Que família é essa? Um significado em disputa nas urnas

 

 

Há pouco mais de uma década no Brasil, o discurso em “defesa da família” só aparecia em campanhas de políticos obscuros da direita tradicional, sem consequências programáticas, ou como bordão de pastor evangélico no púlpito, sem tradução política imediata. Isso mudou partir do movimento que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. A família tradicional deixou de ser um valor difuso e marginal, para se tornar uma pauta organizada, com atores identificáveis, agenda legislativa e adversário nomeado. Um marco significativo foi a polêmica em torno do material didático sobre diversidade sexual destinado a escolas públicas, produzido e cancelado pelo governo Dilma sob pressão de uma coalizão de parlamentares evangélicos e católicos conservadores, que o apelidou de “kit gay”. O episódio funcionou como laboratório: mostrou que a construção pública de uma ameaça à família, por mais fantasiosa que pudesse parecer, podia mobilizar, unir campos religiosos distintos e, sobretudo, render votos.

Jair Bolsonaro soube explorar essa oportunidade melhor do que ninguém. Seu lema da eleição de 2018, “família, Deus e liberdade”, foi a síntese de uma reconfiguração do campo conservador brasileiro que havia levado anos para se consolidar. Pela primeira vez na história eleitoral recente do país, um candidato ao Palácio do Planalto construiu sua campanha menos em torno de propostas econômicas do que em torno de uma visão de mundo moral, e venceu. A família, nesse enquadramento, não era apenas afeto doméstico: era fronteira. Defini-la como natural, heterossexual e hierárquica significava, ao mesmo tempo, nomear o inimigo: a “ideologia de gênero”, o PT, a esquerda “que quer destruir a família brasileira” ao “ensinar as crianças a serem homossexuais”. O recurso funcionou em 2018 e voltou, com variações, em 2022. Às vésperas da eleição de 2026, a família permanece no tema de campanha, ainda que não com tamanha força.

É contra esse pano de fundo que devemos entender o livro Brasil no Espelho (2026), de Felipe Nunes, que interpreta os resultados de uma pesquisa do instituto Quaest com quase dez mil entrevistados, encomendada pela Rede Globo. O livro mostra que, numa escala de 0 a 10, a importância atribuída à família alcança média de 9,2, ou seja, quase uma unanimidade. Para 96% das pessoas, ela é a coisa mais importante da vida. Ver a família feliz é o maior sonho, perdê-la é o maior medo. Examinados de maneira apressada, esses resultados parecem apontar que a extrema direita acertou na mosca ao politizar a família, pois os brasileiros a têm na mais alta estima. O próprio livro empresta crédito a essa interpretação ao afirmar peremptoriamente:

Na média, somos um país majoritariamente conservador. Prevalecem os valores tradicionais da religião, a valorização da família acima de tudo, a preservação de um pensamento estereotipado sobre o papel dos homens na sociedade”.

A entrevista com o autor do livro, feita por Bernardo Mello Franco e Renan Damasceno para O Globo em 30 de novembro de 2025, traz o mesmo diagnóstico no subtítulo “Um país que se une na fé e no apego à família”.

A conclusão que a Globo parece ter extraído desses dados foi prática e imediata: a emissora reformulou parte de sua grade em torno do tema, estreando em março de 2026 o programa Em Família com Eliana, nas tardes de domingo, e lançando o Familhão, clube de fidelização cujo slogan é “a família aumentou”. Diante dos números relevados pela pesquisa, a tentação é tratar a família como um terreno pacificado, um valor compartilhado por todos, acima das clivagens que dividem o país.

Mas essa leitura merece cuidado. Grandes levantamentos quantitativos medem o quanto a família importa, mas dizem pouco sobre uma pergunta anterior e mais importante: o que as pessoas querem dizer quando falam em família. E é justamente nessa segunda pergunta que fatores de ordem política e ideológica incidem. O livro de fato reconhece diferentes concepções de família, mas a explicação que dá para esse dado nos parece equivocada. Brasil no Espelho atribui as transformações no conceito de família à passagem do tempo. Gerações mais novas aceitariam com mais facilidade arranjos não tradicionais, normalizariam estruturas diversas e atribuiriam menor peso à obrigação de ter filhos. Essa transformação é dividida em quatro gerações: Bossa Nova (1945-1964), Ordem e Progresso (1965-1984), Redemocratização (1985-1999) e Geração.com (2000-2009). À mais jovem delas é atribuído um papel especial. 42% dos entrevistados dessa faixa se declaram de centro, contra 28% de direita e 26% de esquerda, proporção superior à de qualquer outra geração. Em entrevista ao Globo, Nunes interpreta esse dado como sinal de que “o cansaço da polarização está levando o jovem ao centro”, uma convergência geracional que, por extensão, valeria também para as pautas de família. Ainda segundo o livro, essa Geração.com seria “menos adepta do familismo normativo” e aberta a aceitar “mais estruturas não tradicionais” Há verdade nisso, mas a interpretação carrega um risco: o de imaginar um processo quase natural em que, se esperarmos tempo suficiente, o país inteiro convergiria para uma concepção mais plural de arranjo familiar. Nossos dados, contudo, sugerem outra coisa. O que separa as concepções de família no Brasil não é simplesmente a geração: é a ideologia.

