Quando o mês de junho chega, circula junto com ele uma velha narrativa: crianças não deveriam estar nas Paradas do Orgulho LGBTQIAPN+. O argumento muda pouco a cada ano, ora é a “exposição inadequada”, ora é a “proteção da inocência”, mas a roupagem permanece a mesma, como nos anos 1980, quando o pânico moral em torno da epidemia de HIV/Aids fabricou pela primeira vez a figura da ameaça LGBTQIAPN+ às crianças. O que mudou é a escala e a sofisticação da engrenagem, já que esse pânico opera hoje, por exemplo, com infraestrutura digital/algorítmica e financiamento político transnacional. No último domingo, quando São Paulo recebeu mais uma edição da maior Parada do Orgulho do mundo, os mecanismos dessa engrenagem estiveram em pleno funcionamento.
Em Stranger danger: Family values, childhood and the American carceral state (2020), o historiador Paul Renfro demonstra como, nos Estados Unidos, a partir da década de 1970, um pânico moral sobre o sequestro e a exploração de crianças, alimentado por dados fabricados, pela mídia e por políticos de diversos espectros partidários, produziu um vasto aparato legal punitivo voltado à proteção das crianças de “estranhos perigosos”. O número real de sequestros por estranhos era, e permanece, em torno de 100 casos anuais, enquanto as crianças são estatisticamente muito mais vulneráveis a familiares e conhecidos. O pânico, portanto, não protegia as crianças que estavam em risco, posto que o discurso em voga protegia, sobretudo, a família heteropatriarcal idealizada, especialmente das ameaças que a desafiavam, como a liberação gay, o feminismo e a diversidade familiar (Renfro, 2022). No Brasil, Herbert Daniel (1989) havia nomeado mecanismo análogo no contexto nacional: o pânico moral e sanitário em torno do HIV funcionou porque mobilizava um vocabulário aparentemente neutro — “saúde pública”, “proteção”, “risco” — para o que era, na prática, a expulsão simbólica de corpos dissidentes da cidadania, a “morte civil” de quem não cabia na norma heterossexual e nas hierarquias de gênero vigentes.
Paul B. Preciado (2013), no ensaio Quem defende a criança queer?, oferece a formulação mais precisa desse dispositivo, que reside na inexistência da criança que os defensores da família dizem proteger. Os defensores da infância e da família apelam a uma criança que constroem politicamente, pressuposta de antemão como heterossexual e submetida à norma de gênero binária. Crianças LGBTQIAPN+, filhas de famílias LGBTQIAPN+, crianças que crescem aprendendo que existe mais de uma forma de amar e de existir são sistematicamente apagadas desse argumento. Elas não são o objeto da proteção reivindicada; são, sobretudo, aquelas que esse projeto de poder precisa que não existam.
O ativismo lésbico e queer aprendeu e identificou essa lógica com sagacidade. Em setembro de 1992, o grupo Lesbian Avengers realizou sua primeira ação pública em Middle Village, no Queens, Nova York, marchando até uma escola pública cujo conselho havia banido o Rainbow Curriculum, currículo multicultural e inclusivo, proibindo qualquer discussão sobre diversidade sexual e de gênero. Como resposta insurgente, o coletivo distribuiu balões com a frase Ask About Lesbian Lives e entregou panfletos com uma cartilha escolar alternativa; seus membros vestiam camisas com a inscrição I was a lesbian child. A ação não era sobre expor crianças: era sobre garantir que crianças lésbicas, queer e dissidentes não crescessem apagadas. Mais de trinta anos antes do debate sobre paradas e “proteção da infância” que circula hoje nas plataformas digitais, o ativismo lésbico já nomeava o problema com precisão política.
A cruzada antigênero contemporânea não é um fenômeno espontâneo nem disperso. Marco Aurélio Prado e Sônia Correa (2018) demonstram que ela articula estratégias discursivas em escala global, reunindo atores religiosos, políticos de extrema direita e setores seculares em uma ofensiva que é, estruturalmente, uma reação aos avanços da agenda feminista e LGBTQIAPN+ junto aos Estados. No Brasil, essa ofensiva encontrou no digital seu principal laboratório de deturpação: foi nas redes sociais que o kit Escola sem Homofobia virou “kit gay”, que paradas do orgulho foram recodificadas como “apologia à pedofilia” e que a expressão “ideologia de gênero” migrou dos púlpitos para os algoritmos. Trata-se, como argumenta Rogério Junqueira (2018), de um cenário político-discursivo reacionário que opera pela fabricação sistemática de ameaças, e as plataformas digitais são sua infraestrutura preferencial porque seus algoritmos de recomendação priorizam exatamente os conteúdos que geram mais atrito e indignação, como aponta o estudo Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência, publicado por Bruna Irineu e Larissa Pelúcio (2025).
