“É como se, depois da campanha Lula Livre, tivesse ficado mais fácil achar consensos e evitar conflitos destrutivos dentro da esquerda”, argumenta o jornalista e escritor Haroldo Ceravolo Sereza.
Seu mais recente lançamento, intitulado Um por todos, todos por Lula, publicado pela Autêntica, visa fazer um balanço crítico do movimento Lula Livre, que esteve em curso durante os 580 dias em que o presidente permaneceu preso em Curitiba.
A partir de entrevistas, relatos e documentos, o livro recompõe a mobilização popular que, entre 2018 e 2019, se opôs à prisão de Lula e envolveu a participação de juristas, artistas, intelectuais e militantes em atos, protestos, shows e vigílias que visavam questionar a fragilidade das acusações contra o presidente.
De forma mais ampla, Sereza analisa que o movimento Lula Livre teve um efeito unificador ainda insuperado na esquerda brasileira, assim como serviu para denunciar a fragilidade do arcabouço de conquistas sociais diante da onda fascista promovida pela burguesia nacional.
“A desconstrução do fascismo, sem ser pela via armada, é um processo em que o Brasil apostou e vem sendo bem-sucedido”, argumenta. “Nesse sentido, a campanha Lula Livre deixou muitas lições.”
Em entrevista à Cult, Sereza reflete sobre as mudanças estruturais da esquerda após o movimento Lula Livre, os perigos da interferência estrangeira nas eleições de 2026 para a democracia brasileira e a sua visão sobre o nível de organização da esquerda hoje.
Que tipo de luta popular a campanha Lula Livre inaugura? O que a diferencia de outras experiências de mobilização da esquerda brasileira?
No livro, comparo a campanha Lula Livre à campanha das Diretas Já e à campanha da Anistia. São duas campanhas horizontais, como a campanha Lula Livre, ou seja, a direção dos movimentos tem relativamente pouca influência sobre o que a base decide e faz. Muitas vezes, o caminho político é dado pela ação da base, até mesmo contrariando a vontade dos chefes políticos.
Essa é a semelhança. A grande diferença é que, nas campanhas anteriores, não havia organizações populares tão sedimentadas quanto as que temos hoje. Em 1980, surge o Partido dos Trabalhadores; em 1984, o MST; e a CUT, em 1983. Se pensarmos que a campanha das Diretas é de 1984, constatamos que esses movimentos sociais organizados, assim como o PT, estavam apenas engatinhando em termos de experiência acumulada.
Claro que então havia uma energia muito mais intensa na época da redemocratização do que houve durante a campanha Lula Livre, mas agora havia mais experiência e organização, além de maior diversidade de táticas. Na campanha Lula Livre, as organizações estavam amadurecidas, enquanto, nas campanhas da Anistia e das Diretas elas ainda estavam sendo imaginadas.
Quais marcas a prisão de Lula deixou na democracia brasileira? Que efeitos daquele período ainda permanecem na política brasileira?
As marcas são inúmeras. A prisão de Lula desmonta a confiança que tínhamos na democracia. Desde 1988, quando foi promulgada a Constituição, o Brasil viveu uma série de avanços: temos hoje uma educação muito melhor, saúde muito melhor e, principalmente, direitos políticos e civis minimamente garantidos pelas instituições.
A campanha Lula Livre mostrou que esse arcabouço — o pacto social construído em 1988 — pode ser jogado no lixo por uma parte da elite brasileira. A burguesia brasileira, muito dependente da burguesia americana, atua contra os avanços sociais e políticos do país quando a sua relação com os Estados Unidos está ameaçada.
Os governos Lula e Dilma fortaleceram o país e romperam parcialmente a subordinação brasileira aos Estados Unidos, com uma política externa mais independente, distribuição de renda e fortalecimento da universidade e da pesquisa científica. Também fortaleceram politicamente as camadas populares. A luta para tirar Dilma do poder e colocar Lula na prisão foi uma luta contra esses avanços de décadas de democracia.
Reconstruir o que foi destruído nesse período não é fácil. A prisão de Lula permitiu a eleição de Bolsonaro em 2018 com folga, pois a campanha contra Lula e o PT foi muito bem-sucedida e, em algum momento, a direita chegou a acreditar que podia colocar o PT na ilegalidade. Felizmente, as forças sociais e populares foram capazes de construir a retomada da democracia.
Quais são, na sua avaliação, as tarefas políticas necessárias para que estejamos, enfim, a salvo do fascismo? E qual deve ser o papel da mobilização popular nesse processo?
A desconstrução do fascismo, sem ser pela via armada, é um processo em que o Brasil apostou e vem sendo bem-sucedido. Nesse sentido, a campanha Lula Livre deixou muitas lições. Aprofundá-las é o caminho.
