A ousadia transgressora de uma individuação feminista

 

Em 1944, oito anos após ter sido presa sob a acusação de ser comunista, Nise da Silveira é readmitida no serviço público. Passa a trabalhar no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro (RJ), um dos maiores hospícios do Brasil na época. É ela que nos conta que “durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usava. Aquele miserável daquele português tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então ele me disse: ‘A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque’. Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele então mandou levar aquele paciente para a enfermaria e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: ‘Aperte o botão’. E eu respondi: ‘Não aperto’ ”.

O que fez com que Nise não apertasse o botão? A que desígnios sua alma obedecia ao transgredir a normatividade da medicina de sua época e a que conjunto de atitudes essa normatividade dizia respeito?

O século 19 na Europa trouxe consigo o nascimento de uma série de ciências que passou a regulamentar ou a prescrever as formas de como se viver. É nesse contexto em que a figura do médico se transformou, tornando-se um agente regulador do certo e do errado sobre a vida das pessoas. Diferentemente das sociedades soberanas respaldadas em uma tanatopolítica, como nos descreveu Foucault, as sociedades modernas europeias eram disciplinares. Faziam incidir seu poder de controle pela prescrição, pela correção ou pela recomendação. Regulava-se a vida na medida em que os corpos internalizavam essas formas de regulação por meio de discursos de controle.

Surgiu, assim, a conceituação da doença mental que se baseava em uma racionalidade positivista. Instaurou-se a separação entre normalidade e loucura, com a terapêutica desta última compondo-se de internação, isolamento e métodos supostamente tecnológicos para época, sem dúvida agressivos. Essa construção inaugurou a lógica dos manicômios, lugar por excelência no qual aqueles que se encontravam apartados da razão deveriam ser depositados, como forma de exclusão e controle social. A psicologia emergiu como disciplina separada das escolas de filosofia e de ciências naturais. Ao mesmo tempo, a psicopatologia se formava como campo próprio, distanciando-se do paradigma médico.

Poucas décadas depois, Nise da Silveira retomou seu trabalho no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro. A psiquiatra retornou à filosofia e à cultura para propor novas modalidades de tratamento, afastando as alternativas violentas que ainda eram majoritariamente utilizadas em hospitais brasileiros. Por meio da filosofia de Spinoza, buscou uma abordagem terapêutica humanizada. Alinhada com a proposta do trabalho do psiquiatra Ronald Laing, de quem foi leitora voraz, como de tantos outros, tentou entender a experiência subjetiva do paciente, enxergando na loucura um processo potencialmente transformador. Do mergulho no campo de estudo da estética e das artes, trouxe a tentativa de articulação de uma teoria dos afetos e da ética à prática da clínica.

Ao deixar ecoar em seus ouvidos e em sua alma os gritos do teatrólogo francês Antonin Artaud – eu sou louco, não sou doente mental, disse-nos o artista –, Nise trocou o eletrochoque pelo choque psicopoético, a regulamentação pela transgressão, apresentando proposições que não patologizavam os sujeitos. Renomeou a psicose com a expressão emprestada de Artaud, os inumeráveis estados de ser, expressão que reivindica a pluralidade e a diversidade presentes no humano. A partir da desesperada tentativa de encontrar saídas de uma sociedade disciplinadora, Nise deu imensa contribuição à luta pela reforma psiquiátrica.

Ressaltamos a importância da transgressão de ideias, normas e valores edificados nas relações de poder que não incluem as populações minorizadas e não reconhecem a diversidade. A proposição dessas técnicas inovadoras e da consequente teoria que as justifica só poderia mesmo ter emergido da voz de uma mulher, brasileira, nordestina. Gilles Deleuze já nos disse que, na cartografia dos saberes, o criativo, o subversivo ou o revolucionário se apresentam sempre pela boca dos minorizados. Trabalhar com os inumeráveis estados do ser supõe uma psique que não comporta identidades fixas. Em vez disso, imagina devires. Será somente minorizando o instituído que o novo poderá devir.

