também ressaltou a relevância política da escrita em espanhol no segundo governo de Donald Trump, redefinidor do autoritarismo.
A senhora sempre teve posicionamentos sólidos em relação às raízes binacionais que possui. O quão importante considera este aspecto para a sua escrita?
De fato, reconheço ter uma experiência muito importante nesse sentido. A minha relação com o México e os Estados Unidos é estreita, complexa e, igualmente, muito contraditória. Digamos que, tal qual fui explorando no livro Autobiografia do algodão, se queremos falar de raízes, devemos abarcar esse terreno fronteiriço entre os dois países, tendo consciência de que é por aí onde passa toda a história da minha família. É onde ocorreram acontecimentos importantes dos meus anos de formação, da minha aprendizagem. Logo, a relação que estabeleci com a paisagem, com o território da fronteira, foi se fazendo algo fundamental para a minha escrita, não somente em termos de trama e das histórias que conto, mas também pela forma com que vai se configurando uma visão que está sempre centrada no cruzamento, às margens do abismo, nas transformações que implicam viver aí.
Um dia antes da nossa conversa, completaram-se 35 anos da morte de sua irmã. Quão significativo foi escrever O invencível verão de Liliana para o seu processo de luto e elaboração do trauma?
Ontem, minha família e eu fizemos uma apresentação do livro no Colégio Nacional, centro educacional bastante tradicional da Cidade do México. Foi uma experiência bastante tumultuada. O auditório estava cheio de jovens, autografei livros e honramos a memória de Liliana. Mais do que nunca, estive certa da importância desse livro não só para mim e para minha família, em termos de transformação do luto, mas também para terceiros. A forma com que várias meninas jovens se referem a ela após a leitura e me agradecem por lhes dar sinais, bem como o caminho para sair de relações tóxicas. Ouvi muitos depoimentos sobre conhecer o ímpeto da própria liberdade. Foi, realmente, uma experiência muito emotiva, da qual ainda me recupero. Pude ver Liliana, 35 anos depois, tão viva e abraçada, tão querida. Isso me ensina algo a respeito do poder da literatura, do que as palavras podem nos proporcionar em contrapartida daquilo que nos machuca em termos de morte, injustiça e violência também.
Há quem diga que nós, latino-americanos, carregamos nossos mortos por onde vamos. Por que falar sobre a morte ainda é um tabu?
Acho que as discussões que temos atualmente, à sombra do que se chama de “novos materialismos”, tem nos ensinado a descentralizar, por exemplo, a agência humana ou colocá-la em contato com outros tipos de presença, como a dos animais e das plantas. Se estendemos e radicalizamos esta visão, não há razão para não incluir aí os nossos mortos. Às vezes, as fronteiras entre a vida e a morte são muito mais tênues e porosas do que pensamos. Algo que tenho tentado me aprofundar mais são as relações que estabelecem as comunidades indígenas com seus mortos por toda a América Latina. Parece-me ainda que há exemplos interessantes na Europa. Vivi durante um ano e meio em Berlim e percebi que a cidade se volta completamente para a ideia de abraçar aqueles que já se foram. Há lembretes por todas as partes, vemos com frequência quadrinhos de cobre com nomes das pessoas que foram levadas para campos de concentração. De fato, há lugares em toda a Europa em que essa relação com os mortos é uma parte estrutural do desenho urbano. É mais uma questão de estar alerta, de colocar atenção e nos desfazermos de estereótipos para que possamos ver com cuidado as múltiplas formas com que não só nós, latinos, estendemos nosso diálogo cotidiano com nossos seres queridos, que não estarão fisicamente conosco, mas que continuam do ponto de vista emocional, formando parte de nossas redes de afeto. É uma ampliação da vida e não o contrário, é uma dilatação, uma multiplicação da nossa capacidade vital.
A senhora é uma das criadoras do doutorado em escrita criativa na Universidade de Houston. Quando publicou Os mortos indóceis, escreveu artigos em que discutia os discursos que surgiam em redes sociais como o Twitter e blogues. Agora, as questões relacionadas à criação parecem ter se voltado para a inteligência artificial. Sente que ela pode ser uma ameaça à literatura?
Quando comecei a usar o Twitter e blogues, no início do século 21, diziam que estas eram máquinas que, a priori, picotavam a nossa linguagem. Para mim, no entanto, elas soavam como guias, como facilitadoras de uma exploração literária que passava por caminhos inéditos. Nunca me pareceu algo ameaçador, e sim um caminho que valia a pena percorrer. Agora, com a IA, sinto que estamos menos preparados para entender todo o fenômeno. Como professora universitária, tenho que lidar com ensaios e artigos no fim do semestre feitos por alunos que, não raro, recorrem a ferramentas do gênero. Ao menos até agora, essa tecnologia não pode captar detalhes concretos, sensoriais – o que é central para a literatura. É o que ela oferece à discussão pública, de modo a destacar e apelar ao nosso sistema de percepção. Falta desenvolvimento, e não duvido que o conquistem em breve. A questão é que, como qualquer tecnologia, seria preciso saber utilizá-la para nossos fins. Há coletivos espalhados por todos os países de língua espanhola lutando por isso. As novas gerações vêm trabalhando para entender como isso funciona, a demonização e a proibição não vão funcionar, nunca funcionaram em nenhum contexto. O que eu proponho a mim mesma é desafiar-me a entender como funciona, estudá-lo e analisar quais são os interesses incluídos aí. Tratar de participar como um agente ativo e não como um peão dos grandes bilionários de nossos tempos.
