A fome raramente aparece diante do mundo com a nitidez de um massacre. Não explode. Não interrompe. Trabalha em silêncio, como uma transformação lenta da própria vida em algo mais estreito, mais limitado, mais difícil de sustentar.
Ela não chega de uma vez. Vai reorganizando tudo antes mesmo de ser percebida.
O corpo perde força ao final do dia. Depois, a espera pelo alimento passa a estruturar o cotidiano. Por fim, não há mais distinção clara entre viver e administrar a possibilidade de continuar vivendo.
Quando seus efeitos se tornam visíveis, já não é crise. É uma nova forma de viver.
Casas reorganizadas em função da escassez. Rotinas suspensas. Conversas interrompidas por necessidades que não podem esperar. Uma panela aberta. Vazia. Nada além disso. Não há no ambiente nada que a preencha.
O estômago dói silenciosamente. E há um silêncio que não é ausência — é adaptação.
Por essa razão, a fome ocupa um lugar singular na história da dominação. Ela permite que decisões políticas apareçam como fatalidade, que mecanismos de controle se disfarcem de circunstância e que a responsabilidade se dissolva numa linguagem que descreve o sofrimento sem jamais encostar em suas causas.
Essa questão está no centro do artigo “A fome como instrumento de genocídio: a política de extermínio da população palestina por Israel”, de Alexandre César Cunha Leite, Laura Schneider e Lavínia Maria S. Ferreira, publicado no Caderno CRH.
O texto sustenta uma tese precisa: a fome não como consequência da guerra, mas como forma ativa de organização política da escassez.
Mais do que um estudo sobre a crise contemporânea em Gaza, o trabalho propõe uma reflexão sobre a natureza do poder no mundo atual. Sua hipótese central é tão simples quanto poderosa: a fome que atinge a população palestina não deve ser compreendida como consequência indireta de operações militares, mas como parte de uma política deliberada de destruição das condições materiais de existência. Isso nos leva a ver que a arma mais potente do arsenal de guerra israelense usada contra os palestinos é a fome.
A relevância dessa interpretação ultrapassa o caso palestino. Ela propõe uma distinção que costuma permanecer oculta no debate público. Existe uma diferença profunda entre uma população que passa fome porque foi atingida pelos efeitos de um conflito e outra submetida a um sistema que administra, calcula e controla a própria escassez. No primeiro caso, a fome é uma consequência. No segundo, torna-se instrumento de poder.
Essa diferença altera completamente a forma como compreendemos o que acontece em Gaza.
Durante meses, a situação foi descrita quase exclusivamente pela linguagem da guerra. A palavra foi repetida por governos, organismos internacionais e meios de comunicação até adquirir aparência de evidência. Como toda palavra amplamente aceita, passou a dispensar explicações.
Mas as palavras não apenas descrevem os acontecimentos. Elas também delimitam aquilo que somos capazes de enxergar.
A ideia de guerra sugere um confronto entre forças que disputam objetivos militares. Sugere reciprocidade de ação, ainda que não de poder. Sugere que os sofrimentos da população civil derivam da dinâmica de um conflito armado. Entretanto, a realidade observada em Gaza não se enquadra nessa moldura.

Em tintas brandas, Gaza é uma população submetida ao controle de fronteiras terrestres, espaço aéreo e acesso marítimo; dependente da autorização de uma potência ocupante para receber alimentos, medicamentos, combustível e água; privada de autonomia sobre elementos básicos de sua própria sobrevivência. Encontra-se, assim, numa condição que ultrapassa largamente as categorias tradicionais do conflito militar.
A questão fundamental deixa de ser quem exerce a força. Passa a ser quem controla as condições da vida. Essa distinção é decisiva.
Ao longo dos últimos trinta anos, consolidou-se um sistema no qual a vulnerabilidade alimentar da população palestina deixou de constituir uma consequência eventual das tensões políticas para se tornar parte de uma estrutura permanente. Fechamentos sucessivos, restrições à circulação, destruição de infraestruturas produtivas e bloqueios recorrentes produziram uma dependência crescente. A economia foi sendo privada de meios para garantir sua própria reprodução. A agricultura perdeu capacidade de recuperação. O abastecimento passou a depender de decisões externas. Pouco a pouco, a escassez deixou de ser uma emergência. Transformou-se em arma — uma arma de guerra manejada por um exército poderoso e sofisticado contra uma população desarmada.
Nenhum episódio ilustra essa transformação com tanta clareza quanto a revelação de documentos que indicam a existência de cálculos destinados a estabelecer a quantidade mínima de calorias necessária à população de Gaza. O significado político desse fato ultrapassa amplamente qualquer questão nutricional imediata.
Durante séculos, governos calcularam arrecadação, capacidade produtiva, efetivos militares e índices de crescimento. O cálculo da quantidade mínima de alimento necessário para impedir o colapso imediato de uma população pertence a outra ordem de fenômenos — uma ordem em que o próprio limiar da vida deixa de ser dado natural e passa a se tornar objeto de administração.
Esse deslocamento marca a passagem entre duas concepções distintas de poder.
