Da academia à Assembleia Legislativa: a construção de uma utopia travesti 

 

Sempre que tentamos imaginar um mundo sem guerra, sem violência, sem prisões, sem capitalismo, estamos engajando na ficção especulativa. Toda mobilização política é ficção científica. Ativistas dedicam suas vidas a criar e vislumbrar outros mundos, ou muitos outros mundos – e qual caminho poderia ser melhor para explorar o futuro do que as histórias de ficções? Walidah Imarisha, Octavia’s Brood: Science Fiction Stories From Social Justice Movements

Muita gente me pergunta como, sendo tão jovem, consegui conquistar um doutorado reconhecido nacionalmente, construir uma trajetória na psicologia e, agora, assumir a responsabilidade de representá-los como deputada estadual eleita por São Paulo. Se alguém me contasse que esse seria meu futuro, eu duvidaria, e muito. 

A resposta para essa pergunta não fala apenas sobre o meu esforço individual, a conhecida e vulgar meritocracia, mas sobre o país e as oportunidades que tornam os nossos sonhos possíveis. Eu não nasci em berço de ouro. E é difícil sonhar assim. 

Minha caminhada começou longe dos grandes privilégios, no seio de uma família simples; mãe costureira e pai metalúrgico. Na garagem onde minha mãe cortava peças de roupas, cresci ouvindo-a falar que estudar seria minha maior ferramenta para construir qualquer futuro. Ela, que se casou aos 15 anos de idade, e interrompeu o ensino médio para cuidar das filhas, não teve essa mesma chance. “Você é LGBT”, ela dizia, “Tudo que fizer, terá que fazer em dobro” – e infelizmente estava certa nisso. Quando a gente nasce trans, lutar não é uma escolha, é uma realidade imediata. 

A gente precisa se provar acima dos demais, e se fizermos algo de errado? Todo o coletivo paga. Uma travesti comete um erro e logo todas as travestis se tornam criminosas, na visão de um contexto viciado em nos julgar. Às amarras do poder, importa que o sujeito marginalizado continue sendo visto como uma ameaça moral para justificar sua exclusão. É conveniente. Homens brancos, não, eles são singulares. 

Quando ingressei na Psicologia, através do PROUNI, entendi que a escuta e a compreensão da dor do outro eram também técnicas políticas. Não se faz saúde mental apenas no consultório individual, no um a um. Todo sofrimento tem relação com a desigualdade e com as dinâmicas de classe. É mesmo espantoso dizer que a pobreza e a falta de oportunidades geram emoções ruins? Ressentimento, fúria, culpa. Você não iria odiar ter que sempre beber água suja, enquanto vê alguns poucos bebendo água filtrada, de maneira abundante? Creio que odiaria.  

Não cheguei à universidade sentindo que aquele espaço era pra mim. Eu era a única aluna travesti. Ainda assim, dediquei anos da minha vida à pesquisa acadêmica com um rigor do qual me orgulho profundamente. O meu doutorado, que teve o privilégio de ser premiado e reconhecido em âmbito nacional pelo Prêmio CAPES, foi o resultado do investimento de professores, estudantes e muitos anos em frente a uma telinha. E é impossível contar essa história sem falar da democracia. Tem quem reze pra pneu, quem se pendure em para-brisa de caminhão e até quem beba detergente. Eu não. Eu me pendurei em um diploma. Sou o sonho coletivo de muitas travestis que tiveram suas vidas ceifadas pela violência, e me tornei a Dra. do Lula! 

Quando olhamos para governos progressistas, vemos um projeto de país que olha com atenção e afeto para quem mais precisa. A verdadeira gestão popular de um governo não se mede apenas em discursos, mas na capacidade concreta de criar condições para que jovens talentos de todas as origens emerjam, ocupem seus espaços e realizem seu potencial. O filho da empregada doméstica, os menos favorecidos, condicionados por um verdadeiro sistema de castas pela elite para permanecerem abaixo. Contra isso, foi a democracia que investe na educação, na ciência e na inclusão, que nos permitiu buscar cidadania e ajudar nossas comunidades. 

Hoje, chego a São Paulo como a deputada estadual mais bem votada da esquerda de todo o país, carregando comigo toda essa bagagem. O consultório e a vida acadêmica me ensinaram os riscos da alienação e do sucateamento das instituições públicas. A extrema direita não quer o povo pobre consciente, crítico e engajado. Ela nos quer amortecidos, infelizes, incapazes de sonhar, de imaginar um futuro em que somos prósperas e cuidamos dos nossos pares. Até mesmo a raiva que sentimos querem tirar de nós, mas Audre Lorde já nos ensinou isso também: quando nos enraivecemos na coletividade e organizamos o que sentimos, chegamos longe e rompemos o silêncio. 

O que podem esperar da minha atuação? Podem esperar o mesmo rigor, a mesma dedicação e a mesma paixão que coloquei na minha profissão. Vou lutar para que a saúde mental, a educação pública de excelência e a porta de acesso para os menos privilegiados não sejam exceções, mas direitos garantidos a cada jovem brasileira. Minha trajetória é a prova viva de que, quando o Estado investe nas pessoas, a cidadania acontece. E nós, travestis, somos talentosas em fazer barulho. 

Agora, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, meu trabalho será garantir que essa porta continue escancarada para que muitas outras pessoas também possam passar por ela. Doa a quem doer – e espanta saber que dói. Chegamos com um projeto forte, para repensar o Estado e dar seguimento ao hackeamento promovido por Erika Hilton em Brasília. Minha maior professora. O fundamentalismo, que mais se parece um filme de terror, quer que voltemos aos armários, mas não há como fazer uma geração que começou a acreditar em si mesma perder essa coragem novamente. “E para aqueles de nós que vieram de comunidades com traumas históricos, devemos entender que cada um de nós já é ficção científica andando com duas pernas.” (Imarisha, Walidah. (2015). Octavia’s Brood: Science Fiction Stories From Social Justice Movements. Oakland, CA : [Albany, NY], AK Press).

Sofia Favero é psicóloga, escritora e ativista. Integrante da Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis (AMOSERTRANS). Doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autora dos livros Pajubá-terapia (2020), Crianças Trans (2020) e Psicologia Suja (2022). É Deputada Estadual pelo PSOL – SP (2027 – 2031) pela House of Hilton.

(function(d, s, id) {
var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];
if (d.getElementById(id)) return;
js = d.createElement(s); js.id = id;
js.src = “//connect.facebook.net/pt_BR/sdk.js#xfbml=1&version=v2.7&appId=1200972863333578”;
fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);
}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));

Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/da-academia-a-assembleia-legislativa-a-construcao-de-uma-utopia-travesti/