“Autismo ficou glamourizado e se tornou desejável”, diz especialista

A psiquiatra alemã Uta Frith, pioneira nos estudos sobre autismo. Foto: Reprodução

A pesquisadora Uta Frith, uma das pioneiras nos estudos sobre autismo, declarou que o conceito de “espectro autista” perdeu seu significado e deixou de ser útil clinicamente. Em entrevista ao The Times, ela afirmou que, com o tempo, a noção de espectro foi ampliada a ponto de englobar quadros muito distintos e, por isso, enfraqueceu o diagnóstico.

Ela citou o aumento de diagnóstico nas últimas décadas e reclamou da “glamourização” do transtorno. “O autismo ficou glamourizado, e um diagnóstico se tornou, em certa medida, desejável. Não vemos a esquizofrenia sendo glamourizada da mesma forma”, apontou.

Para Frith, a busca por inclusão no diagnóstico expandiu tanto os critérios que agora não é possível diferenciar adequadamente as pessoas que realmente precisam de tratamento especializado. “Acho que o espectro chegou ao seu colapso”, afirmou.

“O espectro ficou tão abrangente que temo que ele tenha sido esticado a tal ponto que se tornou sem sentido e não é mais útil como diagnóstico médico”, prosseguiu. Esse aumento, segundo ela, tem gerado filas maiores para avaliações e uma disputa por recursos, prejudicando quem precisa de suporte mais intensivo.

Como alternativa ao conceito de espectro, Frith propôs a criação de subgrupos dentro do diagnóstico. Ela sugeriu separar os casos em categorias mais específicas, como o autismo infantil com critérios mais restritos, os casos anteriormente conhecidos como síndrome de Asperger e um grupo relacionado à hipersensibilidade.

Símbolo mundial da conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Foto: Reprodução

A intenção é tornar o diagnóstico mais útil e direcionado, facilitando o cuidado e a pesquisa. Frith acredita que essa divisão ajudaria a fornecer rótulos mais claros e significativos para os diferentes tipos de autismo, cada um com suas próprias necessidades.

“Esses indivíduos não têm comprometimento intelectual e são verbalmente fluentes, mas em geral ficam muito ansiosos em situações sociais e são hipersensíveis”, explicou.

Ela também apontou que a ampliação do espectro, ao misturar pessoas com dificuldades cognitivas e biológicas muito diferentes, tem dificultado os estudos sobre o tema, tornando os dados coletados em grandes amostras mais “ruidosos”. A especialista acredita que, ao separar os casos em subgrupos, seria possível chegar a conclusões mais precisas sobre as necessidades de tratamento e o acompanhamento de cada perfil.

Além disso, Frith pontuou que o aumento no número de diagnósticos pode ser explicado pelo maior acesso à informação, mudanças nos critérios diagnósticos e a ampliação do olhar para sinais antes ignorados. Ela observa que essa questão é similar à discussão sobre o TDAH, com o impacto em escolas, famílias e serviços de saúde.

A especialista defende que, embora o diagnóstico precoce seja importante, é necessário equilibrar isso com o cuidado para não atribuir rótulos imprecisos a crianças e adultos.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/autismo-ficou-glamourizado-e-se-tornou-desejavel-diz-especialista/