No dia em que comemoramos os 57 anos da Revolta de Stonewall, protagonizada por muitas pessoas trans e marco dos protestos em prol do respeito à diversidade sexual e de gênero no mundo, é importante avaliarmos não apenas as conquistas das últimas décadas, mas também os novos desafios da atualidade. Nesse sentido, uma boa análise de conjuntura se torna fundamental para identificarmos quem são os atores e atrizes e organizações que hoje se posicionam contra as identidades subalternizadas. E, infelizmente, não encontramos essas pessoas e coletivos apenas na extrema direita e nos fundamentalismos religiosos, que operam em torno da “ideologia de gênero” e seus derivados nacionais como “kit gay” ou “mamadeira de piroca” – expressões largamente utilizadas nas últimas eleições brasileiras. Tratei disso em outro texto, intitulado O que temem os fundamentalistas?, publicado pela primeira vez pela Cult em 17 de maio de 2017.
Nos últimos anos, essa ofensiva se constituiu de um conjunto de intelectuais progressistas, de esquerda (em sua maioria liberais e alguns marxistas), que lançaram livros com duras críticas aos ativistas e coletivos negros e da diversidade sexual e de gênero nos quais elaboram o que estou chamando de uma perspectiva teórica anti-identitária. Os alvos centrais: os estudos e ativismos queer, trans, negros e decoloniais. Rapidamente, essas obras também passaram a ser defendidas pelo chamado feminismo transexcludente, como veremos a seguir. No campo dos estudos das identidades, tínhamos no máximo as perspectivas teóricas pós-identitárias, oriundas dos estudos culturais, subalternos e queer. Hoje, em nossos departamentos universitários, está em gestação uma nova episteme identitária. E ela não segue ou amplia a anterior; pelo contrário, retrocede em décadas de produção de conhecimentos e ativismos sobre o tema e, pior, aciona ideias também presentes nos adeptos da “ideologia de gênero”.
Para entendermos os novos discursos críticos às identidades, temos que ver o que aconteceu na intelectualidade liberal dos Estados Unidos após a primeira eleição de Donald Trump, em 2016. Uma série de importantes intelectuais progressistas passou a responsabilizar o excessivo foco nas identidades negras e LGBTQIAPN+ pela vitória da extrema direita no país – ideia que logo foi muito utilizada no Brasil, vide a última eleição municipal de São Paulo e a caracterização da deputada Erika Hilton como melhor cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Um dos primeiros a lançar essa ideia foi Mark Lilla, professor de humanidades na Universidade de Columbia. Ele defendeu o abandono das pautas identitárias em um artigo de enorme repercussão publicado no jornal The New York Times. Logo depois, escreveu um livro sobre o mesmo tema, traduzido no Brasil em 2018, com o título O progressista de ontem e do amanhã, publicado pela Companhia das Letras.
Em 2020, ele organizou um manifesto, publicado na revista Harper’s Magazine, com a assinatura de vários intelectuais, com praticamente o mesmo conteúdo: a esquerda deveria se voltar para ideais universalistas, como a cidadania, ao invés de focar em particularismos. O velho embate universal versus particular ganha novos contornos. Como sabemos, o universalismo, amplamente divulgado com o Iluminismo, foi abandonado e criticado porque não contemplava as diferenças, inclusive as pautas das identidades subalternizadas que emergiram no contexto da luta por direitos civis nos anos 1960. O manifesto foi assinado por Yascha Mounk e John McWhorter, que logo também escreveriam livros sobre o tema, igualmente traduzidos no Brasil (A armadilha da identidade, Edições 70, 2024; Racismo woke, Faro Editorial, 2024). Noam Chomsky e Cornel West também assinaram o texto, assim como a escritora J.K. Rowling, conhecida por investir parte de sua fortuna para acabar com os direitos das pessoas trans em vários países, como ocorreu no Reino Unido. Isso mostra que, já na gênese, as ativistas antitrans se sentiam contempladas com essa movimentação, o que se confirmaria logo a seguir com as feministas transexcludentes junto com os intelectuais das perspectivas anti-identitárias.