Em seus ensaios, discute a relação entre morte e escrita com frequência, defendendo a profundidade de seus vínculos e equiparando sua relevância. Como tem visto o uso da escrita como ferramenta política em 2025, este ano tão intenso?
Uma definição ampla de política tem que englobar relações de poder. A linguagem não está isenta, não está fora dessa dinâmica. Muito do que nos atravessa se estrutura nessa mesma linguagem que utilizamos e qconsue nos trói. Não estamos falando aqui de um tipo de literatura, como se não houvesse literatura que não fosse política. Parece-me que se utilizamos a linguagem, somos partícipes de relações de poder que são turbulentas, virulentas e dinâmicas. O que refleti durante os anos em que escrevi Os mortos indóceis foi uma visão contrária a essa ideia de que a literatura é um ato inexplicável e individual. Meu interesse era falar dela e da escrita como práticas que envolviam corpos concretos, que estavam tão bem envolvidos em relações e exercícios de poder desde posições muito distintas no corpo social. Sustentava algo que estou disposta a seguir defendendo: como escritores, estamos tomando emprestadas linguagens que comunidades inteiras utilizam. Não há forma de pensar que nossa literatura não esteja envolvida com a história, com as fricções, as possibilidades e a potência que carregam linguagens que não nos pertencem. Essa definição, num sentido amplo e não em um sentido ideológico, me parece fundamental hoje.
Em Autobiografia do algodão, a senhora escreve que “a tarefa mais básica, mas também a mais honesta e difícil, é identificar as pegadas que nos acolhem”. Considera que escrever sobre o passado seria a forma mais adequada de encontrar respostas para as inquietações que temos no presente?
Para mim tem sido. Cada vez que me volto em direção ao passado não é porque me senti melancólica por algo que não vivi, ou considerando que o passado foi melhor. Isso não me move. O que me importa, precisamente, é a reativação de processos e experiências que muitas vezes têm sido enterrados ou considerados ‘mortos’ ao longo da história. São coisas que uma releitura pode trazer outra vez ao debate público. Nesse sentido, entendo que toda escritura é um processo de reescritura, que estamos constantemente fazendo isso sobre e com os vestígios de terceiros. Esse olhar que lanço em direção ao passado, repito, não tem relação com a nostalgia, e sim com perguntas que nascem do presente, respostas que chegam com essa capacidade de intervir no agora também.
O historiador Georges Didi-Huberman defende a ideia de que o ato de dar a ver não está atrelado às evidências visíveis, mas sim a um exercício do nosso “dom visual”, capaz de inquietar. Quando pensamos no potencial imagético da literatura, como sente que ele nos ajuda a criar outras leituras de nossos dilemas sociopolíticos?
Estou absolutamente de acordo com Didi-Huberman. Não acho que todos os livros o fazem, porque não se propõem fazê-lo, mas esta talvez seja uma das capacidades mais potentes que podemos atribuir à literatura. Quando falamos de detalhes sensoriais, sabemos que estes apelam a todos os nossos sentidos. Ao tato, ao paladar, ao olfato, e uma vez que acessamos este territorio, que produzimos essa inquietude… há uma palavra no espanhol mexicano que é testeriar. Significa mover ou balançar ligeiramente algo frágil, com pouco equilíbrio. Como um vaso de flores. Elas vão tremer, mas não se desfarão. Penso que muitas vezes podemos fazer esse movimento a partir da escrita, usá-lo para questionar verdades pré-concebidas, legados que nos inquietam, heranças que estão aqui por estar. Considero a existência de uma relevância estética muito importante, há uma questão formal de peso. Mas, eventualmente, as implicações disso também têm a ver com o poder. O que vemos? Qual dos nossos sentidos privilegiamos? Como nossos corpos se aproximam do mundo? Todas essas perguntas aparentemente pequenas têm um potencial explosivo enorme.
Constantemente, o presidente Trump reafirma a hegemonia dos Estados Unidos, mesmo que este seja um país feito de imigrantes. O quão político tem sido escrever em espanhol durante este terceiro mandato?
É importantíssimo. Veja bem, inauguramos o curso de doutorado em escrita criativa em 2017, quando o primeiro mandato de Trump estava a ponto de terminar. Era também o mesmo semestre em que a Casa Branca removeu o espanhol de sua página web. Estávamos enfrentando um apagamento que foi ganhando camadas cada vez mais cruéis e perigosas. Os estudantes com os quais trabalho vêm da América Latina, são migrantes. Minha Universidade é pública, muitos deles são os primeiros da família em ter esse nível de educação, muitos não possuem sequer documentação. Um tempo atrás, pensávamos nas universidades como lugares de privilégio, e no entanto vemos que agora existe um revés: elas são focos dessa ira. Então, antes de qualquer coisa, o gesto de escrever se revela extremamente relevante em qualquer idioma se nos situamos em um lugar de dissenso. Isto posto, poder fazê-lo em espanhol, nos Estados Unidos, implica o reconhecimento da força demográfica da nossa comunidade, que não vai desaparecer apenas por uma ordem executiva. Há que se considerar ainda a presença cultural enorme e histórica das comunidades hispanohablantes, além do fato de que existe, certamente, uma capacidade inerente aos estudos em espanhol, que nos oferecem uma visão específica e crítica para encarar os acontecimentos letais e malignos que seguem implodindo este país.
Guilherme Araujo é jornalista, mestre e doutorando em Estudos Literários no Pós-Lit/UFMG.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/as-fronteiras-e-os-mortos-de-cristina-rivera-garza/

