‘Desculpa’ de Flávio Bolsonaro traz críticas a Michelle nas entrelinhas

Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Leia o texto de Flávio Bolsonaro quantas vezes quiser. Em nenhum momento ele está realmente preocupado em se desculpar com Michelle Bolsonaro que, ontem, divulgou um vídeo-bomba acusando o enteado de tê-la maltratado, tratado como idiota e apunhalado. O que está lá é um produto de assessoria em modo de controle de danos, postado depois que os vídeos da ex-primeira-dama viralizaram e começaram a custar votos. Não é uma mensagem para a madrasta, mas para o eleitorado que Flávio precisa para se viabilizar como candidato. Pelo contrário, ele faz críticas a ela nas entrelinhas.

Uma desculpa genuína começa com reconhecimento claro do erro. Já o texto de Flávio, postado nas redes sociais, começa com um currículo de bom comportamento: “Sou casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida…”

A frase-chave é esta: “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas.” Primeiro ele nega o ato. Depois condiciona o pedido de desculpas a uma hipótese que ele mesmo acabou de rejeitar, jogando para o ofendido a responsabilidade por ter criado o constrangimento.

É o equivalente político de dizer “me desculpe se você se sentiu ofendido”, um clássico não-pedido-de-desculpas que nós, homens, adoramos usar para parecermos magnânimos sem abrirmos mão de ter razão. Quantas mulheres já ouviram isso?

Michelle, no vídeo, foi direta, não foram palavras vagas. “Ele me desrespeitou e me maltratou.” Chamou o episódio de “punhalada”, em português claro, traição. Disse que o senador sugeriu que ela ficasse fora das decisões do partido porque não entendia nada de política. Logo ela, que preside o PL Mulher, mobiliza uma campanha nacional de filiação ao partido, organiza candidaturas de mulheres e é o maior ativo eleitoral da família junto ao segmento evangélico. “Me tratam como idiota”, disse. Tudo aquilo que a mulher pobre, eleitorado numeroso, sente na pele todos os dias.

Diante de acusações específicas vindas de alguém que conviveu de perto com o senador, Flávio respondeu com um textão de LinkedIn.

O seu post tem uma estrutura técnica precisa. Primeiro, o tal currículo com humanização. Segundo, credencial de caráter (“24 anos de vida pública e sou reconhecido pelo meu equilíbrio”). Terceiro, negação suavizada do ato (a tal desculpa que não é desculpa). Quarto, inferir um descontrole emocional em Michelle (“entendo a angústia da Michelle vendo meu pai, todos os dias, sofrendo com tamanha injustiça” e “eu também sofro, mas sigo firme”, ou seja, ela não).

Quinto: reposicionamento como “o escolhido” e a verdadeira vítima (“viajando o Brasil carregando o manto que meu pai me deu, passando dias longe de casa, da minha esposa, das minhas filhas, sem poder orar e dar um beijo nelas antes de dormir, sofrendo ameaças de morte”). Sexto, diluição no inimigo comum: Lula e o PT. Sétimo, gesto performático de boa vontade: um convite a Michelle à reunião de “lideranças femininas conservadoras” com Damares Alves. Como eu disse, é um roteiro de manual de crise, não um gesto humano.

A menção à senadora não é acidental. Primeiro, ela é amiga de Michelle e Flávio quer mostrar que está com ela. Mas também é a senha para o eleitorado específico que está em risco: mulheres conservadoras, cristãs, que admiram Michelle e que podem simplesmente decidir não votar em Flávio. Damares é o ponto. O convite para a participação de uma reunião para construir “o melhor plano de país para as mulheres” é apenas a distração. E o convite à Michelle (com direito à revelação de uma mensagem que teria sido enviada por ele para ela) é o gesto calculado para fazer a ex-primeira-dama parecer a intransigente da história.

Pense na mecânica disso. Flávio liga para Michelle, ela não atende. Flávio manda mensagem, ela não responde. E isso vira, no texto dele, prova de que ele tentou e foi ela quem recusa o diálogo. Que ela publicou o vídeo mesmo depois de um gesto de reconciliação que ele fez “de coração aberto”. A narrativa muda: ele passa de acusado a abandonado. É uma inversão de protagonismo executada com técnica.

O objetivo do texto não era se reconciliar com Michelle. Era se reconciliar com as pesquisas eleitorais.

Há ainda o recurso ao sagrado quando ele diz que sua missão é “um projeto de Deus para o nosso país” ou quando aponta que pede “a Deus sabedoria, saúde, força e coragem para fazer a sua vontade”. Para o eleitorado evangélico, isso não é conversa fiada. É sinalização de pertencimento, o código que diz: sou um de vocês, estou numa missão maior, não me julgue pelos olhos da política miúda.

E o “viajando o Brasil carregando o manto que meu pai me deu”? Ali está outra âncora da construção. Flávio não está pedindo votos para si. Está se apresentando como continuidade de Jair Bolsonaro. Diante dele ter sido “o escolhido”, o conflito com Michelle ganha outro significado para os seguidores. Porque quem ataca o herdeiro ataca o patriarca.

Michelle fez os vídeos para, segundo ela, responder aos ataques de aliados do enteado por não estar participando ativamente da campanha. Afinal, se ela não estava entendendo nada, melhor ficar quieta. Pode-se concordar ou discordar com ela em muitas coisas. Mas o vídeo dela, que foi calculado, planejado, pensado e ensaiado, não tem a frieza do texto de resposta de Flávio. Foi feito na temperatura de alguém que decidiu falar o que sente, com as consequências que isso tem dentro de uma família que é também uma máquina política.

Textos de desculpas reais são desconfortáveis de escrever, pois renunciam ao controle da narrativa e colocam quem escreve em posição de vulnerabilidade. O post de Flávio Bolsonaro não faz nada disso. Ele está no controle o tempo todo e cada parágrafo serve a um propósito eleitoral identificável. Isso não é uma crítica moral ao personagem, mas uma leitura do documento. E o documento diz, com clareza, que Flávio Bolsonaro não escreveu para Michelle Bolsonaro. Escreveu para as urnas.

Em tempo: Logo após Michelle soltar o vídeo, Flávio postou outro, pueril, vestindo a camisa da seleção brasileira, em que dizia que era “dia de jogo” e que “hoje, nada nem ninguém me aborrece”. Lembrou quando ele negou que tinha pedido milhões a Daniel Vorcaro — para ser desmentido por si mesmo logo depois. Agora, ele estava ganhando tempo enquanto sua equipe escrevia aquilo que ele deveria, com sinceridade, postar.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/desculpa-flavio-bolsonaro-criticas-michelle-entrelinhas/