O DCM entrevistou com exclusividade Billy Navarrete, o diretor do Comité Permanente por la Defensa de los Derechos Humanos (CDH) do Equador e representante legal da família de Monika Silva Koniuszek, a jornalista e ativista anticorrupção morta no Equador.
Em conversa com Sara Vivacqua, Navarrete falou sobre as tentativas do governo Noboa de arquivar o caso como suicídio e a rede de suspeitos que a jornalista investigava, ligada a denúncias sobre tráfico de drogas internacional em contêineres da Noboa Trading — empresas comerciais vinculadas ao conglomerado da família do presidente equatoriano Daniel Noboa. É um dos maiores grupos privados do país, com atuação em áreas como exportação de banana (principal negócio), logística e comércio internacional, alimentos e agroindústria e transporte e cadeia portuária.
Navarrete faz também um alerta mais amplo ao Brasil e pede para que o mundo olhe para o Equador e não ignore o que está acontecendo ali. O Equador está sofrendo uma militarização interna sem precedentes, com a presença de forças militares norte-americanas em solo nacional, e se transformando em uma espécie de laboratório político-militar da articulação entre o governo Noboa e a administração Trump. Hoje, o Equador é um território de teste para combinar discurso de combate ao narcotráfico, militarização interna, presença e influência dos EUA e projeção desse modelo para intervenções norte-americanas em outros países da América Latina.
O Caso Monika Koniuszek
Em 8 de junho de 2026, o corpo de Monika Silva Koniuszek, jornalista e ativista anticorrupção de origem polonesa, foi encontrado sem vida em sua residência em Montañita, no Equador. Ela tinha 41 anos.
O governo do Equador, antes mesmo da autópsia, declarou suicídio, e o ministro do Interior, John Reimberg, afirmou à imprensa que Monika teria, inclusive, enviado uma mensagem de despedida ao seu parceiro.
No entanto, o que o laudo da autópsia revelou foi uma morte violenta, com um forte golpe por trás da cabeça de Monika, além de sinais de estrangulamento ou asfixia, descartando a versão oficial de suicídio sustentada pela administração Noboa.
Instituições de direitos humanos passaram, então, a acionar a esfera internacional. Em entrevista ao DCM, Billy Navarrete, revela que segundo as evidências na cena do crime, Monika foi assassinada por mais de uma pessoa, e que vinha recebendo ameaças de quase uma dezena de membros do governo Noboa.
Segundo Navarrere, houve ademais uma tentativa de interferência política nas investigações para arquivar o caso. “Sem conhecer o resultado da autópsia, nós rejeitamos imediatamente essa afirmação por ser infundada, precipitada e impertinente, já que não tinha nenhum suporte. Depois, o informe da autópsia foi tornado público. Nós já conhecemos esse relatório desde a semana passada, e ele aponta categoricamente uma morte violenta. Sobre isso não há dúvida. Houve pessoas, no plural, que entraram na casa de Monika e a assassinaram de forma planejada”, disse ao DCM.
Pouco antes de ser assassinada, Monika relatou a pessoas próximas que havia entregado um dossiê com denúncias à Embaixada dos Estados Unidos em Quito, envolvendo a Noboa Trading, conglomerado pertencente à família do presidente Daniel Noboa.
Em seu último recado de áudio, Monika pediu ajuda ao jornalista Andrés Durán: “Espero poder contar com a sua ajuda, porque avancei muito nas investigações.” Em seguida, afirmou: “De certo modo, descobri um vínculo com o Grupo Noboa.”
#PRIMICIA 🚨 l ESTE ES EL ÚLTIMO MENSAJE DE LA PERIODISTA MONIKA SILVA QUE INVESTIGO NEXOS DEL PRESIDENTE DANIEL NOBOA CON EL NARCOTRAFICO, ANTES DE SU ASESINATO
Monika Silva periodista polaca que denunciaba presuntos casos de corrupción en Ecuador, fue hallada sin vida en su… pic.twitter.com/4FfHe3amrL
— RTVC Noticias (@RTVCnoticias) June 23, 2026
Andrés Durán é um jornalista investigativo equatoriano que denunciou o caso Noboa Trading, envolvendo suspeitas de envio de cocaína para a Europa em contêineres de bananas ligados à empresa da família do presidente Daniel Noboa. Segundo a Assembleia Nacional do Equador, Durán deixou o país após tornar pública a denúncia e afirmar que sua integridade física estava em risco.
“Isso é público no Equador: o maior proprietário de plantações e de frota naval no país é a família Noboa. É conhecido o poder econômico da exportação desse produto, que é o mais importante do Equador depois do petróleo. Isso inclui a família Noboa como uma família de magnatas nesse setor. Agora, Daniel Noboa, representante desse poder político, está na Presidência. O volume de droga apreendida em 2025 estava aproximadamente entre 250 e 300 toneladas. Considerando que esse volume representaria algo como 30% de toda a mercadoria que sai, ao menos minimamente, estamos falando de um problema que compromete o governo de forma direta”, afirma Navarrete.
O que Monika teria encontrado e entregado à embaixada dos EUA no dossiê complementando as investigações de Andrés? Navarrete vem tentando o acesso a esse dossiê. As suspeitas são de que o tráfico internacional de drogas pela Noboa trading seria parte de uma estrutura mais ampla de exportação, controle portuário e possível proteção política.