Essa ofensiva ganhou, nos últimos anos, uma dimensão institucional sem precedentes. A agenda anti-woke do governo Trump, com seus cortes em organismos internacionais de direitos humanos, saúde e diversidade e sua pressão sobre agências multilaterais para a remoção de qualquer linguagem de gênero e sexualidade dos documentos oficiais, produziu um efeito cascata global cujas consequências para o Sul Global ainda estão sendo mensuradas. Organizações da sociedade civil LGBTQIAPN+ que dependiam de financiamento internacional para manter programas de prevenção, assistência jurídica e incidência política viram seus recursos evaporar. No Brasil, esse cenário se materializou de forma emblemática em 2025 e agora em 2026: a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de São Paulo registrou o menor número de patrocinadores de sua história recente. Trata-se de uma política transnacional de asfixia financeira que opera em sintonia com a amplificação algorítmica do pânico moral, retirando o financiamento com uma mão enquanto, com a outra, alimenta a narrativa de que os movimentos LGBTQIAPN+ representam perigo às crianças, em detrimento de outros fenômenos muito mais destrutivos para a família, como os feminicídios, por exemplo.
Há nessa dinâmica uma contradição estrutural que merece análise. Em pesquisa digital sobre a agenda de diversidade no LinkedIn, identifiquei como, durante o mês do orgulho, corporações nacionais e multinacionais investem sistematicamente na visibilidade LGBTQIAPN+ como estratégia de reputação digital, o que Jodi Dean (2021) denominaria um dos efeitos do capitalismo comunicativo sobre a comoditização das identidades (Irineu, 2025). Postagens com fundo arco-íris e declarações sobre inclusão convivem, sem contradição aparente, com políticas de moderação que silenciam conteúdos LGBTQIAPN+ durante todo o ano. A queda histórica no patrocínio da Parada de São Paulo expõe o limite dessa equação: quando o custo político do arco-íris corporativo aumenta, pressionado pela agenda anti-woke e pelo risco de retaliação em mercados conservadores, o capital simplesmente recua. O pinkwashing tem prazo de validade determinado pela conveniência do mercado, não pelo compromisso com direitos.
O que as Paradas do Orgulho historicamente produziram para essas crianças foi visibilidade, a possibilidade concreta de ver que sua existência não é uma aberração, que há comunidade, história e vida possível. Não por acaso, a disputa pela presença de crianças em espaços públicos de afirmação queer antecede as paradas contemporâneas e seus críticos nas redes sociais. Quando as Lesbian Avengers marcharam para aquela escola no Queens, em 1992, estavam respondendo à mesma operação que persiste hoje: a construção política de uma infância abstrata, heterossexual e sem dissidência, usada como escudo contra a visibilidade de crianças reais que não cabem nessa norma. A pesquisa acumulada sobre saúde mental de jovens LGBTQIAPN+ demonstra que o acesso a referências afirmativas reduz significativamente os índices de depressão, automutilação e suicídio. A interdição da presença de crianças nas paradas, portanto, não configura proteção: configura a manutenção de condições de vulnerabilidade que servem ao projeto político que requer que essas crianças cresçam sem espelho e sem comunidade.
A narrativa contra as crianças nas paradas não nasce espontaneamente no debate público. Ela é fabricada, testada, amplificada e monetizada em ambientes digitais antes de chegar às câmaras municipais, aos projetos de lei e às manchetes. As plataformas não são hospedeiras passivas desse processo: organizam ativamente as condições em que certos conteúdos viralizam e certas vidas se tornam alvo preferencial de engajamento (Irineu; Pelúcio, 2025). O fascismo digital, nos termos que propomos, não é apenas violência nas redes, mas a infraestrutura que organiza e financia a violência fora delas, convertendo o sofrimento de corpos dissidentes em combustível eleitoral.
No último domingo, a Avenida Paulista se encheu de corpos, com menos patrocínio, sem o suporte de organismos internacionais enfraquecidos, sob pressão crescente, e havia crianças lá. Judith Butler (2018) argumenta que ocupar as ruas, expor-se e persistir deliberadamente constitui, para as vidas que foram constrangidas e que possuem risco permanente de ser constrangidas, o sentido mais concreto da resistência política. A Parada do último domingo, nas condições em que ocorreu, é em si mesma um dado analítico: demonstra que a asfixia financeira e a amplificação do ódio não são suficientes para dissolver a política de corpos que insistem em existir publicamente.
Quando o patrocínio recua e o ódio permanece, sustentado por plataformas, governos e uma cruzada transnacional, a defesa das crianças que mais precisam de proteção continua sendo tarefa dos movimentos que resistem nas ruas, nas pesquisas e nas disputas por democracia, direito à memória, proteção social, soberania informacional, trabalho digno e cidadania ampla.
Bruna Andrade Irineu é pesquisadora produtividade do CNPq, professora do Departamento de Serviço Social e dos Programas de Pós-Graduação em Política Social e Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/infancia-como-campo-de-batalha-as-paradas-e-fabricacao-do-panico/