A filósofa norte-americana Donna Haraway defende a importância das perspectivas parciais que, em vez de dissolverem o pensamento, enriquecem-no ao reconhecerem a diferença de suas partes como singularidades em si. Nesse sentido, a materialidade das condições da existência de Nise, assim como o lugar a partir do qual ela fala, foi determinante na práxis por ela instituída. As mulheres eram ensinadas a se ocupar das tarefas de cuidado, que davam contorno à vida da pólis. Estavam fadadas, portanto, às tarefas da intimidade, das relações e das emoções. Aos homens, destinavam-se o conhecimento e as ações no espaço coletivo. Nise foi uma mulher do seu tempo, mas também alguém que não se adequava ao que era esperado das mulheres de sua época e que não cabia naquela forma historicamente situada. Nise foi para universidade, sendo uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil: a única em uma turma de 157 homens. Ela e seu companheiro optaram por não ter filhos para se dedicar exclusivamente à carreira. Nise foi essa mulher que trafegou os valores do óikos para a pólis, elevando-os à condição de método, sem medo de dar nomes àquele que assumisse, sem ressalvas, o papel dos afetos e do encontro.

Nise valorizava a disponibilidade afetiva, a sensibilidade e a intuição de seus monitores, estabelecendo tais atributos acima da técnica. Acreditava que a eficácia de um tratamento se devia ao fato de os clientes terem a seu lado um ponto de apoio humano. Seria esse vínculo que catalisaria a coordenação de funções psíquicas deles e a construção de sínteses que os religariam ao mundo externo. Esse relacionamento se estenderia, aos poucos, ao contato com outras pessoas e com o ambiente. Nise nomeou esse vínculo de afeto catalisador e mostrou como produzia efeitos, inclusive nos casos que a psiquiatria tradicional considerava crônicos, não tratáveis. Encontrou excelentes catalisadores coterapeutas também entre animais como cães e gatos.

Em 1946, ela fundou no Hospital a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR), utilizando agentes terapêuticos como pintura, desenho, modelagem em argila e música, alargando, assim, a “a arte do curar” – etimologia da palavra medicina – ao incluir nessa equação o chamado da psique, a voz da alma, bem como sua expressão. A STOR chegou a ter 17 núcleos de atividades. A ideia era que, nas atividades dos ateliês, a imagem produzida traria consigo um significado afetivo. Segundo C. G. Jung, a partir dessas imagens-afetos se daria uma abertura para um confronto ético, intelectual e emocional do produto estético criado. Em 1952, Nise da Silveira fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, com material produzido na STOR, e, em 1956, fundou a Casa das Palmeiras, um pequeno território livre no qual não havia pressões geradoras de angústia nem exigências superiores, e os clientes podiam expressar suas emoções livremente por meio de atividades artísticas terapêuticas.

Nise polinizou a vida de volta a tantas pessoas acometidas por transtornos mentais. Algo nela a levava a realizar-se por inteiro numa epifania de resgate das almas. Descrever Nise, a humana, a mulher, a profissional, a guerreira, é encontrar as facetas de uma multiplicidade de revelações, atravessamentos e lutas. Nise se experimentou como protagonista da própria vida, teceu a loucura criativa, se percebeu outras ao olhar para os outros, obedecendo lealmente aos desígnios das almas e traduzindo-as a partir de cores, imagens, cenas, sons, mitos. Viveu sob a égide de Dioniso: reconheceu a tragédia por trás da loucura estigmatizada, enclausurada pelos ajustes racionais. Influenciada pela vida e pela obra de Artaud, descortinou a ideia de que o processo criativo é um desmembramento, no qual algo necessita ser perdido para nascer do novo, da novidade que irrompe de forma inédita a todo instante. Ao transgredir, ela foi radicalmente obediente à psique: recusando-se a ser apenas médica, ela foi radicalmente junguiana; dialogou com a antropologia, a filosofia, o teatro. Formou-se, deformou-se, reformou-se em tantas! Sempre pronta para se desencaixar.

