No Brasil, cinquenta anos de uma instituição cultural não são apenas uma data redonda. São quase uma improbabilidade. Governos mudam, políticas culturais desaparecem, patrocinadores chegam e partem, tecnologias tornam-se obsoletas e os hábitos do público se transformam. Em meio a todas essas mudanças, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa, em 2026, sua 50ª edição.
Sua história começa em 1977, ainda durante a ditadura militar, como parte das comemorações dos trinta anos do MASP. Desde o início havia ousadia na proposta de seu idealizador, Leon Cakoff: trazer ao público filmes que dificilmente chegariam ao circuito comercial brasileiro. Alguns enfrentavam obstáculos bem mais concretos: 25, documentário sobre a independência de Moçambique, entrou no país por mala diplomática francesa.
Ao mesmo tempo, Cakoff entregava ao espectador a decisão: “O público é o júri” tornou-se uma marca da Mostra. Num país submetido à censura e sem eleições diretas para presidente, abrir aquela janela para o mundo era também um ato de coragem.
Meio século depois, é tentador contar essa história pela lista impressionante de diretores de cinema que passaram por São Paulo, pelas retrospectivas memoráveis ou pelos filmes que o público brasileiro conheceu primeiro na Mostra. Mas os cinquenta anos também permitem refletir sobre uma instituição cultural que conseguiu passar por tantas transformações e, além de simplesmente sobreviver, conseguiu continuar necessária.
O livro que Renata de Almeida lança agora, Antes que eu me esqueça — um ensaio de lembranças para os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, oferece boas pistas. Não é propriamente uma história da Mostra. Renata escolheu outro caminho: escreveu um livro de memória, deliberadamente pessoal, construído em torno das relações, dos encontros e desencontros, das viagens, amizades, perdas e dificuldades acumuladas ao longo das décadas.
Justamente por isso deixa aparecer algo que uma história institucional provavelmente esconderia: a quantidade de vezes em que tudo poderia ter dado errado.
A Mostra atravessou censura, crises econômicas, mudanças nas formas de financiamento da cultura, dificuldades alfandegárias quase inacreditáveis para trazer cópias ao país, transformações tecnológicas e a pandemia. Em 2022, diante de exigências da Lei Rouanet que considerava impossíveis de cumprir, Renata decidiu realizar a 46ª edição sem utilizar o mecanismo. Foi preciso reunir antigos parceiros, novos apoiadores e até um grupo de patronos para fechar a conta.
Há episódios quase pitorescos. No tempo das cópias em 35 milímetros, atrasos na alfândega ameaçavam quebrar o circuito internacional pelo qual um mesmo filme passava de festival em festival. Uma dessas crises acabou levando a Receita Federal a discutir com representantes do setor uma instrução normativa para a importação temporária de bens culturais, depois utilizada também por museus e outras instituições.
A continuidade da Mostra nunca foi, portanto, sinônimo de estabilidade. E seu teste mais difícil ocorreu em 2011.
Leon Cakoff morreu em 14 de outubro, apenas uma semana antes da abertura da 35ª edição. Renata conta que, em meio ao luto, recebeu manifestações de solidariedade, mas também encontrou quem duvidasse de sua capacidade de continuar o festival e até quem se apresentasse como herdeiro natural de Leon. A Mostra abriu na data prevista. No ano seguinte veio a primeira edição inteiramente sob sua direção.
Há nessa passagem uma questão essencial para qualquer instituição cultural. Fundadores criam identidade, cultura, relações e modos de fazer. Mas a permanência de uma instituição depende também da capacidade de não transformar a memória de seu fundador numa camisa de força.
A Mostra não apagou Leon Cakoff nem tentou reproduzi-lo. Continuou mudando.
E mudou muito. O filme deixou de chegar em latas e passou a circular digitalmente. Os mecanismos de financiamento se alteraram. O circuito exibidor se transformou. A televisão por assinatura, a internet e o streaming modificaram profundamente nossa relação com o audiovisual. Salas fecharam, outras surgiram, e o próprio mapa cultural de São Paulo se redesenhou.
A Mostra acompanhou esse movimento sem se fixar num território único. Renata a define como uma instituição nômade. Não tem uma sala que possa chamar de sua. Durante algumas semanas, apropria-se de diferentes espaços e cria uma geografia cinematográfica provisória dentro da cidade.
Essa relação com São Paulo é parte importante de sua história. Durante décadas, ir à Mostra significou também percorrer a cidade. Escolher filmes, montar horários, enfrentar filas, descobrir salas, atravessar bairros. O cinema começava antes da projeção. A cidade fazia parte da experiência. Durante algumas semanas, a Mostra criava encontros entre filmes, pessoas e lugares.
Isso ajuda a compreender o que permaneceu enquanto quase tudo mudava: a aposta na descoberta.
