Homofobia, divórcio e perseguição política: estudo revela as causas de internações em manicômios

Pessoas em leito comum em manicômio. Foto: reprodução

Cartas, prontuários e acervos de antigos hospitais psiquiátricos brasileiros revelam histórias de mulheres, perseguidos políticos, imigrantes, pessoas em situação de rua e homossexuais internados sem diagnóstico clínico ao longo do século XX. Parte desses documentos ficou esquecida por décadas, sem acesso público, após o fechamento dos grandes manicômios com a reforma psiquiátrica.

Uma dessas histórias é a de Maria Helena, nome fictício usado a pedido do pesquisador ao Globo. Por volta de 1930, aos 40 anos, ela escrevia cartas no Sanatório Pinel, em São Paulo, para tentar provar que estava sã. Nos textos, afirmava ser vítima do marido, a quem acusava de tentar se livrar dela sem romper o casamento.

A unidade, criada em 1929 em Pirituba, era particular e atendia pacientes de alto poder aquisitivo. Com exceção da correspondência enviada ao médico, as demais cartas de Maria Helena nunca chegaram aos destinatários e acabaram anexadas ao prontuário.

“Muitas cartas entregues aos médicos acabavam tendo efeito contrário. Eram usadas como possíveis provas de doenças mentais”, explica Éder Mendes de Paula, professor de História da Universidade Federal de Jataí (UFJ) e integrante de uma turma de pós-doutorado da USP.

O trabalho acadêmico de Éder busca resgatar a memória de hospitais psiquiátricos e estudar a medicação usada na época. Segundo pesquisas em acervos de Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, documentos indicam internações sem diagnóstico de mulheres que haviam perdido a virgindade antes do casamento, mães solteiras, prostitutas, homossexuais, perseguidos políticos e pessoas consideradas “rebeldes” pelas famílias.

Homens no manicômio do Hospital de Barbacena em MG. Foto: reprodução

Em alguns manicômios, os estudos apontam que apenas 30% dos internos tinham problemas mentais. Em Goiânia, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás criaram o Museu Virtual da Saúde Mental, com acervo digitalizado do antigo Hospital Adauto Botelho.

A professora Larissa Arbués, coordenadora do museu e do projeto Memória da Saúde Mental em Goiás, afirma que a equipe busca agora preservar prontuários. “Estamos em busca de um local ideal para acomodar o material. Há conversas com o arquivo público do estado. A proposta é dar acesso às informações para a população do que é permitido pela legislação e aos prontuários a familiares e pesquisadores”, diz.

No Adauto Botelho, ficou internado o imigrante polonês Pawel Gutko, perseguido pela ditadura militar e diagnosticado com esquizofrenia paranoide. Pesquisas indicam que ele teria sido usado em uma trama para atingir o então governador de Goiás, Mauro Borges, opositor do regime.

No Rio de Janeiro, a Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi, chegou a ser o maior hospital psiquiátrico da América Latina. Além de pacientes com transtornos mentais, recebeu presos políticos, imigrantes e pessoas sem identificação, que permaneceram por décadas sem contato com familiares.

Outro caso emblemático é o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, comparado a um campo de concentração. Cerca de 60 mil pessoas morreram na unidade, onde 70% dos internos não tinham diagnóstico clínico. O acervo do Museu da Loucura reúne documentos, fotos, instrumentos cirúrgicos e objetos de pacientes.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/homofobia-divorcio-e-perseguicao-politica-estudo-revela-as-causas-de-internacoes-em-manicomios/