Veneno sonho é o primeiro livro do compositor e ator Valê Ghiorzi. Elaborado ao longo dos últimos três anos, trata-se de uma compilação de poemas, relatos e fragmentos de registros de diários; ou, como ele classifica, “uma mistura das minhas experiências mais violentas com os meus piores pesadelos e mais misteriosos sonhos, somados às paixões mais opressoras e uma boa dose de ficção para costurar tudo em um livro só”.
Em entrevista à Cult, o autor conta sobre seu processo criativo, sua relação com a ficção e classifica sua escrita como “sempre falha” – “morre e nasce em constância, desrespeitosa. Não busca apenas nomear, mas gargalhar dos nomes que foram atribuídos. Tento brincar com as palavras assim como os demônios brincam comigo nos meus sonhos.”
O lançamento de Veneno sonho ocorre na terça-feira, 13 de outubro, no Bar Carmen, às 19h – rua Silva Pinto, 429, Bom Retiro – e contará com leituras de Valê Ghiorzi, Nuno Lima, Maria Vitória Royer e Nathalia Garcia.
Se apresente
Prazer, me chamo Valê Ghiorzi. Sou escritor, compositor e ator. Veneno Sonho é meu primeiro livro. Compilado de poemas e relatos de diários escritos nos últimos três anos, Veneno Sonho é uma ferida aberta em exposição. É uma mistura das minhas experiências mais violentas com os meus piores pesadelos e mais misteriosos sonhos, somados às paixões mais opressoras e uma boa dose de ficção para costurar tudo em um livro só. A ideia de compartilhar algo tão pessoal não deixa de ser desconcertante, mas menos do que a ideia de partir dessa vida sem antes colocar na mesa do mundo essas palavras que me atravessam. Minha escrita é uma tentativa. Sempre falha, que morre e nasce em constância, desrespeitosa. Não busca apenas nomear, mas gargalhar dos nomes que foram atribuídos. Tento brincar com as palavras assim como os demônios brincam comigo nos meus sonhos.
O que te move no mundo?
Cada hora uma coisa. Nesse momento de desespero político, eu tenho achado a revolta honesta linda de doer. Acho que a gente teme que, se falar as coisas sem dó, vamos ser mal-interpretados. Mas, se a gente deixa esse medo se sobrepor, não tem por quê falar coisa alguma. Pra quê? Pra manipular o outro sem consentimento? Pra tratar o outro de idiota?
Podemos confiar também que, se falarmos com honestidade (sem precisar fugir da ficção) o suficiente, alguém vai ouvir. No momento, ando gostando de uma honestidade bruta, daquelas que fazem as pessoas se sentirem mais leves depois de falar. Que você vê os olhos se aliviando depois.
Fora isso, amo subir em montanhas e ver paisagens enormes. Enquanto seguir acreditando que não vi de tudo e que o mundo ainda é extremamente misterioso e surpreendente, seguirei me movendo. O dia em que essa curiosidade teimosa acabar, eu acabo junto. Eu sou meu desejo.
Pra quem você escreve?
Pros deuses, pra morte, pra minha própria memória, pra ex amores que não falo mais. Comecei escrevendo como súplica, como um pedido de socorro. No meu primeiro diário, aos 11 anos, ficava pedindo um namorado que viesse me salvar da solidão esquisita que rondava minha casa.
Acho que no começo eu ainda era muito influenciado pela ideia perturbadora de que eu tava sendo vigiado por um deus, que assistia à minha vida quieto, e não dava muita atenção às minhas preces porque elas não eram urgentes comparadas com às fomes do mundo.
Então eu escrevia em diálogo com essa espécie de deus, mas geralmente numa revolta. “Já que você não vai me dar o que quero, e já que você segue deixando a miséria rolar solta, eu vou me vingar falando a verdade.”. Era o que me restava. Se tivesse alguém observando quieto todas as misérias do mundo – e a minha inclusa – eu o detestava. Eu acreditava na possível punição das minhas palavras, mas preferia uma tortura pós-morte à uma submissão, ao meu ver, covarde.
Hoje não sei mais se tem alguém me vigiando. Talvez todos os deuses, talvez nenhum. Então sigo escrevendo como sigo escovando os dentes, tomando banho, cagando. Não funciono sem. Quando passo muito tempo sem escrever sei que não estou falando comigo – ou que estou alegre demais.
Hoje abriu-se mais espaço pra ficção. É preciso relatar a vida e a verdade, mas eu não acredito mais que um realismo bruto seja a forma mais eficaz de fazer isso. Minha realidade se mistura constantemente com meus sonhos, adormecidos ou acordados, então nada mais justo que minha escrita também.
Seu universo é confortável?
De forma alguma. Como diz Guimarães, “alegria só em breves momentos de distração”. Pra mim, eu diria que a alegria nem é tão rara, mas o conforto, sim. Conforto em breves momentos de distração. Mas tudo bem, estranho seria ter conforto demais nesse mundo bizarro do jeito que é. Eu também cultivo meu desconforto. Por mais que, às vezes, ele beire o insuportável, sem ele eu não teria pra quê abrir os olhos.
Talvez eu sinta um conforto quando me lembro de que não sei de quase nada e que posso gozar um pouquinho enquanto isso.
Brasil e França. Como foi e como é?
Nasci na França, cheguei no Brasil com um ano e só voltei pra França em 2023, quando morei por três anos pra fazer um mestrado, então fica difícil resumir em poucas palavras. Eu amo o Brasil e sou brasileiro, não tem jeito. O português brasileiro é a língua que mais ocupa meus sonhos, é o país que mais admiro, que acho mais misterioso, mágico, ousado, belo. Mas a França é muitas coisas também. Paris é uma cidade que pode lembrar São Paulo. Gente do mundo todo. Uma cidade que se vende como algo, mas é completamente outro. Demora um pouco pra começar a desvendar o que tem de bonito no que ela é, mas, depois que você percebe que não é o único imigrante, fica mais fácil. Amo a França, mas sou brasileiro mesmo se não quisesse. Só que quero.
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/veneno-sonho/