Mark Lilla, Yascha Mounk e muitos outros importantes intelectuais – a exemplo da filósofa Susan Neiman (A esquerda não é woke, Ayiné, 2023) e da psicanalista Élisabeth Roudinesco (O eu soberano, Zahar, 2022) –, acusam os ativismos negros e da dissidência sexual e de gênero de terem aderido a um essencialismo extremo, que seria distinto do essencialismo estratégico pensado por Gayatri Spivak. Eles e elas nomeiam isso de variadas formas, tais como “liberalismo identitário”, “síntese das identidades”, “tribalismo” e “cultura do narcisismo”, respectivamente. No Brasil, essa produção encontrou terreno fértil em seus antecedentes locais – como Antonio Risério (entre os vários livros, cito Identitarismo, LVM Editores, 2023) e Francisco Bosco (A vítima tem sempre razão? e O diálogo possível, Todavia, 2017 e 2022) –, e impulsionou as obras mais recentes de uma série de outros intelectuais como Luís Felipe Miguel (Marxismo e política, Boitempo, 2024) e Wilson Gomes (A tirania da virtude, Sagga Editora, 2025). Rapidamente, um baixo clero reacionário se formou nas redes sociais, principal meio de informação utilizado pelos principais expoentes para divulgar as suas ideias. Nas redes, o vale tudo contra as identidades permite que um professor equipare Erika Hilton com Carla Zambelli.
Sobre o “identitarismo”
No Brasil, os intelectuais irão priorizar a categoria do “identitarismo” para atacar os ativistas negros e da diversidade sexual e de gênero. Trata-se de uma categoria que era usada por intelectuais franceses para analisar os movimentos de extrema direita, compostos por supremacistas brancos que chegaram a fundar um partido político que foi extinto pelo governo em função de suas propostas nitidamente fascistas. Agora, nossos intelectuais igualam os “identitaristas” da extrema direita com os do campo da esquerda – em uma evidente falsa equivalência. O próprio uso dessa categoria para pensar ativistas das identidades subalternas me parece um enorme equívoco, que acomete até obras mais bem-intencionadas de alguns outros autores do Brasil que não estão imunes a essa movimentação.
Segundo os autores e autoras, os responsáveis por essa deriva super essencialista, seja qual for o nome que ela receba, são as universidades – em especial através dos estudos negros, decoloniais, queer e trans, tanto através dos autores e autoras que os influenciaram quanto de seus representantes atuais. O pensamento de Judith Butler, que já era atacado pelos adeptos da “ideologia de gênero”, agora é um dos mais atacado por esse grupo progressista. Para Lilla, as universidades ensinaram aos estudantes que as identidades de gênero são maleáveis “ao modelo Facebook de identidade”. Para Mounk, os movimentos trans querem negar o “sexo biológico”, e para Roudinesco, que entende as cirurgias realizadas em pessoas trans como “mutilações”, a teoria queer teria criado uma ideologia com um catecismo que dissolve as fronteiras entre sexo e gênero.
Aqui está em questão o conceito de cisgênero, que teria criado uma nova ideologia ou norma, segundo essas autorias. É isso que fará coro com críticos ao mesmo conceito, tais como Richard Miskolci, para quem cisgênero não se sustenta epistemológica e empiricamente (ver Batalhas morais, Autêntica, 2021), e Valeska Zanello, que se diz ofendida ao ser chamada de “mulher cis” (ver Scripts culturais, gênero e emoções, Editora Appris, 2025). Para ela, isso seria dizer o mesmo que as mulheres são masoquistas, uma vez que esse gênero, segundo ela, é historicamente inferior e amputador. Restaria perguntar se ela se sentiria também ofendida ao ser chamada de branca e heterossexual – duas outras identidades que carregam seus próprios privilégios. Não é por nada que muitas dessas autorias aqui citadas também atacam os conceitos de lugar de fala, branquitude e privilégio branco, temas que não tenho espaço para tratar aqui.