“Monika falou comigo entre março e abril, em várias ocasiões, dizendo que havia uma ameaça muito forte à vida dela e à vida de suas filhas. Ela tem duas filhas pequenas”, conta Navarrete.“Há uma lista de mais de uma dezena de pessoas, incluindo altos funcionários do governo, que são conhecidos porque a denúncia de Monika sempre foi pública. Ela exibia documentos, pedidos de informação que nunca foram respondidos, com nomes concretos de pessoas que estariam vinculadas a esses fatos ilícitos. São funcionários públicos, mas também havia particulares com poder econômico.”
Os alertas ao Brasil e à América Latina
Além do caso Monika, Navarrete faz um alerta mais amplo sobre o papel que o Equador estaria assumindo na estratégia regional dos Estados Unidos. Para ele, o país se tornou um laboratório de militarização, repressão interna e expansão da presença norte-americana sob o pretexto do combate ao narcotráfico.
“A relação dos Estados Unidos com o governo do Equador agora, como nunca antes, é explícita em termos de apoio militar e apoio político. Não se trata apenas da entrega de fundos e da chegada de marines ao Equador, que é um fato concreto, mas também de apoio político a tudo o que está sendo desenvolvido”, afirma.
No início de março, autoridades dos Estados Unidos divulgaram um vídeo mostrando uma grande explosão e a destruição do que, segundo elas, seria um campo de treinamento de traficantes de drogas em uma área rural do Equador.
A gravação foi apresentada como parte da estratégia militar americana de combate ao narcotráfico. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que as Forças Armadas dos EUA, que há meses atacam embarcações suspeitas de transportar drogas na América do Sul, estariam “agora bombardeando narcoterroristas em terra”.
No entanto, de acordo com reportagem do New York Times, o alvo atingido não seria um centro de treinamento do tráfico, mas sim uma fazenda de gado e produção de laticínios. A informação foi obtida por meio de entrevistas com o proprietário da propriedade, trabalhadores, advogados de direitos humanos, moradores e lideranças da comunidade de San Martín, no norte do Equador, onde a ação ocorreu.
Segundo Navarrete, esse modelo combinaria três elementos: a instrumentalização do crime organizado, o protagonismo dos militares na segurança interna e a repressão de qualquer resistência social. “Desde a militarização no Equador, quase não houve mobilização social. São muito escassos os atos de protesto pacífico, e os que ocorrem são reprimidos com muita violência. Então há uma instrumentalização da criminalidade e da militarização para impedir o descontentamento”, declara.
O defensor de direitos humanos afirma ainda que o Equador estaria sendo usado como terreno de ensaio para práticas que podem ser exportadas a outros países da região. “Alguns defensores apontamos que o Equador está sendo parte de um exercício político para criar uma prática que poderá ser ensaiada em outras regiões”, diz.
Outro ponto grave levantado por Navarrete é a presença de forças norte-americanas em território equatoriano, apesar das restrições constitucionais à instalação de forças estrangeiras no país. “Os marines circulam pelo Equador. Estive ontem em Manta [cidade que possui o maior porto do país] e vimos presença norte-americana uniformizada e armada. Isso não ocorria desde o início dos anos 2000, no contexto do Plano Colômbia”, diz.
Navarrete também relata casos de embarcações de pescadores equatorianos seguidas por patrulhas norte-americanas e drones antes de serem afundadas. Segundo ele, ao menos três casos foram registrados neste ano. “A tripulação é obrigada a passar pela patrulha dos Estados Unidos, e essa patrulha torpedeia e afunda as embarcações”, afirma.
Para ele, a militarização decretada por Noboa desde janeiro de 2024, sob a figura de “conflito armado interno”, abriu caminho para graves violações de direitos humanos. Navarrete argumenta que as organizações criminosas apontadas pelo governo não preencheriam os requisitos do direito internacional humanitário para serem tratadas como forças combatentes, mas que a narrativa permitiu entregar aos militares autonomia excepcional na segurança interna.

“Desde janeiro de 2024, o governo usa a ideia de conflito armado interno para dizer aos militares: ‘Agora saiam para combater a delinquência.’ Esse empurrão dado pelo governo Noboa aos militares faz com que eles atuem de forma autônoma”, explica.
Ele também denuncia a tentativa de blindar militares contra responsabilização por abusos. A militarização funciona como blindagem, e retira a possibilidade de judicialização das ações dos militares. “Eles atuam com uma série de liberdades, incluindo o indulto antecipado. Diante de acusações de graves violações de direitos humanos, eles não poderiam ser judicializados”, aponta.
Navarrete afirma ainda que Noboa e integrantes de seu governo têm planos de fuga para os Estados Unidos ao fim do mandato para buscar proteção do governo Trump, numa comparação com Eduardo Bolsonaro e Ramagem. “Não temos dúvida de que ele irá, quando terminar seu mandato, para os Estados Unidos, onde gozará da proteção do governo norte-americano”, diz. Para o defensor de direitos humanos, essa proteção faria parte de uma estrutura mais ampla e histórica de acolhimento de agentes latino-americanos acusados de graves violações.
Na avaliação de Navarrete, o caso Monika é inseparável desse contexto. Ele não acusa diretamente Noboa de envolvimento no assassinato, mas afirma que o governo criou um clima de hostilidade contra defensores de direitos humanos. “Seria muito antecipado apontar essa relação direta. Mas, sem dúvida, há um contexto construído pelo governo Daniel Noboa no qual esse caso se torna significativo”, afirma. “Há um clima hostil. Ele constantemente ataca defensores e defensoras de direitos humanos no Equador.”
Ele conclui com um apelo: “Não deixem de olhar para nós. Não deixem de olhar para o Equador. É importante o acompanhamento regional do que está acontecendo conosco.”

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/exclusivo-advogado-do-caso-de-jornalista-morta-no-equador-apos-denunciar-noboa-alerta-o-brasil/

