Por Leonardo Sakamoto, via UOL.
Um gestor chinês da fábrica da Midea em Pouso Alegre (MG) foi afastado após denúncias de agressão física a um trabalhador, incluindo a acusação de que ele teria sido chicoteado com uma borracha usada para vedação de geladeiras. A empresa chinesa de eletrodomésticos chama o caso de “incidente” e nega a chicotada.
A agressão ocorreu no dia 15 de junho e ganhou tração com a denúncia da vítima. Na terça (23), trabalhadores cruzaram os braços em protesto na unidade, que reúne cerca de 1.200 empregados. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos de Pouso Alegre, isso acabou sendo a gota d’água de uma série de reclamações de assédio moral e condições precárias. Prometeram greve caso medidas não fossem adotadas.
Uma reunião foi convocada pelo Ministério do Trabalho e Emprego com trabalhadores, sindicato e a direção da empresa. Carlos Calazans, que está à frente da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, contou ao UOL que exigiu o imediato afastamento do acusado até que a agressão fosse apurada. Também foi demandado que a vítima não sofra nenhuma retaliação.
Calazans chamou a situação de “inadmissível” e reforçou a esta coluna a gravidade que representa esse tipo de agressão, ainda mais diante da história de trabalho escravo no Brasil. Uma comissão com trabalhadores, sindicato, empresa e governo foi criada para acompanhar as investigações e discutir o cumprimento da legislação brasileira.
Na reunião, o sindicato reforçou denúncias de assédio e condições precárias de trabalho, o que incluiria limitação de acesso ao banheiro.

Em nota, a Midea Indústria do Brasil confirma que houve um “incidente envolvendo um gestor expatriado e um colaborador local, mas não nas dimensões noticiadas”. Afirma que não houve chicoteamento e que adotou medidas para preservar o respeito no ambiente de trabalho, mas que afastou o gestor envolvido. E refuta que as atividades da fábrica foram paralisadas.
“A Midea também reforçará iniciativas voltadas à integração intercultural, ao desenvolvimento de lideranças e à capacitação de profissionais expatriados que atuam no Brasil, com foco em comunicação, legislação trabalhista, práticas locais e conduta no ambiente de trabalho”, diz a nota.
O caso sobre desrespeito aos direitos trabalhistas envolvendo empresas chinesas que ganhou mais repercussão foi o do resgate de 163 operários chineses que atuavam nas obras da fábrica da BYD em Camaçari (BA). A operação foi revelada por esta coluna em dezembro de 2024.
Segundo a fiscalização, contratos analisados previam jornada de dez horas por dia, seis dias por semana, com possibilidade de extensão — o que levaria a uma jornada semanal de 60 a 70 horas, muito maior do que o limite legal no Brasil, de 44 horas. Foram constatadas condições degradantes nos alojamentos. Um deles contava com um único vaso sanitário para 31 trabalhadores. Segundo a fiscalização, muitos dormiam sem colchões. Também não havia armários: os alimentos se misturavam a roupas e pertences pessoais, criando um ambiente insalubre.
A empresa alegou que os trabalhadores eram de terceirizadas, o que não foi acatado pela Inspeção do Trabalho. A gigante chinesa dos automóveis elétricos foi inserida na “lista suja” do trabalho escravo do governo federal, o cadastro de empregadores responsabilizados por esse crime, no dia 6 de abril, mas conseguiu uma liminar da Justiça e foi retirada.
Após a inclusão, o secretário nacional de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi dispensado de suas funções no Ministério do Trabalho e Emprego. Auditores fiscais do trabalho alegaram interferência política do governo na decisão. O governo afirmou que a exoneração foi “ato administrativo de gestão, de prerrogativa do ministro de Estado”.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/gestor-da-midea-e-afastado-apos-denuncia-de-chicotear-trabalhador-em-mg/

