Michel Kuka Muladinga, torcedor que ganhou notoriedade internacional durante a última Copa Africana de Nações, não conseguiu acompanhar a estreia histórica da seleção da República Democrática do Congo na Copa do Mundo de 2026, que empatou com Portugal de Cristiano Ronaldo em um gol na tarde desta quarta-feira (17).
Conhecido por permanecer imóvel nas arquibancadas reproduzindo a postura da estátua de Patrice Lumumba, uma das figuras mais importantes da história congolesa, ele acabou impedido de integrar a delegação a tempo devido aos protocolos sanitários relacionados ao surto de ebola no país.
Aos 49 anos, Muladinga se tornou uma das imagens mais marcantes da campanha congolesa na Copa Africana disputada no Marrocos. Vestido com terno e mantendo o braço erguido durante toda a partida, ele chamou atenção de torcedores e da imprensa internacional. A homenagem reproduz a pose da estátua de Patrice Lumumba em Kinshasa, capital do país.
Lumumba é considerado um dos principais símbolos da independência da República Democrática do Congo. Em 1960, liderou o país nos primeiros meses após o fim do domínio colonial belga. Com forte discurso contra o racismo e o colonialismo, tornou-se primeiro-ministro, mas permaneceu no cargo por pouco tempo.
Ainda naquele ano, Lumumba foi deposto, preso e morto aos 35 anos. Segundo registros históricos citados na reportagem original, o assassinato teve participação da Bélgica e apoio dos Estados Unidos em meio às disputas geopolíticas da Guerra Fria. Seu corpo nunca foi encontrado.
A repercussão das aparições de Muladinga transformou o torcedor em um personagem nacional. O retorno da seleção congolesa à Copa do Mundo após 52 anos ampliou ainda mais sua popularidade, levando a própria equipe a defender sua presença junto à delegação que viajou para os Estados Unidos.

No entanto, o avanço do ebola na República Democrática do Congo alterou os planos. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam mais de 800 casos e 192 mortes associadas à doença. Diante do cenário, autoridades norte-americanas adotaram medidas sanitárias específicas para a entrada de viajantes procedentes do país africano.
As restrições também afetaram torcedores congoleses que haviam adquirido ingressos para acompanhar os jogos do Mundial. Segundo informações divulgadas pela AFP, muitos não receberam autorização para viajar aos Estados Unidos. A própria delegação da seleção precisou cumprir um período de isolamento de 21 dias em uma “bolha sanitária” na Bélgica antes de desembarcar em Houston.
Muladinga, porém, não chegou a tempo de cumprir todas as exigências estabelecidas pelas autoridades sanitárias. Por esse motivo, ficou fora da partida contra Portugal. A expectativa divulgada pelo portal congolês Actualité é que ele consiga estar presente no confronto contra a Colômbia, marcado para o dia 24.
“Os jogadores o adoram muito. Mboladinga é um símbolo nacional de resiliência e orgulho”, afirmou ao The Wall Street Journal o presidente da Federação Congolesa de Futebol, Véron Mosengo-Omba. O dirigente destacou a importância simbólica do torcedor para a equipe.
Para manter a homenagem a Lumumba durante as partidas, Muladinga revelou que treina diariamente. “Permaneço imóvel porque acredito que isso dá à equipe resistência emocional”, disse ao jornal americano. “Assim como Lumumba sacrificou sua vida pelo nosso país, a minha é um pequeno preço a pagar pela profunda preocupação que tenho com esta equipe.”
A projeção internacional também trouxe novos compromissos ao torcedor, que antes atuava como animador do AS Vita, clube da primeira divisão congolesa. Desde a Copa Africana, ele passou a participar de campanhas publicitárias para empresas como a Tecno Mobile e a Orange. Além disso, recebeu um jipe de presente do presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/icone-da-torcida-do-congo-fica-fora-da-estreia-da-copa-apos-veto-dos-eua/