Um festival não se limita a exibir filmes. Ao escolher, aproximar obras, recuperar cinematografias, apresentar autores desconhecidos e correr riscos, ele produz repertório. Em sua história, a Mostra ajudou o público brasileiro a entrar em contato com cineastas e cinematografias que estavam fora do circuito comercial e, muitas vezes, ainda distantes do reconhecimento internacional que alcançariam depois.
Um exemplo está na edição de 1990. No mesmo ano em que a Mostra enfrentava uma de suas maiores crises financeiras, apresentou ao público brasileiro Close-Up, de Abbas Kiarostami, então ainda pouco conhecido por aqui. Quatro anos depois, dedicaria uma retrospectiva ao diretor iraniano e o traria a São Paulo.
Formar público, aliás, nunca foi para a Mostra apenas uma expressão. Ao longo de sua história, ela procurou aproximar o cinema dos jovens, em iniciativas desenvolvidas com as redes de ensino. O Festival da Juventude levou durante anos estudantes do ensino médio a sessões gratuitas; mais tarde vieram as exibições nos CEUs e, recentemente, a Mostrinha, voltada ao público infantil e juvenil.
Escolas também fizeram desse encontro uma experiência educativa. No Bandeirantes, durante muitos anos, levamos grupos de alunos à Mostra e depois discutíamos os filmes em sala de aula, sempre com o apoio de seus organizadores. Formar espectadores não é dizer do que devem gostar. É ampliar aquilo que podem conhecer.
E é justamente aí que os cinquenta anos da Mostra encontram uma questão muito contemporânea.
Para que serve hoje um festival de cinema?
Em 1977, a resposta era evidente. O Brasil vivia sob censura e boa parte da produção cinematográfica internacional simplesmente não chegava até aqui. Um festival abria janelas para um mundo que permanecia inacessível.
Em 2026 ocorre quase o contrário. Nunca tivemos tantos filmes ao nosso alcance. Plataformas oferecem milhares de títulos. Um espectador interessado pode encontrar em poucos minutos cinematografias que antes exigiam viagens, cinematecas ou festivais.
No final de seu livro, Renata formula essa transformação por meio de uma imagem especialmente feliz. A Mostra nasceu quando vivíamos num “deserto”, produzido também pela censura e pela dificuldade de acesso. Hoje vivemos num “oceano”, no qual tudo parece estar disponível e, ao mesmo tempo, tudo corre o risco de adquirir o mesmo peso.
A escassez foi substituída pela abundância. E a abundância trouxe outro problema.
Ter acesso não significa necessariamente ampliar repertório. As plataformas nos oferecem uma quantidade extraordinária de obras, e sistemas de recomendação nos ajudam a navegar por elas a partir de nossos hábitos e preferências.
A curadoria de um festival parte de outra lógica. Pode estabelecer relações inesperadas, contrariar expectativas, recuperar obras esquecidas, introduzir autores desconhecidos e provocar o espectador. Em vez de apenas responder ao gosto existente, ajuda a transformá-lo.
Nesse sentido, a Mostra não perdeu sua função com a multiplicação das telas. Sua função mudou.
Há ainda uma dimensão que a abundância digital tornou mais visível: o cinema como experiência coletiva. Renata conta que encontra pessoas que conheceram companheiros nas filas, fizeram amigos depois de sessões ou encontraram na Mostra uma companhia em momentos de solidão. Observa também a chegada constante de jovens que entram pela primeira vez nesse ritual.
Não é nostalgia da sala escura nem resistência à tecnologia. Assistimos hoje a filmes de maneiras que seriam inimagináveis quando a Mostra nasceu, e isso ampliou extraordinariamente o acesso à produção audiovisual. A questão é outra. Uma instituição cultural cria contexto, relações, memória e comunidade, algo que não se reduz à disponibilidade de conteúdo.
Essa é a dimensão mais interessante dos cinquenta anos da Mostra. Sua permanência não decorre de ter protegido uma fórmula original contra as transformações do mundo. Ao contrário: ela mudou porque o mundo mudou.
Em 1977, era preciso abrir uma passagem onde quase não havia acesso. Cinquenta anos depois, o desafio é produzir escolhas significativas em meio a uma oferta praticamente infinita.
A Mostra nasceu para romper um deserto. Aos cinquenta anos, sua tarefa é nos ajudar a navegar no oceano.
Para uma instituição cultural, durar não basta. O que importa é continuar fazendo sentido.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e diretor do Colégio Bandeirantes. Acompanha a Mostra desde sua primeira edição, em 1977. Entre 2003 e 2010, como presidente da Imprensa Oficial do Estado, manteve com Leon Cakoff e Renata de Almeida uma parceria editorial que incluiu os catálogos anuais da Mostra e diversas publicações sobre cinema.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/do-deserto-ao-oceano/