A individuação é um conceito lapidado entre os anos de 1913 e 1919 por Jung e designa o processo de tornar-se a si mesmo no confronto com o coletivo. No entanto, lembrar-nos-á Amnéris Maroni, esse si mesmo não está dado a priori: será produzido continuamente, através de inúmeras diferenciações que sofreremos ao longo da vida. Maroni nos diz que, para compreender a individuação, será necessário abandonar o mundo aristotélico que percebe somente a realidade individuada em identidades acabadas que desejam coincidir o tempo todo consigo mesmas. Ao contrário, o processo individuante diz respeito “a um incessante nascer, morrer e nascer novamente: adaptar-se e desadaptar-se, regredir e progredir, dissolver-se e cristalizar-se continuamente, por vezes atravessando um violento desamparo e a solidão de quem precisa criar e recriar vínculos e afetos quando tudo parece impossível”. O que há é devir, borramento de fronteiras, que nos convidam a colher de cada dia aquilo que não seja sua repetição e a nossa. Morremos um bocado de vezes pela vida porque o estado de encantamento pelas coisas pede movimento e curiosidade intensa.

Toda individuação é transgressão: afirmação do singular perante o coletivo, sem, contudo, renegá-lo. Uma vã tentativa de escapar por completo do coletivo é mero individualismo. Individuação é esse ponto de encontro no qual o singular, ao se revelar, também é capaz de transformar a própria coletividade em que está inserido. A individuação de Nise da Silveira diluiu as fronteiras que compartimentalizavam os diferentes campos de saber, individuando a reforma psiquiátrica e transformando-a para sempre. Suas teorias vinham da prática, após o mergulho imersivo no caos, na atitude de não saber do outro a priori. Esse suposto caos é permeado de potência erótica e criativa que desvenda a vida e nela aposta. Nise sabia que sempre era possível testemunhar algo que estivesse prestes a nascer, mesmo diante da terrível paixão do mundo. Sabia que a vida que precisa se impor vai chegando. Enquanto isso, em silêncio acompanhado, um futuro é gestado. Esse futuro se faz na costura intensa e suave dos dias, se tivermos olhos para ver as grandezas que aí estão, e no desejo de que o outro seja sujeito individuante da sua própria história.

Martha Pires Ferreira, artista plástica, amiga e colaboradora de Nise, dizia que ela era esta dualidade: uma mulher-libélula, símbolo de delicadeza, metamorfose, leveza, sensibilidade e liberdade – seu lado intuitivo, feminino e artístico, ligado ao trabalho com as imagens, com as expressões da psique e com a sensibilidade clínica. Ao mesmo tempo, era um espadachim, a figura combativa que luta com firmeza, foco e coragem – seu lado guerreiro e racional, necessário para enfrentar o sistema psiquiátrico predominantemente masculino e autoritário. Uma mulher-metáfora da luta feminina por espaço e voz dentro de estruturas opressivas, tais como as científicas e médicas.

Nise demonstrou uma compreensão profunda e vivencial da coniunctio – conceito da alquimia utilizado por Jung para designar a articulação entre aspectos opostos da psique. Por meio da ousadia transgressora de sua individuação, Nise confrontou normas da medicina, nos reconectou com a linguagem elementar da psique e nos revelou as tantas camadas que nos constituem, infinidades de formas de ser e de seguir rumo ao futuro. É preciso seguirmos contando as histórias de mulheres autoras como Nise e lendo suas obras para restituir às psicologias profundas as encantarias de pensamentos e afetos sensíveis, ancorados na arena do mundo compartilhado, que nascem a partir de tantos encontros potentes.

Patricia Teixeira é psicóloga e diretora da Cia Coexistir de Teatro. Analista em formação pelo IJUSP/AJB. Coordenadora de projetos na Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Organizadora e autora do livro Formação, práticas e técnicas do artista teatral (Paco, 2020)

Carmen Parise é psicóloga, analista pelo Instituto Junguiano de São Paulo (Ijusp), pela Associação Junguiana do Brasil (AJB) e pela IAAP. Coorganizadora e coautora dos livros Escutando dissidências (Sattva, 2024) e Re-imaginando um lugar de escuta (Sattva, 2022)

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