Estou cansada de morrer um pouco todos os dias

 

 

Há dias em que ser pesquisadora parece insuficiente.

Estudo há anos a misoginia. Li livros, artigos, teses, analiso discursos, acompanho comunidades digitais, observo a ascensão da machosfera, o crescimento do antifeminismo e a forma como o ódio às mulheres se reorganiza na era das plataformas digitais. Construo argumentos, reúno dados, formulo hipóteses. Aprendi, e aprendo, a reconhecer padrões onde muitas pessoas enxergavam apenas acontecimentos isolados.

A pesquisa oferece algo precioso: linguagem. Ela nos permite nomear fenômenos, identificar estruturas e compreender que aquilo que parece um episódio excepcional é, na verdade, parte de algo muito maior. Quando uma mulher é assassinada pelo companheiro, sabemos que não se trata de um crime passional. Quando uma parlamentar sofre ataques por ocupar espaços de poder, sabemos que não se trata de uma crítica política comum. Quando adolescentes compartilham conteúdos que humilham meninas em grupos misóginos, sabemos que não se trata apenas de brincadeiras.

A pesquisa nos ensina a enxergar conexões, mas existem notícias que fazem essa linguagem falhar.

Quando li os comentários de homens sexualizando uma jovem que acabara de morrer por falta de segurança em um esporte radical, quando vi pessoas transformando uma morte absurda em piada e o corpo de uma vítima em objeto de desejo, percebi que conhecia perfeitamente as explicações sociológicas para aquilo. Eu poderia falar sobre objetificação, desumanização, masculinidades digitais, economia da atenção, machosfera e misoginia. Poderia citar estudos, estatísticas e autoras feministas que há décadas denunciam processos semelhantes. Mas, naquele momento, não queria explicar nada.

Queria apenas entender como chegamos até aqui. E reconhecer que não foi a primeira vez que aconteceu um fato misógino desse e, muito menos, seria a última. Porque existe algo profundamente perturbador em perceber que nem a morte é capaz de interromper a violência contra as mulheres.

Aquela jovem tinha uma história, tinha amigos, família, afetos, planos interrompidos. Havia uma vida inteira ali, mas, no entanto, para muitos homens que encontraram sua imagem circulando nas redes sociais, nada disso importava. Talvez seja justamente esse o aspecto mais cruel da misoginia: sua capacidade de apagar mulheres enquanto sujeitos.

A filósofa australiana Kate Manne define a misoginia como um sistema que atua para policiar e punir mulheres que desafiam determinadas expectativas sociais. Sua formulação é fundamental para compreender a dimensão política do fenômeno. Mas, diante de acontecimentos como esse, talvez seja necessário ir além. A misoginia não opera apenas por meio da punição: opera também por meio da desumanização.

Uma mulher desumanizada é uma mulher cuja dor deixa de ser reconhecida como dor. Uma mulher desumanizada é aquela cuja experiência não desperta empatia. Uma mulher desumanizada é aquela que deixa de ser percebida como pessoa. E, quando isso acontece, qualquer violência se torna possível – inclusive depois da morte.

A naturalidade com que os homens transformam uma vítima fatal em objeto de excitação ou entretenimento me assusta. Estamos falando de pessoas que se sentem confortáveis o suficiente para expor publicamente esse tipo de pensamento, de plataformas que recompensam a circulação desse conteúdo, de uma cultura que parece cada vez menos capaz de reconhecer mulheres como plenamente humanas.

Como pesquisadora, aprendi que a misoginia raramente se manifesta de maneira isolada. Ela é relacional, produz vínculos, cria pertencimento.

Diversas pesquisas sobre a machosfera mostram que a hostilidade contra mulheres desempenha um papel central na construção de identidades masculinas contemporâneas: compartilhar conteúdos misóginos, ridicularizar o feminismo ou celebrar a humilhação feminina frequentemente se torna uma forma de acumular prestígio e pertencimento. A mulher humilhada converte-se em palco, e sua dor torna-se matéria-prima para a construção de vínculos masculinos.

Ao converter a morte de uma mulher em piada, esses discursos cumprem uma função social importante: reduzem a gravidade da violência e enfraquecem a empatia coletiva. O riso cria distância, e aquilo que deveria provocar indignação transforma-se em entretenimento.

Talvez uma das características mais marcantes da misoginia contemporânea seja justamente essa capacidade de se apresentar sob a aparência da diversão. Durante muito tempo, imaginamos que manifestações de ódio apareceriam de maneira explícita e facilmente identificável. Hoje, grande parte da violência circula por meio de memes, vídeos curtos, comentários irônicos e conteúdos aparentemente inofensivos. A hostilidade permanece; o que mudou foi sua forma de apresentação.

As plataformas digitais desempenham um papel central nesse processo, não porque tenham criado a misoginia, mas porque transformaram sua circulação em modelo de negócio. Redes sociais são estruturadas pela lógica da atenção: conteúdos que provocam choque, indignação ou curiosidade tendem a gerar mais engajamento.

Como pesquisadora, consigo identificar padrões e compreender as engrenagens que conectam misoginia, plataformas digitais, extremismo político e masculinidades ressentidas. Mas existe uma pergunta para a qual nenhuma teoria parece suficiente: como viver com segurança em uma sociedade que insiste em nos lembrar, todos os dias, que nossa humanidade continua sendo condicional?

Porque compreender um fenômeno não significa deixar de ser atravessada por ele. Eu não sou apenas uma pesquisadora da misoginia: sou também uma mulher vivendo em um mundo moldado por ela e que já foi violentada. E isso significa que cada notícia me atravessa em duas dimensões simultâneas, a intelectual e a pessoal. Uma parte de mim analisa, e a outra sente. Uma parte identifica estruturas, e a outra experimenta medo.

Continuo acreditando que compreender a misoginia é uma tarefa urgente, mas confesso que, às vezes, me sinto menos pesquisadora e mais testemunha. Testemunha de um tempo em que mulheres aprendem desde cedo que seus corpos serão julgados, controlados, expostos e violentados. Testemunha de uma época em que o ódio às mulheres deixou de habitar apenas espaços marginais e passou a circular livremente pelos algoritmos que carregamos no bolso.

Mas não desisto, porque desistir significaria aceitar que a humanidade das mulheres é negociável – e ela não é. Não vamos desistir.

Bruna Camilo é pesquisadora em gênero e misoginia. Doutora em sociologia pela PUC Minas, mestra em ciência política pela UFMG e assessora no Ministério da Saúde.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/estou-cansada-de-morrer-um-pouco-todos-os-dias/