Mudar de opinião – Revista Cult

 

 

“… se tomo as coisas diferentemente do que são? Pode ser. E por isso recrimino minha impaciência e afirmo primeiramente que ela é tão viciosa em quem tem razão como em quem está errado. Pois é sempre uma rispidez tirânica não conseguir suportar uma maneira de ser diferente da sua…”
Michel de Montaigne, L’art de conferer, Essais.

Temos opiniões sobre quase tudo, acreditamos em muitas coisas. Muitas vezes os acontecimentos, o acesso a novas ideias e a experiência da passagem do tempo fazem com que mudemos de opinião. Porém, acerca de muitos assuntos, sobre temas que tocam fundo nossa compreensão geral do mundo, mudar de opinião não é algo trivial. E há uma boa razão para essa dificuldade. 

Um dos recursos que nos permitem navegar no mundo é exatamente a habilidade de formar crenças ou opiniões verdadeiras sobre o que nos cerca. Muitas são as fontes das nossas crenças, como a percepção, a memória, a capacidade de realizar inferências, o testemunho das outras pessoas, a reflexão. Ainda que essas fontes não sejam infalíveis e frequentemente nos equivoquemos sobre o que vemos, lembramos, calculamos etc., esta habilidade de acreditar é único meio de nos conectarmos com o mundo, entender a trajetória das nossas vidas e pensar o que nos espera no próximo dia. E, principalmente, isso permite interagirmos com outras pessoas e compartilhar um mundo comum.

Os filósofos costumam separar a simples crença ou opinião (doxa) de conhecimento (episteme). Este último seria mais valioso porque seria um tipo de uma crença que formamos de modo mais rigoroso e, diferente da simples crença, não depende exclusivamente de minhas próprias habilidades cognitivas individuais; ele requer um elaborado nível de cooperação com outras pessoas que aceitam que aquilo é verdadeiro em dadas condições e somos capazes de justificar e explicar porque acreditamos naquilo. Como todas as realizações humanas, o conhecimento também é falível e deve ser revisto oportunamente.

Eu quero me concentrar neste ponto: o grande traço das nossas crenças e opiniões é que, para acreditar, somos levados a imaginar que elas são verdadeiras, que o mundo é como elas dizem – ainda que apenas eu ou minha tribo pense assim. Algo na nossa percepção, na memória, no testemunho dos outros serve como uma razão para acreditarmos que uma crença x é verdadeira. É paradoxal dizer “eu acredito em x, mas x é falso”. E é aí onde mora todo o drama cognitivo humano, pois, como disse logo acima, frequentemente nos enganamos. E mesmo quando estamos flagrantemente enganados sobre algo, enquanto acreditamos não nos damos conta de que estamos enganados. O mais grave disso é que encontramos todos os dias pessoas que sustentam crenças distintas das nossas e, no mais das vezes, que estão em conflitos com que pensamos.

Se a mudança de opinião é algo relativamente simples quando se trata de informações corriqueiras sobre o resultado do futebol no domingo ou sobre a capital da Turquia (que muitos pensam ser Istambul), o mesmo não ocorre quando se trata de questões associadas à história de uma nação, ao sentido de eventos sociais, o significado de movimentos políticos, o valor de certas ideias, a interpretação de textos religiosos e assim, por diante. Ou seja, não é fácil mudar de opinião quando se trata daquilo que toca a nossa própria autoimagem, a nossa imagem do mundo e dos outros. 

Se alguém está enganado sobre se está chovendo (pois ouviu um barulho de água caindo lá fora), basta abrir a janela que a própria Natureza se encarregará do serviço. Mas… quando se trata de crenças políticas, morais, religiosas ou mesmo de crenças acerca de nós mesmos e do nosso passado ou aquilo que sustenta os vínculos profundos do meu grupo de pertencimento, a coisa muda de figura. Aqui quase não adianta nos apresentarem evidências e argumentos contrários. Nesses casos, mudar de opinião não é simplesmente substituir uma informação falsa por uma verdadeira. 

Changing My Mind é o título do mais recente livro do escritor britânico Julian Barnes (Notting Hill Editions, 2025). Celebrado por sua habilidade de tecer a narrativa e explorar a natureza da verdade e da história, ele investiga temas como memória, identidade e a complexidade das experiências humanas. Obras como O Sentido de um fim, vencedor do Booker Prize e O papagaio de Flaubert, exemplificam seu talento para mesclar história e ficção, abordando as limitações da memória e da percepção, bem como a busca incessante por significado em um mundo repleto de incertezas. 

