Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Dois acidentes envolvendo veículos da marca de luxo Porsche novamente terminaram em morte neste final de semana em São Paulo. Na madrugada de sábado, um estudante de medicina e uma passageira morreram após seu Porsche Cayman bater em uma árvore e pegar fogo em uma rodovia entre Campinas e Valinhos. Ontem, outro veículo ficou irreconhecível após bater em uma mureta da Rodovia dos Imigrantes, em São Bernardo do Campo. O motorista morreu.
Desde o início de 2024, o Brasil registrou uma sequência alarmante de acidentes de trânsito graves envolvendo veículos da marca. O primeiro caso a ganhar a mídia, em março daquele ano, foi o do empresário Fernando Sastre Filho, que bateu seu Porsche Carrera GTS em um Renault Sandero dirigido por Ornaldo da Silva Viana, motorista de aplicativo, que morreu no local. Sastre deixou a cena do acidente com a ajuda da mãe, sem fazer o teste do bafômetro, na zona leste de São Paulo. Após comoção nacional, ele foi preso.
Há uma série de elementos em comum, mostrando um padrão nessas tragédias. O excesso de velocidade está sempre presente — no caso acima, o piloto wannabe estava a 156 km/h em uma via de 50 km/h. A grande maioria das batidas ocorreu no escuro e nos finais de semana, horários de bares e festas. Testemunhas vêm apontando que motoristas beberam álcool antes de dirigir, e investigações rastrearam a passagem deles por bares momentos antes dos acidentes.
Há também um padrão de fuga do local do crime, seja para evitar a prisão em flagrante, seja para impedir que o bafômetro cumpra sua função. Não foram raros os casos em que houve tentativa de usar a estrutura familiar ou o poder financeiro para burlar a lei imediatamente após a batida. E, com exceção dos acidentes em que os próprios ocupantes do Porsche foram as vítimas fatais, temos mortes de trabalhadores noturnos.
Motoristas de Porsche não detêm o monopólio de mortes, óbvio, que também ocorrem com veículos de outras marcas. Mas há elementos que fazem com que as mortes envolvendo esses veículos tenham outros fatores em comum.
O Porsche consolidou-se, na última década, como o símbolo máximo de ostentação e de projeção de status no Brasil, superando, em muitos círculos, marcas tradicionalmente associadas ao luxo, como Mercedes-Benz ou BMW, e de superesportivos mais caras, como Ferrari ou Lamborghini.
Houve uma mudança clara no perfil de quem consome a marca no país. O que antes era um veículo voltado para nichos de entusiastas puristas do automobilismo transformou-se em um atestado público de sucesso financeiro. Ela foi abraçada por diversos segmentos culturais, de novos-ricos e influenciadores digitais a empresários do mercado financeiro, jogadores de futebol e cantores de funk. Deixou de ser “luxo silencioso e exclusivo” para virar “troféu definitivo de ostentação”. Tipo: “Morram de inveja, eu cheguei lá”.
O bem de consumo virou gerador de engajamento, validação de sucesso e ferramenta de marketing pessoal em um contexto em que pouco importa o que você é ou sabe, mas aquilo que você tem. Isso sem contar que, em um país marcado por uma desigualdade pornográfica, desfilar com um carro que pode custar milhões é uma demonstração de distinção de classe. Um “outdoor” ambulante de poder aquisitivo e privilégio.
Querem ostentar. Mas, infelizmente, alguns acabam produzindo morte ostentação — às vezes, a sua própria.
A posse de um veículo desse porte vem acompanhada de uma percepção de intocabilidade. A blindagem financeira e familiar que frequentemente tenta proteger esses motoristas após tragédias reforça a imagem de que o Porsche não é apenas um carro de luxo, mas um passaporte para um mundo onde as regras comuns não se aplicam com o mesmo rigor.
E, para além das redes sociais, a publicidade e a mídia tradicional ajudam a botar esse sistema em marcha. Bens de altíssimo luxo não são vendidos por suas especificações técnicas, mas pela promessa de exclusividade e dominação.
Comerciais frequentemente mostram veículos acelerando em cidades desertas, o que é uma metáfora visual poderosa: o dono daquele carro não está sujeito ao trânsito, ao caos ou ao tempo da ralé. Ele domina o espaço. Ao mesmo tempo, o poderoso carro blindado de milhões é vendido como uma fortaleza móvel, isolando o proprietário de uma realidade social complexa. O produto promete blindagem não apenas contra a violência, mas contra o contato com o “outro”.
O problema é que versões do Porsche 911 (que nem são as mais potentes da marca) têm mais de 700 cavalos de potência. Dirigir uma máquina como essa é diferente de acelerar um carro comum, como um Uno ou um Kwid. O Jeep Renegade 1.3 Turbo Flex, por exemplo, gera 176 cavalos. Muita gente compra o Porsche e sai às ruas como se colocasse uma corrente de ouro no pescoço ou um relógio no pulso, sem saber conduzi-lo corretamente. A diferença é que um produto da Tiffany ou da Rolex usado de maneira errada não vai de zero a 100 km/h em 2,5 segundos nem pesa toneladas.
E, enquanto a publicidade cria o desejo de elevação social, parte da cobertura de veículos tradicionais de imprensa frequentemente atua para amortecer a queda quando esses indivíduos cometem crimes. Se um motorista de aplicativo é morto por um herdeiro a 150 km/h, não raro manchetes costumam usar termos como “tragédia” ou “acidente trágico”, removendo o dolo e a agência do agressor. O carro “perdeu o controle”, como se a máquina tivesse vontade própria.
Não é o Porsche que mata. É a cultura que vende potência sem responsabilidade e transforma bens de luxo em prova de superioridade. A “morte ostentação” não começa na batida. Começa no vídeo para as redes sociais, no aplauso ao excesso, na chave entregue a quem tem dinheiro para comprar centenas de cavalos, mas não tem preparo ou maturidade para controlá-los. Começa, sobretudo, na certeza de que certas pessoas podem acelerar acima da lei porque acreditam viver acima dela.
O carro é apenas o palco. Quem paga a conta, muitas vezes, é quem nunca teve dinheiro nem para entrar nessa festa.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/leonardo-sakamoto-porsche-simbolo-status-ostentacao-morte/

