Flávio Bolsonaro confessou nos EUA que induziu Trump a erro. Por Sara Vivacqua

Eduardo e Flávio Bolsonaro em audiência nos EUA sobre o tarifaço

Flávio Bolsonaro foi a Washington na terça-feira para depor como “testemunha” no âmbito da investigação conduzida pelas autoridades comerciais americanas, que devem decidir, no dia 15, se aplicarão tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

Na abertura, o órgão informou que a investigação havia sido iniciada por “direção específica do presidente” em 15 de julho de 2025, envolvendo comércio digital, serviços de pagamento eletrônico — Pix —, tarifas preferenciais, anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

Flávio foi tentar conter e redirecionar o curso de uma investigação cuja abertura ele próprio ajudou a incitar, em julho de 2025, dentro da articulação conduzida em Washington por dois foragidos da Justiça brasileira: Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Seguindo a orientação dessa articulação, Trump transformou o julgamento de Jair Messias Bolsonaro — golpista condenado — em instrumento de pressão tarifária contra o Brasil. Em carta pública, anunciou tarifa de 50% sobre importações brasileiras e vinculou explicitamente a medida ao suposto “tratamento injusto” dado pelo Judiciário brasileiro a Bolsonaro. Segundo o texto, as tarifas seriam introduzidas, entre outros motivos, por causa dos “ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”.

A confissão

Mas o detalhe que Flávio não calculou é que sua própria estupidez acabaria por denunciá-los. Ao tentar convencer as autoridades americanas, ficou claro que os Bolsonaros induziram o governo Trump a erro e o levaram a trabalhar contra o próprio interesse estratégico dos EUA na América Latina: reduzir a influência chinesa no hemisfério.

E Flávio acabou admitindo expressamente: “Os dados de 2025 mostram que essas tarifas não produziram os resultados pretendidos pelos Estados Unidos”, disse. “O próprio governo que essas medidas pretendiam pressionar ganhou força nas pesquisas, enquanto o comércio do Brasil com a China atingiu o recorde de 171 bilhões de dólares, mais que o dobro dos 83 bilhões com os Estados Unidos.” E o fecho, que caberia num comício petista: “cada tarifa adicional fortalece exatamente o governo que ela pretende pressionar”.

O tarifaço bolsonarista, na boca do próprio Flávio Bolsonaro, revela uma operação que deveria provar força, mas acabou expondo a incompetência estratégica de seus articuladores — e da própria Casa Branca.

A primeira premissa vendida a Washington pelos Bolsonaros era a de que a tarifa pressionaria Lula, descredibilizaria seu governo por meio de uma crise econômica e social e facilitaria a ascensão da ultradireita no ano da eleição presidencial. Era, portanto, um pedido explicitamente eleitoral e de ingerência política, atendido pela Casa Branca.

Mas agora, o desespero fez o próprio Flávio admitir o contrário diante das autoridades americanas.  A medida fortaleceu politicamente o governo brasileiro. Não é a oposição que está dizendo isso em Brasília. É o próprio líder da oposição dizendo isso dentro do prédio do USTR — o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, órgão da Casa Branca responsável por formular e coordenar a política comercial internacional americana.

O Pix, inicialmente apresentado pelos Bolsonaros como um problema comercial americano, levou o USTR a incluir comércio digital e serviços de pagamento eletrônico como eixo da investigação, sob a alegação de que determinadas práticas brasileiras nesse setor seriam irrazoáveis e restringiriam o comércio dos Estados Unidos. Mas Flávio, num giro de 180 graus, afirmou que o Pix foi criado no governo Bolsonaro, que não era um problema a ser corrigido, mas uma solução de inclusão financeira.

A segunda e a terceira premissas eram que a pressão americana disciplinaria o Brasil, isolando-o comercialmente do sistema dominado pelo dólar, e que a tarifa protegeria os Estados Unidos.

O resultado foi justamente o oposto do pretendido. O site South China Morning Post publicou uma matéria dizendo que a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu para 9,4% no primeiro semestre de 2026, o menor nível desde 1997, enquanto a fatia da China subiu para 31,5%. A China simplesmente absorveu exportações brasileiras deslocadas do mercado americano pelas tarifas.

Foi a partir dessas premissas que, em 30 de julho de 2025, a Casa Branca aderiu à avaliação dos Bolsonaro e publicou a ordem executiva declarando uma “emergência nacional” em relação ao Brasil. O texto acusava autoridades brasileiras de interferirem em empresas americanas, restringirem a liberdade de expressão e perseguirem politicamente Jair Bolsonaro. A ordem impôs tarifa adicional de 40% sobre certos produtos brasileiros.

