Por Leonardo Sakamoto no Uol
Há declarações que, de tão sinceras, deveriam vir com tarja preta. A do presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, na audiência pública convocada para hoje pelo ministro Luiz Fix sobre a medida provisória que proibiu as apostas on-line, é uma delas.
Diante do STF, ele reconheceu que existe, sim, o drama das famílias endividadas e viciadas. Mas, segundo ele, haveria também o drama do desemprego na cadeia do futebol. E então propôs à Corte trocar a tradicional ponderação de princípios por uma “ponderação dos dramas”.
“O drama de uma família individual não pode ser maior do que o drama de uma família eu vai ter que sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer na cadeia do futebol”, disse. Sim, quando li isso, tive que chamar o VAR e correr para ver o vídeo, pois não estava acreditando nesse carrinho sem bola.
Antes de mais nada, bora lembrar que a família que tem um de seus membros endividado pelo jogo não apenas sofre com a perda do emprego, como adoece, desmancha casamento, tira o filho da escola particular, deixa de comprar o remédio e, no limite, comete suicídio. Na ludopatia, o drama do endividamento não concorre com o do desemprego, muitas vezes, ele o precede.
Para o dirigente, a mãe que penhorou a TV, o pai que gastou o aluguel no tigrinho e o jovem que vive com a angústia de quem deve a agiota formam uma espécie de custo operacional ou efeito colateral.
Matheus Montenegro, Presidente do Fluminense, diz que o DRAMA das famílias endividadas pelas Bets NÃO PODE ser MAIOR que o DESEMPREGO que seria GERADO nos clubes com a PROIBIÇÃO DAS BETS. https://t.co/Vq8XqkV09i
— UpdateCharts (@updatecharts) November 3, 2026
Não se ignora que muitas famílias vão sofrer o impacto com a proibição da jogatina on-line, uma vez que esportes, mídia e outros setores tornaram-se dependentes do fluxo de recursos. Mas se esses empregos dependem da pilhagem de um naco da população, não há o que fazer. Pois quando se aceita que gerar postos de trabalho justifica qualquer dano social, abre-se uma porteira por onde passa uma boiada inteira.
Acompanho há mais de duas décadas casos de trabalho escravo no Brasil. Sabe qual é um dos argumentos mais repetido pelos empregadores flagrados? Que a fiscalização vai quebrar a fazenda, a carvoaria ou a oficina de costura e deixar dezenas de famílias sem renda. O mesmo raciocínio aparece na boca de quem defende agrotóxico banido lá fora, desmatamento ilegal e garimpo em terra indígena. Sempre há um trabalhador sendo usado como escudo humano para proteger o lucro de alguém.
Agora, imagine um advogado do Comando Vermelho ou do Primeiro Comando da Capital lendo a transcrição da audiência. Porque, se o critério para tolerar uma atividade é o número de empregos que ela gera, a facção tem um currículo e tanto.
As facções criminosas têm frentista, camareira, motorista, contador, para além de fogueteiros, aviãozinhos, soldados, donos de boca… Tem uma cadeia produtiva inteira.
Fico imaginando a sustentação oral: “Excelência, ouvi muito se falar sobre o drama das famílias destruídas pelo crack. Ninguém nega. Mas existe também o drama do desemprego. O que será do soldado do tráfico ou do frentista do nosso posto se a nossa atividade for, de fato, combatida?” É uma hipérbole, mas também é a ponderação dos dramas aplicada com rigor.
Que fique claro: não estou dizendo que o dirigente tricolor tem qualquer relação com facção – sim, falta amor no mundo, mas também falta muita interpretação de texto. Nem comparando bets com tráfico — até porque é mais fácil se viciar com um celular na mão do que enfrentando a dificuldade de ser preso ao buscar pó na boca. Mas apontando que o argumento dele, levado a sério, serve para defender praticamente qualquer coisa.
E argumento que serve para defender qualquer coisa não serve para defender nada.
Os clubes têm motivos reais para se preocupar. Muitos amarraram o orçamento a contratos de patrocínio com casas de apostas. Mas essa dependência foi uma escolha de gestão. Clubes que hoje choram a perda de receita são os mesmos que estamparam marcas de bets na camisa usada por crianças e venderam a ideia de que apostar é uma extensão natural de torcer. Ou seja, que ajudaram a aprofundar o vício.
Quem paga a conta desse modelo não é o cartola, mas o torcedor que muitas vezes vive com orçamento apertado e vê na aposta uma ilusão de saída. É a família da periferia que, no fim do mês, descobre que o dinheiro da comida foi parar via Pix numa plataforma.
O futebol brasileiro tem todo o direito de lutar por sua sobrevivência financeira. Pode pedir ao governo ajuda para essa fase de detox. O que não pode é solicitar ao Supremo que coloque o sofrimento de milhões de famílias numa balança e declare que ele pesa menos que o balanço contábil de um clube.
E se não conseguirem dar um jeito, vale lembrar que o futebol é maior que os clubes e seus gestores e cartolas. E vai sobreviver.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/fluminense-argumento-bets-trafico/

