Sair do isolamento da ilha de Lesbos e contar-se na pólis

 

A clínica psicanalítica, cirúrgica em marcar as particularidades do sujeito, revela que algumas repetições têm valor para além do enredo particular. Da recorrência do fenômeno que insiste ao que se extrai de como as identificações do desejo do Outro se articulam e ordenam, são possíveis leituras de posição. O que, pela via da reincidência, atravessa diferentes contextos geográficos e temporais nos dá dimensão de uma repetição no laço social e revela seu valor de transmissão.

Através dos encontros do Travessias Lésbicas da Psicanálise, sustentados pelos significantes lésbicos e psicanalistas, recolhemos do que ressoa de uma universal particular sapatão os efeitos no simbólico que trabalha apesar da escassez de insígnias. Este dossiê é uma cartografia resultante da tradução dos atravessamentos que se repetem nessa sobreposição, nas hipóteses teóricas e interpretações clínicas articuladas na feitura de uma transmissão.

Se o que nos reúne é, em um primeiro momento, certo reconhecimento, algo mais é necessário para que a identificação se torne laço. Experiências compartilhadas de um certo cansaço, nas quais ressurgem formas de violência e apagamentos recorrentes, nos dão a noção de fenômeno pela própria repetição em diversos contextos. Há uma inquietude produzida pelo imperativo de que é necessário aprender a repetir a linguagem dos universais da psicanálise para poder se dizer. As consequências do sofrimento produzido na ausência de nomeação quando se chega ao divã relatando algo para quem não possui códigos para escutar. Como se localizar em mar aberto quando não se porta um mapa? No apagamento e na solidão localizamos algo que se repete. O que se inscreveu no corpo se escreve com a extração dos dizeres das experiências, marcando posições particulares em relação às ordenações dos (e nos) códigos sociais.

Decantar tais experiências nos possibilita produzir leituras de um tecido social interpelado pelas particularidades. Desenhar um mapa, questionar: o que se repete? O que fazemos com isso quando agrupadas e precisamos nomear o que funda essa travessia? O que nos trouxe até aqui? O que da história singular de nossas corporeidades ressoa quando nos agrupamos em torno dessas palavras sobrepostas? Ah, psicanalistas. E lésbicas.

Afinal, o que funda a palavra lésbica? O amor entre mulheres? A categoria mulher? É a cisgeneridade a episteme das nossas nomeações? O colonialismo? O capital? Podemos mesmo nos fundir em categorias quando o nosso ofício é ouvir o que o corpo bordeja enquanto singular? Movimentar a teoria com a língua: quais as potências e os riscos políticos de usá-la como instrumento na tessitura da linguagem através do nó que trabalha em nós?

Nesse sentido, a lésbica não é uma identidade totalitária, tampouco existe apenas dentro de um espectro binário. É preciso evitar a redução desse signo a “mulheres que amam mulheres”, visto que, historicamente, as lesbianidades tensionam os modelos hegemônicos. Estreitar definições seria perder o que se produz de histórico: as lesbianidades como dissidência que fazem ressoar as estruturas.

Pois bem, nas definições da palavra lésbica, funda-se a querela: perspectivas em dissenso, a polissemia se instaura como algo sobre o que se sobrepõe enquanto entorno, lésbicas e psicanalistas: nós sem conjunto. A querela também pode ser sustentada como indagação. Em um gesto-bússola, Jéssica Dias escreve e nos evoca à contingência: “Os giros em que as epistemologias sobre – e sob – o corpo criam, recriam e se estruturam na cultura produzem este corpo teórico, prático, ético, estético, inconsciente e político que compõe e impacta as estruturas nas quais ele mesmo é gerado”.

Os corpos lésbicos propõem um outro ângulo para as discussões sobre raça, classe, corporeidades, sexualidade, gênero e outros temas que concernem à psicanálise e à sociedade. Talvez não façamos conjunto, mas, sim intersecções. E lembremos que, na exposição de um ponto de vista, o próprio corpo também se expõe, com suas marcas e atravessamentos. Nesse caso, o dissenso finda a querela.

Dos dizeres da prosa intergeracional que circulam nas mesas de bares, nas ruas, nas esquinas entre tempos e geografias distintas, recolhemos algo que perpassa essas experiências. Este dossiê pretende extrair contribuições teórico-clínicas articuladas à psicanálise, que derivam dos modos lésbicos de fazer laço. Trata-se de ir além das críticas à noção de família ordenada a partir do regime binário da diferença sexual e ao par homem-mulher em sua cisgeneridade como base da organização social, para apostar na invenção de parâmetros e articulações conceituais que torçam o referente que precipita conclusões e se fecha em universais.

Das muitas mãos que escreveram o dossiê, somam-se perspectivas diversas de lésbicas e psicanalistas de várias gerações com percursos distintos e em territórios diferentes. Por isso, temas como invisibilidade, rebuceteio, sexo, velhice e amor são abordados a partir de ecléticas perspectivas, formando uma tessitura discursiva polifônica, da qual não se subtrai uma verdade. Um Nós que enreda a singularidade e as diferenças que atravessam cada um dos corpos que aqui escrevem: é insistir nos efeitos da travessia.

Este dossiê surge de um acontecimento, nestes atos de transmissão cujos efeitos serão recolhidos da discursividade e elaborados um a um: nas próximas páginas, escrevemos esse corpo continuum lésbico.

No primeiro ato: “A tia lésbica da história da psicanálise”, Érica Espírito Santo, Flávia Ripoli Martins, Laura Marosin de Oliveira e Sarah Rocha dos Santos abordam o lugar das lésbicas na história da psicanálise e trabalham a forma como a sexualidade de Anna Freud, filha de Sigmund Freud, foi interpretada e discutida no campo psicanalítico.

Em seguida, no segundo ato, intitulado “Do rebuceteio ao divã: Notas sobre a escutabilidade em psicanálise”, Anna Cecília Oliveira Fernandes, Fernanda Renaux e Lohana Morelli Tanure discutem o rebuceteio enquanto um modo de existir pensado como um dispositivo para interrogar a universalidade dos modos de fazer laço. Como essas concepções repercutem nos relacionamentos, nos amores, nas parentalidades lésbicas e produzem um efeito de ensurdecimento da prática analítica?

O terceiro ato é um “Convite do sexo lésbico: Uma travessia entre fronteiras”. Aqui, Bárbara Cristina Souza Barbosa, Luísa Bergara de Souza e Oli Ameno Brun trabalham como o sexo lésbico convoca ao encontro com o erótico, com a possível aventura de se aventurar. Propõem o atravessamento de fronteiras entre os campos da ficção e da verdade, e convidam ao encontro com as singularidades que o escrevem: corpo que diz em nome próprio.

A última travessia que aqui se apresenta convoca à leitura das cartas e registros da história que nos dão notícias do amor. Há de se parar de nadar para chegar ao continente dos frágeis. Em “A carta e piano: O amor lésbico e a transmissão em psicanálise”, Jéssica Dias e Joana Manassés Penteado percorrem a poética da experiência amorosa entrecruzada pela experiência analítica. Piano como o fio condutor das águas da linguagem e das cartas de amor: é uma conversa sobre transmissão, desejo e linguagem.

Que este dossiê possa reverberar na língua dos corpos falantes que levam a palavra-barco ao fluxo da linguagem.

Joana Manassés Penteado é psicanalista, mestre em psicologia social pelo Núcleo de Psicanálise e Sociedade da PUC-SP, integrante do AGE (Ambulatório de Generidades) IP-USP

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