O problema é que o fascismo também atua e tem relações internacionais muito poderosas, que se mostraram escandalosamente evidentes na interferência dos Estados Unidos na Venezuela.
A Venezuela é uma situação-limite que os Estados Unidos converteram em ameaça continental. A atuação norte-americana nas eleições de vários países do Cone Sul, inclusive no Brasil, é um instrumento, digamos, menos radical, mas que aponta para a possibilidade de militarização em casos de necessidade estadunidense, na tentativa de ampliar o controle político e econômico sobre a América do Sul.
A grande necessidade política hoje é perceber o quanto o fascismo está associado ao imperialismo dos Estados Unidos. Essas duas frentes políticas da burguesia internacional estão combinadas e em ação contra o Brasil e contra a democracia brasileira.
A mobilização popular é muito importante, mas não suficiente. Entendo que o Estado também precisa ser um instrumento nesse processo. Por isso, a eleição de Lula para um quarto mandato é tão importante. Lula se provou um estadista capaz de manejar situações muito complexas.
Precisamos, como país, de uma ação do Estado para desmontar a ideologia fascista internamente e para resistir às pressões internacionais e ao apoio internacional da extrema-direita no poder ao fascismo brasileiro.
A que você atribui a impressionante força política de Lula na atualidade? O que explica sua capacidade de manter uma conexão tão forte com parcelas expressivas da população brasileira? Na sua opinião, essa força será suficiente para vencer mais esta eleição?
Não acho impressionante a força política de Lula na atualidade. Entendo que ela deriva do que Florestan Fernandes apontou em A contestação necessária sobre o compromisso de Lula com a classe trabalhadora.
É interessante notar que, entre 1993 e 1995, próximo à sua morte, Florestan tinha posições bem mais radicais do que as de Lula. Portanto, esse elogio não significava dizer que não havia contradições ou que Lula não podia ir além, mas significava dizer que o perfil conciliador de Lula nunca significou negligenciar as necessidades dos trabalhadores, como muitos outros políticos fizeram no passado e fariam no futuro.
Lula foi um grande conciliador de interesses entre as classes trabalhadora e burguesa em seus governos, mas o compromisso de trabalhar pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores e pela melhoria das condições de negociação com o empresariado sempre se fez presente.
Isso é raro na política brasileira. Veja, por exemplo, os casos de Carlos Lacerda e Ciro Gomes, políticos que mudaram completamente de posição ao longo da vida. Lacerda foi do Partido Comunista para uma posição de extrema-direita, golpista e pró-militares em 1964. Ciro Gomes navegou mais: começou no PDS, foi para o PMDB e fundou o PSDB, depois foi para o PPS (herdeiro direitista do PCB) e para o PSB, esteve no governo Lula e hoje está abraçado ao bolsonarismo. Lula, não. Lula manteve uma coerência durante mais de 50 anos de atuação, nunca deixou o PT, mesmo quando sofreu derrotas internas ou precisou mudar de postura justamente para não ser derrotado. Exemplo disso é o lançamento de sua candidatura em 2026 na Vila Euclides, reafirmando fisicamente, na periferia de São Bernardo do Campo, seu compromisso com os trabalhadores.
A força política de Lula vem do respeito que conquistou de uma grande parcela dos brasileiros por sua capacidade de negociar e conciliar sem, ao mesmo tempo, abandonar seu campo. Não posso dizer se isso será suficiente para ganhar a eleição, mas acredito que sim. Acredito que as condições do país hoje apontam para uma vitória de Lula nas eleições deste ano, talvez até no primeiro turno. A grande questão é que não passamos por uma eleição normal, principalmente por conta dos ataques imperialistas e fascistas, nacionais e internacionais, que enfrentamos. Isso pode mudar as condições de jogo.
Que lições de mobilização popular a campanha Lula Livre deixa para a esquerda brasileira?
Quando falamos em lições, pode parecer que aprendemos as coisas só agora. O que acho mais interessante na campanha Lula Livre não são apenas as lições que ela deixa, mas o legado que ela soube resgatar e adaptar de décadas de mobilizações passadas, nas quais estiveram diretamente envolvidos o MST, a CUT e o próprio Partido dos Trabalhadores.
Além disso, tivemos a experiência profissional dos advogados. Mesmo sem ter uma OAB atuante na defesa da democracia nesse período — ou seja, a OAB não foi central na defesa da liberdade de Lula —, vimos uma consciência profissional entre juristas, advogados, procuradores e juízes que ajudou a construir a saída jurídica para a prisão de Lula. Lula não foi defendido apenas por seus advogados, mas por juristas que coletivamente viram na defesa de Lula a garantia de manutenção de um sistema de Justiça minimamente democrática.
Portanto, qual lição a campanha deixa? A lição de que as campanhas políticas hoje são múltiplas e precisam ter frentes diversas e especializadas, que se combinam em torno de um objetivo comum.