A locução “changing my mind” em inglês pode ser traduzida, num sentido mais corriqueiro, por “mudar de ideia” ou “mudar de opinião”. Dizemos “eu mudei de ideia sobre a roupa que eu devo usar para a festa” ou “eu pensei que Salvador era a cidade com o maior número de terreiros de candomblé, mas mudei de opinião depois do último CENSO”. Isso significa apenas que tínhamos uma opinião e, por algum motivo, passamos a ter outra. Porém, “changing my mind” também pode ter um sentido mais complexo e dramático, como “mudar a minha maneira de pensar”. Isso não diz respeito apenas a uma simples mudança de opinião, mas a algo que pode abalar as convicções e crenças que sustentávamos até um determinado momento. Nesse outro sentido, parece que nós nos encontramos em uma posição que, de um lado, nos constringe a formar um juízo sobre nós mesmos, sobre o valor e significado das coisas que acreditamos e, do outro lado, nos confronta com o alcance de novos pensamentos para a condução de nossas vidas. É justo dizer que, nesses casos, ao mudar de opinião, algo mais muda em nós.

Quando Barnes muda sua imagem sobre a memória como um depósito onde o passado permaneceria intacto à nossa espera, Julian Barnes não muda apenas de opinião sobre suas lembranças, ele muda sua maneira de pensar sobre o passado e, inevitavelmente, sobre si mesmo. Algo semelhante acontece quando reflete sobre a língua e descobre que as palavras vivem no movimento de seus usos. Ao se dar conta disso, muda o próprio quadro no interior do qual julga o que significa uma palavra estar “certa” ou “errada”. Em casos assim, mudar de opinião é mais do que corrigir um pensamento: é transformar, ainda que discretamente, o lugar de onde pensamos.

Isso sugere que as crenças não estão isoladas dentro de nós. Elas fazem parte de conjuntos mais amplos de compromissos, valores, lembranças e maneiras de interpretar o que nos cerca e o que nos constitui. Abandonar uma delas pode exigir que outras também sejam revistas. Talvez seja por isso que algumas mudanças de opinião nos parecem tão desconfortáveis: não sentimos apenas que uma crença nossa estava errada; descobrimos que alguma coisa em nossa maneira de ver precisava mudar.

Barnes chega a brincar com a própria gramática da expressão: talvez não seja exatamente um “eu” soberano que decide mudar sua mente; talvez, em certas ocasiões, seja mais correto dizer que nossa mente nos muda. Afinal, novas experiências, outras pessoas, palavras, lembranças e o próprio passar do tempo podem transformar silenciosamente aquilo que somos capazes de perceber como verdadeiro. Mudar de opinião, nesse sentido mais profundo, não é apenas reconhecer que estávamos errados. É descobrir que podemos deixar de ser exatamente a pessoa para quem aquela opinião parecia inevitavelmente verdadeira.

Fiz essa volta toda para dizer algo que você já sabe. O grande traço desses nossos dias turbulentos é que as pessoas não estão dispostas a mudar de opinião por uma razão simples: novo mundo da informação operou um milagre, um terrível milagre: todo o mundo se tornou idêntico às minhas crenças e inclinações pessoais. Com isso, algo tem abalado nossa capacidade de estar sensível ao movimento do mundo, à humanidade de pessoas diferente de nós, de crenças diferente das nossas. Sentimo-nos esgotados e irritadiços com tudo que nos contraria. Mas isso tem um custo elevado e perigoso uma vez que permanecer apegado cegamente às próprias opiniões pode levar a um tipo de fanatismo que começa com a simples teimosia e, aos poucos, toma conta de tudo. 

E cada vez mais nos abraçamos às convicções pessoais e do nosso grupo de pertencimento, mais e mais perdemos a confiança no mundo e nas outras pessoas, desconfiamos de todas as fontes de informação que estão fora do nosso domínio, como a imprensa e a ciência. Essa insensibilidade causa a cessação da empatia com tudo o que é diferente e desprezo pelas outras pessoas. 

Não digo que você deva abandonar tudo o que você acredita. Não sei se há algum critério para modelar nossas melhores crenças, que possa nos levar igualmente à verdade e à boa vida. Mas eu sei que tudo aquilo que leva ao fanatismo, ao ódio e despreza à vida, que elogia a violência, que está baseado no puro cinismo, isso precisa ser colocado sob suspeita

Pese, pondere, converse, envelheça. Mude de opinião quando o mundo e sua experiência compartilhada com outras pessoas lhes pedir. Pergunte ao tempo. Leia livros. Converse com quem pensa diferente. Agradeça à história e aos que nos antecederam por viver em um país (que ainda é) democrático. Esse é o único conselho que posso dar.

Waldomiro J. Silva Filho é Professor Titular de Filosofia da UFBA, Pesquisador do CNPq e autor, entre outros, de Procurando razões (2020), A calamidade (2022), Os dias (romance, 2023), Epistemology of Conversation (2024) e Um homem bom (romance, 2026)

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/mudar-de-opiniao/