Por Paulo Henrique Arantes
Mentir é tão natural aos Bolsonaros que ninguém mais se ocupa de desmenti-los. Quando da carta ginasial que o pai escreveu dentro do cárcere domiciliar para que o filho 01 lesse publicamente, de pronto deflagrou-se discussão sobre a legalidade do ato, cogitando-se violação de norma restritiva pelo condenado. Pelos termos garatujados, a mídia constatou que Flávio é mesmo o candidato da família – Michelle que se emende. Ninguém se ateve a um detalhe contido nos garranchos: a referência ao “empobrecimento” atual do povo brasileiro.
Jair Bolsonaro não mereceria resposta séria, pela pobreza argumentativa de suas manifestações e por sua notória proficiência em fake news. Mas a questão do “empobrecimento” rende um histórico interessante. No mundo não-fictício, desde o Plano Real, o único período em que a população brasileira empobreceu foi justamente durante o governo do capitão.
Nos anos FHC, de 1995 a 2002, o valor nominal do salário mínimo subiu de 70 para 200 reais, com ganho real entre 44,3% e 50,9%. O foco inicial de Fernando Henrique não era uma expansão agressiva, mas impedir que a inflação corroesse o salário logo após o Plano Real. Apesar do crescimento econômico modesto do país na década de 1990, o salário mínimo conseguiu ganho real porque partiu de uma base bastante desvalorizada pelos anos de hiperinflação.
Os dados levantados pela coluna são do Ipeadata e do Dieese.
Nos governos Lula I e II, de 2003 a 2010, o mínimo alcançou 510 reais, perfazendo-se um aumento real de 57,8%. Foi o período de maior enriquecimento real da base salarial da história recente do país. Beneficiaram-se os trabalhadores do forte crescimento do PIB global – 7,5% em 2010 – e do superciclo das commodities, que turbinou a arrecadação e viabilizou os repasses diretos ao piso salarial, mediante a política de reajustes acima da inflação implantada pelo governo.

Sob Dilma Rousseff (2011-2016), o salário mínimo foi a 880 reais, com aumento real de 12,7%. Como a regra em vigor atrelava o aumento ao PIB de dois anos anteriores, a recessão econômica iniciada em 2014 zerou os aumentos reais automáticos nos anos seguintes. Mesmo assim, como se vê, houve ganho real no período.
Mesmo nos anos neolilberais de Michel Temer, de 2016 a 2018, o salário mínimo obteve valorização real de 3,3%, atingindo 954 reais. Foi só nos anos Bolsonaro (2019 a 2022) que o salário mínimo perdeu da inflação. O valor nominal alcançado, 1.212 reais, retratou uma perda real de 1,7%. O povo brasileiro, que, bem ou mal, vinha tendo seu poder de compra aumentado, ficou mais pobre sob Jair e Paulo Guedes. A justificativa dos incompetentes que governaram o Brasil no período foi a crise global decorrente da Covid-19 e do forte encarecimento de itens essenciais. De todo modo, Jair e equipe nem cuidaram do bolso do povo, nem combateram o coronavírus.
Neste terceiro governo Lula, o salário mínimo encontra-se em 1.621 reais no momento em que estas linhas são escritas. O poder real de compra do mínimo, desde que o petista assumiu e até o fim do seu mandato, terá sido, pelas projeções, de 7,5%. Lula retomou a antiga fórmula de valorização do salário mínimo (INPC mais PIB de dois anos antes, se positivo; se negativo, só INPC). Com o PIB registrando crescimentos consecutivos acima de 3% a partir de 2023, o cálculo garantiu um ganho real acumulado que recolocou a curva de poder de compra na ascendente.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-mentira-do-empobrecimento-na-carta-de-bolsonaro/