As pesquisas “A Cara da Democracia”, realizadas pelo INCT Instituto da Democracia, de 2018 até 2026, permitem mapear essa clivagem com precisão. Definamos os grupos de forma estritamente eleitoral: lulistas são os que votaram em Lula no segundo turno de 2022 ou declaram intenção de fazê-lo em 2026; bolsonaristas, os que fizeram ou fariam o mesmo por Bolsonaro; nem-nem, todos os demais. Os dados revelam um quadro mais complexo, e muito mais interessante, do que esse senso comum sobre o conservadorismo brasileiro supõe.

Quando perguntados sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mais da metade dos entrevistados se declara favorável em todas as ondas da série, independentemente do grupo considerado. No caso da adoção de crianças por casais gays, a proporção favorável é ainda maior, superando dois terços da população em 2025. A primeira lição dos dados é, portanto, de tolerância: o Brasil é mais aberto a arranjos familiares não tradicionais do que o debate político dominado pela retórica da família tradicional deixa entrever.

A segunda lição diz respeito à heterogeneidade interna do eleitorado bolsonarista. Mesmo entre aqueles que votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022 , ou que declaram intenção de fazê-lo em 2026, as proporções favoráveis são expressivas: em 2025, 37% apoiam o casamento homoafetivo e 44% apoiam a adoção por casal gay. Esses números desafiam a imagem de um eleitorado monoliticamente conservador no que toca valores familiares. O bolsonarismo político mobiliza a pauta da família tradicional, mas seus eleitores não são, individualmente, tão hostis à diversidade familiar quanto essa retórica poderia sugerir. Ao longo da série, os percentuais bolsonaristas favoráveis ao casamento sobem de 27% em 2021 para 37% em 2025, e à adoção de 35% para 44%. No mínimo, esses dados nos permitem afirmar com segurança que a politização intensa da pauta familiar, praticada pela extrema direita, não produziu endurecimento das atitudes individuais: a retórica conservadora sobre família não converteu seu eleitorado em bloco coeso de oposição à diversidade.

O achado mais relevante, no entanto, é o comportamento do grupo que não se identifica com nenhum dos dois campos. Em todas as ondas da série, os nem-nem (nem Lula, nem Bolsonaro) apresentam proporções favoráveis às duas pautas praticamente indistinguíveis das dos lulistas: em 2025, 62% a favor do casamento homoafetivo e 70% a favor da adoção. O eleitor que recusa os dois polos ideológico-eleitorais não é, em matéria de valores familiares, o conservador moderado que o discurso sobre o “centro” frequentemente imagina. É, ao contrário, o segmento mais progressista do eleitorado nessas pautas.

A pesquisa qualitativa que conduzimos pelo Monitor do Debate Público aprofunda esse diagnóstico. Ao longo do ano eleitoral de 2026, acompanhamos seis grupos contínuos de eleitores em conversas conduzidas por aplicativo de mensagens. São cinquenta participantes recrutados para reproduzir, no que toca ao sexo, idade, renda, escolaridade, região e religião, as proporções da população brasileira. Diferentemente dos levantamentos de opinião, o método não busca medir frequências, mas reconstruir sentidos: entender como cada grupo elabora, com suas próprias palavras, suas posições e opiniões acerca de assuntos sociais e políticos.

Numa ponta, entre bolsonaristas convictos e parte dos moderados, a família aparece como base moral e estruturante da vida social. Mais do que afeto, ela é vista como a instituição que forma o caráter, transmite valores e sustenta uma certa ordem. Os vínculos ganham contornos quase fundacionais, muitas vezes religiosos: a família como obra de Deus, porto seguro e referência moral. Num ponto intermediário, entre parte dos bolsonaristas moderados e os indecisos de inclinação conservadora, predomina uma leitura mais pragmática: a família como rede de apoio e convivência cotidiana. Essa visão se pauta menos por uma definição ideal e mais pela função concreta da família: importa quem cuida, quem está presente, quem ampara nos momentos difíceis. Na outra ponta, entre indecisos progressistas, lulistas e parte dos lulodescontentes, a família foi definida pelos vínculos afetivos construídos, de forma plural, relacional e eletiva. Não há modelo único, e a diversidade de arranjos aparece de forma muito mais explícita.