O que essa experiência revela sobre os caminhos possíveis para a esquerda se reorganizar no Brasil?
A esquerda não está desorganizada no país, embora esse seja um discurso frequente de muitos intelectuais. A esquerda está bastante organizada e conquistou uma parcela significativa da juventude, embora isso nem sempre se expresse em termos eleitorais.
Ou seja, tem muito jovem votando no bolsonarismo, mas tem muito jovem militando nos partidos políticos, especialmente no PT. O partido foi entendido por grande parte da juventude como o caminho para construir o movimento popular no país.
Se você frequenta os espaços de esquerda, vê que eles estão tomados por jovens com pautas bastante sofisticadas, misturando questões de classe — que sempre são as amplas na vida política — com questões de raça e gênero, além de outras questões, como ensino, saúde etc.
A ideia de que a esquerda está desorganizada é muito frequente na mídia, inclusive na mídia mais progressista, mas não bate com a realidade. Se formos a campo, perceberemos que a esquerda tem organização, tem base, mas às vezes falta para ela os meios econômicos e espaço de expressão na arena da opinião pública. O que aconteceu nos últimos anos foi que os grandes jornais e as redes de TV fizeram uma opção classista, em defesa do capital financeiro, e expurgaram jornalistas mais experientes e mais à esquerda.
Hoje vemos as redações, digamos, sanitizadas de jornalistas de esquerda e mesmo da cultura profissional construída pelos jornalistas. Os que ficaram têm muito menos espaço para expressar suas posições, seja por meio da opinião, seja por meio de reportagens críticas. O jornalismo mais progressista e questionador está fora das grandes redações. Isso pode dar a impressão de que a esquerda está desorganizada, porque afirmar isso, seja pelas vozes à direita, seja pelos críticos à esquerda do PT, é um mantra.
Não percebo as coisas desta maneira, no entanto. A esquerda pode ter sido derrotada e ter tido alguns fracassos nos últimos anos, mas não podemos esquecer que cinco das últimas seis eleições foram vencidas por ela. Antes disso, tivemos três governos de direita: um explicitamente, com Fernando Collor; o primeiro governo de Fernando Henrique, em que muita gente ainda acreditava ser de centro ou mesmo centro-esquerda inicialmente, , e o segundo governo de Fernando Henrique, de centro-direita. Portanto, a ideia de que a esquerda está desorganizada me parece equivocada. Ser derrotado em alguns processos não significa deixar de existir e estar desorganizado. Fora do poder, também foram muitas as conquistas: pautas estruturais do feminismo e do movimento negro avançaram muito na sociedade, por exemplo.
Desde a última eleição de Lula, que retirou Bolsonaro do poder, como você avalia a mobilização popular hoje? A esquerda se encontra unida por um objetivo claro ou estamos desmobilizados?
É difícil dizer que a gente tenha hoje uma pauta tão unificadora quanto a campanha Lula Livre. Mas algumas características destas eleições chamam a atenção. A primeira é a capacidade que os partidos de esquerda tiveram de montar frentes de esquerda e mesmo algumas frentes amplas por todo o país para formar chapas que se contrapõem ao fascismo.
Em São Paulo, por exemplo, temos uma frente ampla na disputa para o Senado. A campanha para governador é encabeçada por Fernando Haddad, do PT, mas as candidatas ao Senado são de partidos mais ao centro, como a Rede e o PSB, que concorrem com Marina Silva e Simone Tebet, respectivamente.
O PT também cuidou muito bem de montar uma chapa forte para deputados em São Paulo, e esse modelo se reproduziu em outros estados. No Rio Grande do Sul, onde era difícil ganhar a eleição para o governo do estado pelo PT ou pelo PSOL, a opção foi fortalecer a chapa para o Senado e apoiar o PDT. O resultado é que o Estado, um dos mais bolsonarizados nas últimas eleições, pode eleger dois senadores de esquerda.
A esquerda pode não ter uma pauta de unificação tão forte quanto a campanha Lula Livre, mas encontrou pontos de unificação regionais que são centrais para a formação de uma bancada mais forte no Congresso Nacional em 2027.
Há uma diferença no processo eleitoral deste ano em comparação com os processos anteriores que, acredito, vem da confiança adquirida dentro da esquerda, entre os diversos setores, a partir da campanha Lula Livre, que serviu para o campo quebrar arestas e resolver conflitos. Os conflitos foram incorporados como parte da diferenças entre os setores de esquerda, não como fatores de dissidência. Isso pode render frutos políticos e eleitorais. Entendo que, depois da campanha Lula Livre, ficou mais fácil achar consensos e evitar conflitos destrutivos, o que é uma conquista que renderá frutos por um longo período.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/o-que-mudou-com-o-movimento-lula-livre/
