A confusão provocada pela prorrogação do segundo turno da eleição presidencial brasileira, neste domingo (25), trouxe à memória a disputa entre George W. Bush e Al Gore nos Estados Unidos, em 2000. Na ocasião, divergências sobre a contagem de votos na Flórida levaram a eleição americana à Suprema Corte. No Brasil, a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de ampliar a votação até as 19h encontrou seções eleitorais já encerradas e votos em processo de totalização.
O impasse brasileiro começou após denúncias de problemas no transporte público que teriam dificultado o deslocamento de eleitores. A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) solicitou a ampliação do horário de votação, enquanto a equipe de Flávio Bolsonaro (PL) também pediu a medida para municípios de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul afetados pelas chuvas. Zanin determinou a prorrogação nacional por duas horas, mas a decisão chegou quando parte das urnas já havia sido fechada.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a iniciar a totalização dos votos e interrompeu o procedimento após a determinação do STF. Às 17h06, o sistema já registrava 1.225 seções contabilizadas, equivalentes a 0,25% do total nacional. Em Minas Gerais, a Justiça Eleitoral informou que urnas eletrônicas encerradas não poderiam ser tecnicamente reabertas. A situação provocou dúvidas sobre o tratamento dos eleitores que ainda não haviam conseguido votar nas seções fechadas.
O precedente americano: 537 votos decidiram a eleição
Nos Estados Unidos, a eleição de 7 de novembro de 2000 colocou frente a frente o republicano George W. Bush, então governador do Texas, e o democrata Al Gore, vice-presidente de Bill Clinton. A disputa ficou concentrada na Flórida, onde a diferença entre os candidatos era tão pequena que provocou uma recontagem automática. Após semanas de recursos judiciais e questionamentos sobre cédulas eleitorais, o resultado certificado apontou uma vantagem de apenas 537 votos para Bush.
O problema americano envolvia principalmente cédulas perfuradas que não haviam sido corretamente identificadas pelas máquinas de contagem. Também surgiram questionamentos sobre votos descartados e diferenças nos critérios utilizados para interpretar a intenção dos eleitores. A Suprema Corte da Flórida determinou uma nova recontagem, mas a campanha republicana recorreu à Suprema Corte dos Estados Unidos, que suspendeu o procedimento em 9 de dezembro.
Em 12 de dezembro, por cinco votos a quatro quanto à possibilidade de prosseguir com a recontagem, a Suprema Corte americana decidiu que não havia tempo para estabelecer um procedimento constitucionalmente adequado antes do prazo legal. A decisão manteve o resultado certificado na Flórida e garantiu a vitória de Bush, que conquistou 271 votos no Colégio Eleitoral, contra 266 de Gore, apesar de ter recebido menos votos populares em todo o país.

O que aproxima os episódios no Brasil e nos EUA
A principal semelhança entre as duas eleições está na intervenção dos tribunais superiores em procedimentos eleitorais que já estavam em andamento. Nos Estados Unidos, a Justiça interrompeu uma recontagem de votos. No Brasil, o STF determinou a ampliação do horário de votação quando algumas seções já haviam encerrado os trabalhos e iniciado a transmissão dos resultados. Nos dois casos, decisões judiciais afetaram procedimentos conduzidos pelas autoridades eleitorais.
Há, porém, diferenças importantes. A crise americana ocorreu após a votação e envolveu a definição do vencedor em um estado decisivo para o Colégio Eleitoral. No Brasil, o impasse surgiu antes da conclusão do segundo turno e estava relacionado à possibilidade de eleitores exercerem o direito ao voto. Enquanto a controvérsia nos Estados Unidos se prolongou por mais de um mês, a decisão brasileira foi tomada no próprio dia da eleição, com prazo de poucas horas para sua execução.
A atuação do TSE também passou a ser questionada diante da dificuldade de aplicar a determinação do STF em seções já encerradas. Mesários relataram dúvidas sobre os procedimentos, e tribunais regionais tiveram de lidar com urnas fechadas antes da comunicação da prorrogação. A divulgação dos resultados foi interrompida e retomada após as 19h, quando terminou o novo prazo estabelecido para a votação.
O episódio americano terminou com uma decisão judicial que definiu o resultado de uma eleição presidencial extremamente apertada. No Brasil, ainda não havia, naquele momento, uma decisão que alterasse o resultado da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. A comparação com Bush e Gore diz respeito à judicialização do processo eleitoral e aos problemas surgidos na execução de determinações judiciais, não à existência de uma disputa idêntica pela contagem dos votos.
A experiência americana também mostra como uma controvérsia sobre procedimentos eleitorais pode chegar à mais alta instância judicial. Em 2000, a Suprema Corte encerrou a recontagem na Flórida. Em 2026, o STF interveio para ampliar o período de votação no Brasil, enquanto o TSE precisou adaptar a operação eleitoral a uma decisão tomada depois do horário originalmente previsto para o fechamento das urnas.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lambanca-eleitoral-no-brasil-faz-lembrar-disputa-entre-bush-e-gore-nos-eua/

