A Inteligência Artificial (IA) costuma ser narrada como um fenômeno recente, um novo “big bang”, deflagradora reação das acelerações em dados, redes, poder de cálculo e “machine learning”. Mas a história da IA começa bem antes das máquinas e percorre uma ampla genealogia filosófica que, ao longo de séculos, discretizou, formalizou, simbolizou, traduziu em regras e limitou as condições do próprio pensamento.
Essa genealogia evoca, também, trajetórias de titãs do intelecto marcadas pelo contraste entre brilhantes conquistas teóricas e existências frágeis, e às vezes trágicas. Gottfried Wilhelm Leibniz, George Boole, Georg Cantor, Kurt Gödel e Alan Turing formam um arco decisivo. Suas contribuições sustentam a lógica e a computação modernas; suas vidas revelam isolamento, conflito e fins paradoxais — mortes “ilógicas” que expõem a contraditória condição humana atrás do progresso da razão formal.
A constatação impõe a exigência de uma releitura crítica da atual obsessão com a IA, ao expor a incongruência entre a sua promessa de racionalização total e a realidade opaca da sua raiz e do seu funcionamento. De fato, a IA é frequentemente apresentada como ápice de um projeto de formalização do mundo integralmente traduzido em cálculo, maximizando previsibilidade, eficiência e controle.
Contudo, essa narrativa entra em tensão com a opacidade estrutural dos sistemas algorítmicos, que, operando como “caixas-pretas”, produzem resultados cujos critérios mais profundos permanecem largamente inacessíveis, mesmo para seus próprios criadores. Configura-se, portanto, uma contradição performativa, segundo a qual quanto mais sofisticados e eficazes se tornam os sistemas de IA, menos justificáveis e inteligíveis são as suas operações.
Assim, longe de realizar uma transparência ampliada, a racionalidade algorítmica desloca o regime de inteligibilidade: ao intensificar o poder do cálculo, simultaneamente obscurece os processos decisórios que pretende esclarecer. É sugestivo pensar que, nas travessias existenciais dos grandes arquitetos da inteligência, encontramos a metáfora deste contrassenso, entre vislumbres luminosos e percursos sombrios.
É difícil ligar um computador sem ecoar a influência de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716), último renascentista, que unificou o conhecimento racionalista com uma visão de mundo ainda barroca e intuiu que o raciocínio humano poderia ser formalizado e automatizado. Sua ideia da “characteristica universalis” buscava uma linguagem simbólica e rigorosa do saber, enquanto o “calculus ratiocinator” prometia resolver disputas com um simples “Calculemos!”. Em um manuscrito de 1679, ao formular as primeiras regras aritméticas usando apenas 0 e 1, lançou o sistema binário, fundamento da digitalização contemporânea. Para Leibniz, porém, não era só matemática: o 1 era Deus, o 0 o Nada, e da sua combinação nascia o universo. Primeiro exemplo de processamento digital generativo.
Contudo, “o melhor dos mundos possíveis” que o polímata alemão teorizou não se revelou generoso. Apesar de ter sido um dos maiores pensadores de seu tempo, nos últimos anos de vida foi politicamente marginalizado e corroído pela feroz disputa com Newton sobre a invenção do cálculo infinitesimal. Morreu praticamente esquecido, quase ninguém participou do funeral, nem mesmo os membros da Academia de Ciências de Berlim que fundara. Por mais de 50 anos, o túmulo permaneceu completamente sem identificação na Igreja de Neustädter, em Hanôver.
Em meio à Revolução Industrial, George Boole (1815–1864) realizou o sonho de Leibniz e transformou a lógica de uma disciplina filosófica em uma disciplina matemática, portanto calculável. Com a álgebra booleana, mostrou a manipulação das proposições através de operadores formais como AND, OR, NOT. No século 20, Claude Shannon comprovou que a álgebra booleana poderia ser implementada em circuitos elétricos, criando a base teórica do computador moderno e da IA simbólica clássica. Todo algoritmo digital de decisão opera, em última instância, sobre estruturas booleanas.
A morte de Boole é uma das mais surreais da história da ciência. Num dia do severo outono irlandês de 1864, ele caminhou quase três milhas sob uma chuva implacável para alcançar o University College de Cork. Completamente encharcado, ainda assim, fiel ao dever, ministrou sua aula. Poucos dias depois contraiu uma grave pneumonia. Aqui entra em cena Mary Everest Boole — esposa de George, intelectual de vasta cultura e sobrinha de Sir George Everest, o geógrafo e cartógrafo britânico cujo nome viria a designar o ponto mais alto do planeta. Mary cuidou de George à luz de algumas correntes médicas difundidas na Era vitoriana, em particular do princípio de que “o semelhante cura o semelhante”: se a umidade tivesse causado o mal, a própria água poderia curá-lo. Foi sob esse quadro de ideias que ela passou a aplicar compressas e baldes de água fria sobre o marido enquanto permanecia febril. As condições pioraram rapidamente e Boole morreu com apenas 49 anos. Assim, o fundador da álgebra booleana — base de todos os computadores modernos — desapareceu em circunstâncias quase grotescas.
