Negô Bispo no quilombo Lagoa das Emas, Território Lagoas, São Raimundo Nonato (PI), em 2009 (acervo nêgo bispo)
A pior maneira de recepcionar Antônio Bispo dos Santos no contexto acadêmico é transformá-lo, muito rapidamente, em mais um “autor” disponível para o mercado universitário das ideias. Foi o que parte de sua recepção recente tentou fazer ao destacar fórmulas de efeito, aproximá-lo genericamente do vocabulário decolonial, convertê-lo em filósofo assimilável e, sobretudo, separar sua obra da roça, da Caatinga, da oralidade e da experiência histórica que a torna possível. Mas Bispo recusa esse atalho. Sua proposição não nasce da suspensão da vida. Ela emerge de uma trajetória na qual há conhecimento rigoroso fora do pacto narcísico que identifica conhecimento como sinônimo de universidade e que reduz o pensamento à forma conceito.
Bispo nunca reivindicou para si o lugar de pensador, no sentido acadêmico restrito. Reiterava, em vez disso, que era tradutor, ou seja, alguém formado pela oralidade e enviado à escola para enfrentar, pela escrita, a violência contratual do mundo colonial. Essa autodefinição não é modéstia. É posição. No lugar do intelectual que produz conceitos sobre o mundo, aparece o lavrador de palavras que atravessa linguagens para propagar modos de vida. A escrita, nesse caso, não funda sua autoridade; é apropriada por ela. Seu lugar de enunciação é o da palavra que passa pela fronteira inimiga e retorna ao quilombo, em vez da teoria que paira acima da experiência.
Por isso, teve tanta força sua presença no projeto Encontro de Saberes – o prolongamento epistêmico das ações afirmativas nas universidades
Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »
(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));
Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/as-sementes-do-envolvimento/