O livro mais recente de Zanello é sintomático para entendermos a adesão das feministas transexcludentes a essa movimentação que se iniciou nos Estados Unidos e rapidamente tomou conta da cena intelectual brasileira – essa sim uma verdadeira caravela, ou um “FMI universitário”, para lembrar uma expressão usada por Vladimir Safatle para tecer críticas outras aos estudos decoloniais. Em sua obra, Zanello traz para o Brasil as feministas transexcludentes socialistas espanholas como Amelia Valcárcel e suas colegas. Todas se aliaram ao Vox para tentar impedir a aprovação da chamada Lei Trans na Espanha. Apesar desse nome, a lei que acabou por ser aprovada estabelece as diretrizes das políticas para o respeito à diversidade sexual e de gênero no país.
As feministas transexcludentes, entre seus objetivos, têm como meta destruir o direito das pessoas trans de se autoidentificarem como desejam. Para isso, usam muitas estratégias e subterfúgios e também atacam a nova compreensão que passamos a ter sobre o sistema sexo-gênero – na mesma tendência sugerida por Lilla, Mounk e Roudinesco. A partir dos estudos queer e trans, desnaturalizamos não apenas o gênero (algo já feito historicamente pelas teóricas feministas), mas também o próprio sexo, pois ele também não está imune às normas de gênero, com as quais, via de regra, o lemos. Isso é entendido por Zanello, por exemplo, como um “construcionismo radical” que decretaria a morte da categoria mulher. Nada mais equivocado, uma vez que apenas amplia a categoria de mulher para que possa acolher as diversas mulheridades – inclusive das mulheres trans.
Mas, para atacar as pessoas trans, Zanello desenvolve ideias aparentemente mais sofisticadas que as dos demais autores aqui citados. Ela diz que as pessoas trans passam por uma socialização primária com o gênero ao qual foram identificadas e uma socialização secundária a partir do processo de transição. E essa socialização primária não desapareceria da subjetividade da pessoa, pois ficaria um resíduo. E qual é o objetivo dessa teoria? Dizer, por exemplo, que Erika Hilton não é mulher porque foi socializada como homem. E mesmo que hoje se identifique como uma mulher, algo de masculino permaneceria nela. É isso que dá margem para argumentar que ela é agressiva (como um homem) e não pode ser presidenta da Comissão das Mulheres da Câmara dos Deputados.
Já escrevi alguns artigos acadêmicos sobre essas novas obras e estou escrevendo um livro para cartografar e analisar de forma mais sistemática cada uma delas, refletindo sobre quais foram as condições de emergência desses novos saberes. Ao que parece, o processo de subjetivação que marcou os últimos anos – com a proliferação de muito discurso de ódio, falta de empatia para com as diferenças e ascensão da extrema direita – criou uma profunda dessensibilização para com o outro, que marca não apenas as vidas dos adeptos de perspectivas conservadoras. Ao mesmo tempo, essas obras são reativas aos ativismos e saberes negros, decoloniais, queer e trans que deixaram de problematizar apenas as próprias identidades subalternas e passaram a criticar as normas – sejam elas a colonialidade, a branquitude ou a cisgeneridade. E esse impulso crítico, fortemente influenciado pelas cotas no ensino superior, é entendido por esses intelectuais como a imposição de um pensamento único que estaria assolando a pluralidade em nossas universidades. Essa ideia passa a ser defendida exatamente quando as instituições de ensino atingem um grau de pluralidade de pensamentos nunca antes visto. Isso explica, ao menos em parte, o surgimento do manifesto intitulado Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica, assinado e/ou apoiado por várias autorias do país aqui citadas. Ali fica nítido o alinhamento do campo anti-identitário que esboço aqui.
Tudo isso nos mostra que, nos próximos anos, além de enfrentar a extrema direita e suas pautas anti-identidades subalternizadas, teremos mais um imenso desafio. O que está em jogo é uma nova versão de uma disputa epistemológica sobre o que entendemos sobre raça, gênero e sexo. Ou seja, novas revoltas, dentro e fora das universidades, serão mais do que necessárias, e elas precisarão ser, cada vez mais, interseccionais. A luta continua.
Leandro Colling é professor titular da UFBA, e integrante do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS-UFBA).
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/os-anti-identitarios-e-a-nova-ofensiva-antitrans/