A partir de sua teoria dos conjuntos, Georg Cantor (1845–1918) rompeu um tabu central, que o infinito não poderia ser tratado como objeto matemático. E foi além, teorizando que existem infinitos de diferentes tamanhos e introduzindo os números “transfinitos”. No entanto, suas ideias revolucionárias foram recebidas com hostilidade. Figuras influentes como Poincaré e Kronecker repudiaram seu trabalho, classificando-o como patologia ou charlatanismo.
O isolamento intelectual teve efeitos profundos. Cantor enfrentou crises recorrentes, internações psiquiátricas e dificuldades profissionais. Entre períodos de grande criatividade, dedicou-se a controvérsias marginais, como a tentativa de atribuir a Francis Bacon a autoria das obras de Shakespeare. Sua vida tornou-se um limbo e seu fim foi ainda mais cruel. Em meio à Primeira Guerra Mundial, enfrentou pobreza e desnutrição. Internado em um sanatório, morreu de ataque cardíaco em 1918, longe da família. A teoria dos conjuntos de Cantor estabeleceu a infraestrutura conceitual indispensável ao desenvolvimento tanto da própria matemática quanto sucessivamente da IA. No entanto, o homem que abriu as portas para o infinito foi destruído pela rejeição de seu próprio tempo.
Kurt Gödel (1906–1978) revelou, por sua vez, os limites intrínsecos da lógica. Em 1931, seus teoremas da incompletude demonstraram que sistemas formais suficientemente robustos não podem ser ao mesmo tempo completos e consistentes: ou seja, existem proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas dentro do próprio sistema. Um buraco negro definitivo se abre contra a ideia de uma galáxia matemática totalmente fundamentada e autossuficiente defendida por Hilbert. A reflexão válida que herdamos hoje é de que nem todo pensamento pode ser reduzido a procedimentos automáticos.
Gödel combinava genialidade extrema com fragilidade psicológica. Desenvolveu paranoia crescente, convencido de que seria assassinado. Emigrou para os Estados Unidos com apoio de Einstein, instalando-se em Princeton, onde manteve intensa atividade intelectual. No entanto, seu medo de envenenamento tornou-se dominante. Nos últimos anos, recusava-se a comer sem a supervisão da esposa Adele. Quando ela adoeceu, ele simplesmente parou de se alimentar. Morreu de desnutrição severa em 1978, pesando cerca de 30 quilos. Demonstrados os limites da lógica, Gödel terminou prisioneiro dos labirintos da própria mente.
Por fim, Alan Turing (1912–1954) transforma a base lógica em máquina. Em 1936, concebeu a máquina de Turing, modelo teórico capaz de realizar qualquer processo computável. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu trabalho em Bletchley Park foi decisivo para decifrar o código Enigma nazista, contribuindo para a vitória aliada. No pós-guerra, propôs o famoso teste de Turing, sugerindo um paradigma do comportamento inteligente observável, inclusive nas máquinas, (e formulando a famosa pergunta “As máquinas podem pensar?”).
Turing encarnava o gênio criativo e excêntrico. Porém, sua vida foi marcada por uma violência institucional sem igual. Homossexual em uma época em que isso era crime no Reino Unido, foi processado e submetido à castração química e tratamentos hormonais forçados, que lhe causaram depressão, alterações físicas e enorme sofrimento psicológico. Humilhado e afastado de projetos estratégicos, viu-se excluído pelo próprio Estado que ajudara a salvar. Em 1954, foi encontrado morto, envenenado por cianeto; ao lado do corpo, uma maçã mordida. Nunca foi comprovado de forma conclusiva que fosse suicídio, e com referência deliberada à Branca de Neve, filme que ele adorava. Conta-se também que possa haver uma homenagem a Turing no logotipo da Apple; seria sugestivo, mas não é verdade.
Essas trajetórias delineiam um padrão: a história da lógica e da computação que pavimenta a IA não é apenas a história de rigor e de clareza, mas também a história de vidas atravessadas por vulnerabilidade, incompreensão e sofrimento. A formalização da razão exigiu mentes capazes de empurrar seus próprios limites — frequentemente além do que suas próprias vidas puderam sustentar.
Há, nessa evolução, também uma lição persistente para a contemporaneidade. O percurso intelectual fundacional da IA evidencia que todo sistema lógico coerente encerra uma zona de “indecidibilidade”, na qual certas proposições escapam à demonstração e à refutação. Se o algoritmo não esgota sequer a lógica, com maior razão nunca poderá esgotar a experiência humana.
Mario Girasole é doutor em Economia pela Universidade de Perugia e mestre em Economia pela Universidade LUISS (Roma). Possui ainda um LL.M. em Direito Empresarial Internacional pela Universidade de Londres, mestrado em História Econômica Contemporânea pela Universidade de Roma e formação executiva na Columbia Business School, INSEAD e Harvard School of Government, entre outras instituições. É Vice-Presidente Executivo Sênior da TIM Brasil para Assuntos Públicos, Regulatórios, ESG e de Comunicação. É também Presidente e Diretor-Geral do Instituto TIM .
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/vida-e-morte-ilogica-dos-grandes-logicos/

