Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno sob proteção da mídia

Flávio Bolsonaro. Foto: André Borges/EFE

Flávio Bolsonaro tem, no seu caderninho de créditos e débitos, dívidas que não precisa pagar com a velha direita, o centrão, a Faria Lima, o que ainda resta de liderança empresarial, chefes de igrejas neopentecostais e outros aliados naturalmente engajados à sua campanha.

Estes acompanham a extrema direita desde a ascensão do pai dele, em 2018. Mas Flávio precisa arranjar um jeito de pagar a dívida com um setor decisivo para que, quando estava com a forca no pescoço, diante da sequência de fatos que reforçavam o que é, fosse salvo para chegar forte ao segundo turno.

É mais do que a dívida com o sistema de Justiça, principalmente o Judiciário, que o protegeu das investigações sobre as rachadinhas. Que foi indiferente aos rolos com lavagem de dinheiro. Que nunca o denunciou como participante das estruturas negacionistas da pandemia.

Flávio tem com as corporações de mídia uma dívida semelhante à que a ditadura nunca pagou integralmente. As corporações naturalizaram o extremismo de Flávio, desde a sua escolha pelo pai. Tentaram criar, em todas as abordagens sobre a disputa eleitoral, falsas equivalências entre Lula e o bolsonarista.

Camuflaram informações que poderiam desagradá-lo e voltaram a caçar Lula, como fizeram na Lava-Jato, porque fracassaram na criação de uma terceira via. Globo, Folha e Estadão trataram Flávio Bolsonaro, a partir do momento em que não havia outra saída, quase como se fosse, como em eleições anteriores, um Fernando Henrique Cardoso, um Serra, um Alckmin ou um Aécio.

Não o enfeitaram como fizeram com os tucanos, mas o protegeram. Como a Globo fez ao cancelar o debate que poderia ser realizado sem Lula e sem o filho ungido. Na última hora, os Marinho afrouxaram a corda e Flávio saiu dando declarações de vítima de uma situação que ajudou a criar.

Flávio Bolsonaro não fez com que a mídia hegemônica se bolsonarizasse. Mas a subjugou, com a certeza de que ou era ele ou seria Lula de novo. Flávio foi para os jornalões o que o pai dele já havia sido em 2018.

É ingênuo afirmar, como alguns afirmam, que as corporações seriam agora bolsonaristas. Não. O que está claro, no mesmo nível dos que fogem de abordagens simplistas, é que as corporações passaram a aceitar Flávio como o inevitável.

Só ele poderia vencer Lula, e não qualquer outro que eles não conseguiram inventar entre Caiado, Zema e Cury, depois de terem tentado até Eduardo Leite. Mesmo assim, ninguém pode dizer que essas organizações viraram flavistas, até porque nunca seriam aceitas pelo chefe da família e por líderes neopentecostais que odeiam a Globo.

Sedes de Globo, Folha e Estadão
Caiado, Zema e Cury. Foto: Reprodução

Mas as organizações fizeram desta vez, com graduações, o que fazem desde o golpe de 64. Utilizaram-se dos personagens e das ferramentas que a extrema direita oferece para evitar qualquer governo que contrarie seus interesses.

Flávio deve a essas organizações os vazamentos seletivos, a omissão do não aprofundamento de informações sobre os rolos dele com Daniel Vorcaro, a proteção a ministros do Supremo ligados à direita, com pelo menos quatro deles envolvidos com o banqueiro. E o apoio dos jornalões à censura a quem divulgava nas redes sociais a possibilidade de perseguição religiosa à Nossa Senhora Aparecida.

Flávio foi tratado a pão de ló. É a dívida que talvez nem tenha como pagar. Foi protegido pelas corporações, de uma forma quase descarada, e conviveu aqui com uma situação que não existe na Argentina e nos Estados Unidos. Milei e Trump brigam com as corporações de mídia por terem seus interesses sistematicamente contrariados.

Aqui, Folha, Globo e Estadão nunca desafiaram a ira da família e das lideranças da extrema direita. Flávio Bolsonaro ameaça levar de volta o fascismo ao poder com o aval das grandes empresas que agem como golpistas desde 64 e agora desfrutam dos benefícios da democracia para trabalhar pelo bolsonarismo.

As corporações são protagonistas do risco da volta do fascismo ao poder. Venceram em 64, com as estruturas dos jornais O Globo, Folha e Estadão. Venceram em 2016 no golpe contra Dilma e em 2018 ao levarem Lula para o cárcere.

Querem voltar a vencer com o pior de todos os Bolsonaros. Flávio é filho de Jair e das estruturas políticas e sociais que geram essas aberrações no mundo todo. Não é cria de Folha, Globo e Estadão. Mas foi amamentado por todas, e com dedicação, desde o momento em que recebeu a unção do pai.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/filho-ungido-segundo-turno-protecao-corporacoes-midia/