As tarifas não disciplinaram o Brasil, expuseram a incompetência e falácia dos Bolsonaro, fortaleceram o discurso soberanista de Lula e empurraram o comércio brasileiro para a China. Nada mais indesejável.

Pedido eleitoral explícito

O aspecto mais grave da fala de Flávio Bolsonaro não está, entretanto, na admissão explicita de ter induzido por meio de informações falsas a ingerência estrangeira.

Do ponto de vista da soberania e da legalidade brasileira, Flávio comparece como senador, auto-intitulando-se “líder da oposição” e pré-candidato à Presidência da República em ano eleitoral, sob a rubrica de “testemunha/depoente”. Declara que se reuniu com Trump, Vance e Rubio para pedir que os EUA calibrem a pressão econômica contra o Brasil de acordo com o calendário eleitoral brasileiro.

Flávio não tem mandato executivo, não representa o Estado brasileiro em matéria tarifária, comercial ou diplomática, e não possui competência institucional para negociar, em nome do país, medidas econômicas estrangeiras contra o Brasil. Ainda assim, atua como uma espécie de governo paralelo — ou de presidente paralelo — ao pedir diretamente a autoridades americanas que suspendam ou adiem uma decisão de impacto nacional.

Ele diz a uma autoridade estrangeira que espere ou suspenda uma sanção econômica contra o Brasil porque há chance de troca de governo. Ele próprio reafirma a exigência de ingerência eleitoral estrangeira, requerendo apenas uma modulação. Ele diz:

“O Brasil realizará eleições presidenciais em outubro. Em apenas 90 dias, o cenário político do país será completamente diferente. Impor tarifas agora, que seriam difíceis de reverter, recompensa os responsáveis pelas ações em questão e pune aqueles que sofreram suas consequências. Seria o pior momento possível para agir. Peço respeitosamente a este Comitê: não imponham tarifas ao Brasil.”

E dobra a aposta: “Temos esperança de que o governo possa mudar a partir do próximo ano, a partir de janeiro do próximo ano; tudo pode mudar. O que posso dizer é que temos uma grande chance de ter um presidente que não seja antiamericano como o atual. Vocês poderiam esperar ou suspender essa decisão, pensando na nossa relação histórica entre Brasil e Estados Unidos.”

O episódio configura, no mínimo, aparência de ilícito eleitoral grave e deveria gerar investigação imediata pelo Ministério Público Eleitoral e pelo TSE. A Constituição brasileira protege a normalidade e a legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico e contra o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta. Esse é o fundamento constitucional das inelegibilidades e do controle dos abusos eleitorais. Flávio sequer teria mandato ou competência institucional para ir a Washington, nesses termos, negociar pressão econômica estrangeira contra o Brasil.

A Lei Complementar 64/1990 prevê a Ação de Investigação Judicial Eleitoral para apurar uso indevido, desvio ou abuso do poder econômico ou do poder de autoridade, bem como uso indevido dos meios de comunicação, em benefício de candidato ou partido. A própria Justiça Eleitoral descreve a AIJE como instrumento cabível para apurar abuso de poder econômico, abuso de poder político, abuso de autoridade e outras práticas com impacto na normalidade do pleito.

A questão explosiva é que, aqui, não se trata apenas de abuso de poder interno. Trata-se de uma tentativa explícita de mobilizar poder econômico e estatal estrangeiro para interferir no ambiente eleitoral brasileiro.

É juridicamente difícil justificar que um fato dessa gravidade não seja apurado antes do registro de candidatura. O TSE não precisaria inventar uma teoria extravagante para agir. Bastaria aplicar a lógica mais elementar da Justiça Eleitoral: proteger a normalidade e a legitimidade da eleição contra abusos capazes de desequilibrar a disputa.

Onde está a investigação do TSE contra Flávio Bolsonaro? Diante de uma transcrição oficial em que um pré-candidato pede a autoridades estrangeiras que suspendam ou adiem uma sanção econômica contra o Brasil em razão do calendário eleitoral brasileiro, a pergunta inevitável é: por que a Justiça Eleitoral permanece inerte?

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/flavio-bolsonaro-confessou-nos-eua-que-induziu-trump-a-erro-por-sara-vivacqua/