Emendas parlamentares destinadas a investimentos na Atenção Primária à Saúde financiaram, em 2025, mais cadeiras, computadores e aparelhos de ar-condicionado do que equipamentos médicos de baixo custo. O dado consta de um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde divulgado pela Folha de S.Paulo.
A Atenção Primária reúne serviços como unidades básicas de saúde, vacinação, acompanhamento de gestantes, controle de doenças crônicas e atendimento inicial da população. Dos 95.598 itens financiados por emendas individuais no período, 62.788, ou 65,7%, foram classificados como infraestrutura e material de escritório. Equipamentos clínicos de baixo custo, como eletrocardiógrafos, representaram 27,9%.
A diferença também aparece nos valores. Dos R$ 491 milhões analisados, R$ 263,5 milhões, equivalentes a 54%, foram destinados à compra de veículos. Outros R$ 113,9 milhões, ou 23%, financiaram infraestrutura e material de escritório, enquanto os equipamentos de saúde de baixo custo receberam R$ 58,8 milhões, correspondentes a 12% do total.

Para Marcella Semente, especialista em relações institucionais do IEPS e uma das autoras do estudo, os números não indicam necessariamente má gestão municipal. Eles revelam que parte das unidades do SUS ainda depende de emendas para adquirir elementos básicos de funcionamento, como mobiliário, computadores e sistemas de climatização, sinal de subfinanciamento persistente da rede.
O levantamento também identificou forte desigualdade territorial. Entre 2023 e 2025, 70% dos 5.570 municípios brasileiros receberam alguma emenda de investimento para a saúde. Paulista, em Pernambuco, e Maracanaú, no Ceará, ficaram com R$ 0,40 por habitante, enquanto Praia Norte, no Tocantins, recebeu R$ 1.577 por pessoa — 17 vezes a média nacional de R$ 89,07.
O Centro-Oeste teve a maior proporção de municípios beneficiados, com 85%, seguido por Sul, com 76%, e Sudeste, com 73%. Norte e Nordeste, regiões mais dependentes de transferências federais para sustentar serviços básicos, ficaram nas últimas posições, com 63% e 59%, respectivamente. Segundo o IEPS, a distribuição não obedece a uma regra legal de compensação das desigualdades regionais e depende das escolhas dos parlamentares.

O estudo aponta ainda uma mudança na finalidade das emendas da saúde. Em 2016, R$ 64 de cada R$ 100 eram destinados a investimentos, como obras, veículos e equipamentos permanentes. Em 2024, essa proporção havia caído para R$ 10, com a maior parte migrando para o custeio cotidiano de serviços já existentes. O IEPS recomenda um plano nacional de investimentos, metas regionais transparentes e critérios técnicos que vinculem cada emenda às necessidades comprovadas do município.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/em-vez-de-equipamentos-medicos-emendas-para-o-sus-bancam-carros-e-cadeiras/

