Lavagem e poder público: por que empresas de ônibus atraem o PCC em São Paulo

Monumento de Duque de Caxias pixado com “PCC”. Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

A suspeita de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de ônibus de São Paulo não se explica apenas pela circulação de dinheiro nas catracas. A Operação Vectura Corrupta apura vínculos da facção com 12 das 22 empresas que operam na capital.

Ao g1, Ciro Biderman, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que empresas de ônibus oferecem condições particularmente úteis para quem pretende transformar recursos ilícitos em receitas formalizadas. O negócio exige grandes aportes, movimenta dinheiro diariamente e permite manter um fluxo recorrente de entradas e despesas.

O professor ressalta que o interesse não dependeria do pagamento em dinheiro vivo pelos passageiros. Com a expansão do Bilhete Único e de outros meios eletrônicos, esse fator perdeu importância. O ponto central seria a possibilidade de realizar grandes aplicações, incorporar recursos à contabilidade de uma empresa formal e manter liquidez constante por meio de uma operação econômica legítima.

Há ainda uma característica operacional. Apesar da complexidade do transporte coletivo, Biderman avalia que o setor exige menos conhecimento técnico especializado que áreas como saneamento ou rodovias. Uma empresa de ônibus precisa adquirir frota, combustível e mão de obra, criando despesas e receitas permanentes capazes de sustentar uma estrutura financeira de grande porte.

ônibus
Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Outro elemento é a relação inevitável com o Estado. Empresas de transporte dependem de concessões ou permissões, fiscalização, regras tarifárias e mecanismos públicos de remuneração. Isso cria contato regular com agentes responsáveis por contratos, pagamentos e decisões administrativas. O Ministério Público sustenta que 12 das 22 empresas do sistema estariam, em tese, sob influência ou controle ligado ao PCC.

A escala ajuda a dimensionar a investigação. As 12 empresas citadas operam 510 linhas, equivalentes a 38% da rede municipal. Em agosto, transportaram 72,9 milhões de passageiros, aproximadamente 41% dos 177,9 milhões de embarques registrados no sistema de ônibus da capital. O caso também alcançou personagens do poder público: o ex-vereador Milton Leite se entregou à polícia nesta sexta-feira após ser alvo de prisão temporária.

A explicação apresentada pelo especialista descreve por que o setor pode ser atraente para uma organização criminosa; não demonstra, isoladamente, que cada empresa investigada tenha sido usada dessa maneira. As suspeitas de controle, lavagem de dinheiro e influência sobre agentes públicos continuam sob investigação e precisam ser atribuídas às autoridades responsáveis pela operação.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lavagem-e-poder-publico-por-que-empresas-de-onibus-atraem-o-pcc-em-sao-paulo/