Uma procura assegurar condições para a vida. A outra administra limites para a sobrevivência.
A diferença pode parecer abstrata. Não é.
Quando uma população é mantida de forma contínua próxima ao limiar da escassez, a alimentação deixa de ser apenas um direito e passa a funcionar como instrumento de regulação política. A comida já não cumpre apenas sua função biológica; ela se integra a um campo mais amplo de gestão da vida, no qual o acesso ao essencial deixa de ser garantido e passa a ser condicionado.
O indivíduo deixa de ser plenamente reconhecido como sujeito de direitos e passa a ser administrado como parte de uma população cuja existência física se converte em objeto de cálculo contínuo. A vida, assim, não é apenas protegida ou ameaçada: ela é modulada, ajustada, mantida em um patamar de sobrevivência que se torna, ele próprio, uma forma de controle.
Isso transforma viventes em sobreviventes. Extingue a cidadania. Determina o fim de um povo.
Por isso a tragédia palestina adquire significado universal.
A questão não se restringe apenas à limpeza étnica em curso por Israel, mas aponta para uma transformação mais ampla das formas contemporâneas de dominação.
Ao longo do século XX, a violência extrema foi associada à imagem dos campos de concentração, das deportações em massa e dos grandes massacres. Essas referências permanecem decisivas para compreender os limites das formas extremas de violência que marcaram a experiência histórica moderna. No século XXI, porém, parece emergir uma dimensão adicional: não apenas a capacidade de matar, mas a de administrar a exposição prolongada à morte.
A reflexão de Achille Mbembe, ao formular o conceito de necropolítica, evidencia formas de poder que distribuem de modo desigual proteção e vulnerabilidade entre populações. Algumas vidas são investidas, cuidadas e protegidas; outras permanecem submetidas a regimes permanentes de precariedade.
Em Gaza, essa lógica se torna particularmente concreta. A entrada de alimentos depende de autorizações políticas; medicamentos tornam-se inacessíveis por decisão administrativa; hospitais deixam de funcionar por falta de combustível; o acesso à água é interrompido com brutalidade. A sobrevivência cotidiana passa a depender de mecanismos externos de controle, e a fronteira entre governar e gerir a exposição à morte se dissolve.
A vida humana converte-se em objeto de gestão. Não se trata apenas de decidir quem morre, mas em que condições a vida pode continuar a ser vivida.
É nesse contexto que o debate jurídico sobre a Palestina adquire centralidade. Termos como crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio não pertencem apenas ao campo técnico do direito internacional; envolvem a própria linguagem moral por meio da qual sociedades interpretam o sofrimento.
Nomear é atribuir significado.
Nomear é distribuir responsabilidade.
Nomear é delimitar o tolerável.
Por isso, a controvérsia em torno do conceito de genocídio ultrapassa os tribunais. Ela diz respeito à forma como o mundo interpreta a destruição das condições materiais de existência de um povo.
Pode haver disputas jurídicas legítimas sobre esse enquadramento. O que se torna cada vez mais difícil é sustentar que a fome em Gaza pertença ao domínio da fatalidade.

Ela está claramente aninhada em estruturas políticas identificáveis, decorre de decisões concretas e opera por mecanismos verificáveis. Tudo devidamente planilhado.
Essa constatação conduz a uma questão mais ampla: o que a experiência palestina revela sobre o arranjo internacional que se consolidou no pós-1945?
Durante décadas, consolidou-se a expectativa de que o mundo havia construído instrumentos capazes de impedir que certas formas de violência permanecessem sem resposta. Convenções, tribunais e organismos multilaterais surgiram com essa finalidade.
A experiência palestina expõe a fragilidade desse projeto.
Não faltam informações. Faltam consequências. Relatórios se acumulam, investigações se multiplicam, alertas se repetem. O conhecimento existe em excesso; o que não se produz é ação equivalente.
Essa distância entre saber e agir tornou-se uma das marcas do presente.
Nunca houve tanta informação sobre o sofrimento humano. Nunca foi tão difícil convertê-la em resposta efetiva.
Essa contradição corrói a legitimidade das instituições internacionais: direitos universais tornam-se seletivos na prática, normas se convertem em instrumentos de disputa geopolítica, e a proteção da vida permanece condicionada à assimetria de poder entre Estados.
A Palestina concentra essa contradição de forma exemplar.
Talvez por isso Gaza ultrapasse suas próprias fronteiras.
Ela obriga o mundo contemporâneo a confrontar uma pergunta simples e desconfortável: qual a diferença entre proteger uma população e administrar sua sobrevivência?
Não se trata de uma distinção teórica. Ela define o horizonte ético do tempo presente.
Nenhuma sociedade atravessa essa fronteira impunemente.
A diferença entre proteger uma população e administrar sua sobrevivência não é apenas conceitual. Ela define o tipo de mundo que se constrói — e aquele ao qual se aceita pertencer.
O artigo “A fome como instrumento de genocídio: a política de extermínio da população palestina por Israel” está disponível para download AQUI.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-administracao-da-sobrevivencia/