O dado mais relevante desse conjunto, porém, é que esse gradiente não é geracional, ele é político. Ademais, em todos os temas que investigamos, o posicionamento eleitoral mostrou-se mais determinante para as respostas do que a variável religiosa, inclusive no caso da família, terreno em que se esperaria que a fé tivesse peso maior. Eleitores de mesma idade e mesma religião, mas de campos opostos, apresentam concepções de família completamente diferentes. Isso altera o centro do problema. Se a divergência fosse apenas de coorte, tenderia a se dissolver com o tempo e a rotação do ciclo geracional. Sendo política, ela tem maior estabilidade e, o que mais importa numa eleição, pode ser reativada a cada disputa.

Isso ajuda a entender algo que a nota média de 9,2 esconde. Como quase todos dizem valorizar a família, o tema parece um terreno seguro, o que tornaria sua evocação um ato eleitoral de baixo custo para um candidato. Ninguém perde votos ao se dizer a favor da família. O problema é que a palavra não significa a mesma coisa para todos, e é justamente aí que mora o risco de transformá-la em narrativa homogênea de campanha. Como sabemos, foi a extrema-direita que mobilizou essa pauta. Assim, a defesa genérica da família tende a ser interpretada como posição conservadora. Quando a utiliza, o candidato não aciona um valor compartilhado, e sim uma entre várias concepções em disputa. Para o eleitor que entende a família como base moral e ordem, esse apelo soa como a defesa de um modo de vida e mobiliza com intensidade. Para o eleitor que a entende como vínculo afetivo e plural, o mesmo apelo pode soar como ameaça. Uma estratégia que trata a família como bandeira uniforme, supondo falar a todos ao mesmo tempo, na prática toma partido sem perceber. Ela acende um campo e repele outro, inclusive parte do eleitorado indeciso que a campanha imagina estar conquistando. O que parecia um recurso de baixo custo e alto retorno simbólico pode, quando convertido em narrativa única, produzir efeito contrário ao pretendido.

A questão se torna ainda mais interessante quando se olha para o centro do espectro, onde eleições costumam ser decididas, e onde os dados desfazem outro equívoco frequente. Os nem-nem, como vimos, não são o bloco conservador moderado que estrategistas pressupõem ao recomendar um giro para a direita em pautas de valores. São, nessas pautas, tão ou mais progressistas que o eleitorado lulista. Um discurso excessivamente centrado na família tradicional pode consolidar o voto bolsonarista, mas dificilmente conquista o eleitor independente que está em jogo em 2026. É isso que torna a família um instrumento ao mesmo tempo tão flexível e tão perigoso no cálculo eleitoral.

Tratar a família como valor pacificado é, portanto, um equívoco analítico com consequências políticas. A concordância de superfície, de que todos amam suas famílias e as colocam no centro da vida, convive com uma divergência profunda sobre o que a família é e o que dela se espera. A família não é o que nos une por baixo das diferenças políticas; é um dos espaços onde essas diferenças se inscrevem com mais profundidade.

Por isso, afirmar que os brasileiros “valorizam a família acima de tudo” é dizer quase nada. A fórmula mais escamoteia do que revela e, pior, empresta verossimilhança à tese de que a extrema direita estaria certa, a de que haveria no país um eleitorado unanimemente comprometido com os valores tradicionais da família. Nossos dados desmentem essa unanimidade. Em 2026, todo discurso sobre a família que nos une será também um discurso sobre a família que nos divide.

João Feres Júnior é professor titular de Ciência Política no IESP-UERJ e doutor em Ciência Política pela City University of New York. Coordena o Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), o Grupo de Estudos da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB). Atualmente, dedica-se ao estudo da extrema direita, do bolsonarismo, da polarização política, das redes sociais e das transformações contemporâneas da esfera pública.

Carolina de Paula é cientista social, mestre e doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ. Pesquisadora LEMEP-IESP/UERJ e ReDEM. Sócia da Phronesis e professora da ESPM, atua há mais de 15 anos com pesquisa e consultoria em opinião pública, comportamento político e comportamento do consumidor, com foco em pesquisas qualitativas. Coordena projetos em todo o Brasil nas áreas de campanhas eleitorais, impacto social e estudos de mercado. Também ministra cursos de metodologia qualitativa e é autora dos livros “O que Faz um Senador? Um Estudo sobre a Representação Política dos Senadores Brasileiros” (Appris, 2018) e “Marketing Político e Eleitoral” (Intersaberes, 2023).

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/que-familia-e-essa-um-significado-em-disputa-nas-urnas/