O deserto: Zona extrativa por excelência

Estragos provocados pelo furacão Maria em Porto Rico, em setembro de 2017 (U.S. Department of Agriculture)

 

No livro The Extractive Zone: Social Ecologies and Decolonial Perspectives (2017), a chilena Macarena Gómez-Barris contrasta “a visão extrativa”, que reduz territórios a recursos extraíveis e configura o Sul global “como uma região de pilhagem”, com as “perspectivas submersas”, que sobrevivem e emergem do que ela chama de zonas extrativas.

Proponho, neste ensaio, que o deserto é a zona extrativa por excelência, no sentido de Gómez-Barris: uma construção cultural que oferece uma visão limitada ou empobrecida de um território (negando estrategicamente sua habitabilidade) – e no sentido mais literal, de um espaço reduzido a terreno baldio pelas atividades extrativas. A tensão entre esses dois sentidos do deserto (cultural e material) é esclarecida de forma útil por apreen­sões estéticas do deserto. Além disso, prestar atenção às diversas perspectivas sobre o deserto refratadas pelas artes oferece uma ferramenta poderosa para desafiar a visão extrativa e, em última instância, aprender a perceber e defender a habitabilidade do nosso planeta, mesmo em tempos que fomentam grande pessimismo.

Um deserto é um bioma caracterizado pela aridez e definido, com frequência, por uma precipitação anual abaixo de um certo limite. Mas um deserto é também um conceito mais abstrato ligado à falta: “Falta de água, falta de vegetação, falta de vida animal”, como afirma Catrin Gersdorf em The Poetics and Politics of the Desert: Landscape and the Construction of America (2019) – e, frequentemente na história das letras lati

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/o-deserto-zona-extrativa-por-excelencia/