Munições de lotes comprados pela Polícia Militar de São Paulo em 2005 e 2007 reapareceram na morte do advogado Carlos Alves Vieira, de 48 anos, conhecido como Ferrugem, baleado por policiais da Rota em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, em novembro de 2025. Os códigos AAE67 e BAY18 estavam no carregador de uma pistola Glock calibre 9 mm atribuída a Vieira pelos próprios PMs. Com informações de Folha de S.Paulo.
O laudo do Instituto de Criminalística registrou os códigos nas munições examinadas. A Glock foi apresentada na delegacia pelos policiais militares, mas não aparece nas imagens das câmeras corporais que documentaram parte da ocorrência.
Os lotes AAE67 e BAY18 somavam 758 mil cartuchos de calibre 9 mm adquiridos pela PM paulista. O segundo também incluía 1,4 milhão de munições calibre .40. As compras desrespeitaram uma portaria do Exército de 2004, que limitava a 10 mil unidades a quantidade de munições com o mesmo código, medida criada para facilitar o rastreamento.
Cápsulas dos mesmos lotes já apareceram em chacinas na Região Metropolitana de São Paulo, no ataque que matou 17 pessoas em Osasco e Barueri, em agosto de 2015, e em uma sequência de assassinatos que deixou 11 mortos em Londrina, no Paraná, em janeiro de 2016. Também houve registros em um duplo homicídio em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em 2015.

Investigação sobre a morte de Ferrugem segue sob sigilo
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que a Polícia Civil apura a ocorrência, incluindo as munições usadas. O setor de homicídios de Mogi das Cruzes conduz o inquérito sob sigilo. A Corregedoria da PM concluiu sua apuração e enviou o caso à Justiça Militar, que remeteu o processo à Justiça comum.
No dia da morte, uma câmera de segurança flagrou um policial da Rota mexendo no banco traseiro de uma viatura e depois no porta-malas do carro onde Vieira foi baleado. Horas mais tarde, peritos encontraram no porta-malas uma mochila com 12 tijolos de maconha.
As câmeras corporais começaram a registrar a abordagem mais de seis minutos após os disparos. Quando o policial mexeu no porta-malas, os equipamentos já tinham parado de gravar. Os PMs disseram ter apreendido duas armas no veículo, mas os vídeos exibem apenas uma pistola Taurus calibre .380, e não a Glock 9 mm.
A perícia apontou que a numeração original da Glock havia sido raspada e substituída por um código falso. A Taurus também teve o número apagado, o que impediu o rastreamento das duas armas. Peritos localizaram ainda uma cápsula de 9 mm no assoalho do carro e seis cartuchos no asfalto, todos de munições da PM paulista.
O governo paulista apontou Vieira como integrante do PCC após a morte, versão contestada pela Ouvidoria das Polícias. Recém-aprovado na OAB, ele era sócio de lojas de peças de motocicletas e de uma empresa de logística; investigações por tráfico de drogas abertas a partir de 2015 não resultaram em indiciamento.
O consultor sênior do Instituto Sou da Paz Bruno Langeani afirmou que a falta de uma relação pública dos lotes de munição dificulta a identificação de desvios. Um pedido feito via Lei de Acesso à Informação para obter os códigos de todas as munições vendidas às forças de segurança está há cerca de dois anos em análise na Casa Civil.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/arma-atribuida-a-advogado-morto-pela-rota-tinha-municoes-desviadas-da-pm/

