O mundo não é místico nem bom – ou A ansiedade da mediação nos romances de Leonard Cohen

 

 

O s dois romances que Leonard Cohen publicou antes de se lançar à carreira musical passam por uma quantidade alucinante de questões. Podem ser lidos por uma perspectiva pós-colonial, já que a violência da invasão francesa é tema frequente. Ou encarados como um comentário ao imperialismo cultural americano, em suas dores e delícias. Uma crítica feminista preguiçosa irá se deliciar em esculhambar as não poucas expressões de sexismo (e ignorar ironias). Um estudioso da Bíblia poderá traçar intensos paralelos e, no caminho, pensar na situação do judeu canadense pós-Holocausto. A aproximação entre o místico religioso e o sexual, com sua dimensão queer, é mais um viés de leitura.

Todas essas questões aparecem ao longo dos livros a partir de uma premissa produtiva quando se trata de uma obra literária: a necessidade e os riscos da mediação no nosso ímpeto de dar sentido à vida e ao mundo. Já se adianta uma questão que cruza de ponta a ponta toda a obra poética e musical de Cohen: o desejo de ouvir alguma resposta de Deus. Cada protagonista dos romances está mergulhado em perplexidade, seja diante da confiança com que os velhos judeus se confessam, frente à fé dos jesuítas nos milagres, seja diante do próprio desejo de um mundo “místico e bom”. Mas o caminho da revelação mística está obstruído (talvez por culpa dos próprios homens); só respondem os imperfeitos humanos. É preciso lidar com eles.

Quase ao fim da segunda parte de A brincadeira favorita, de 1963 (publicado no Brasil pela Cosac Naify, em 20

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/o-mundo-nao-e-mistico-nem-bom-ou-a-ansiedade-da-mediacao-nos-romances-de-leonard-cohen/