Lula emerge mais forte após semana difícil, aponta análise

Lula durante caminhada em Juazeiro do Norte (CE), em 04/09/2026. Foto: Ricardo Stuckert/Lula Oficial (CC BY-SA 4.0)

Depois de uma semana extremamente dura para o presidente Lula, marcada por reveses em algumas pesquisas e pela dificuldade de encontrar um tom diante da crise no Supremo, o balanço de sexta é relativamente bom para o Planalto. O Datafolha divulgado hoje mantém o presidente na liderança do primeiro turno e lhe devolve uma vantagem numérica no segundo, com efeito psicológico importante para a campanha, para a militância e para toda a frente democrática e popular que o sustenta.

Foi um alívio. E justamente por isso o maior erro da campanha de Lula, daqui para a frente, será relaxar e achar que está tudo bem porque o presidente aparece 2 pontos à frente de Flávio Bolsonaro no segundo turno.

Dois pontos são empate. Assim como não devemos ficar aflitos quando Flávio surge 1 ou 2 pontos na frente em alguma pesquisa, tampouco podemos ficar tranquilos quando Lula aparece com a mesma vantagem, porque estatisticamente é idêntico.

Na minha humilde opinião, a direção da campanha está errada. Ela não aponta para o futuro e não trabalha para oferecer ao eleitor a expectativa de algo novo.

A tese de sistema contra antissistema, e a ideia de que a esquerda defende as instituições enquanto a direita as ataca, me parece uma tremenda besteira. O povo nunca foi e nunca será amigo de black blocs, mas gosta das instituições apenas na medida em que elas lhe oferecem coisas boas, o que é óbvio.

O problema da campanha, portanto, não passa pela defesa ou não das instituições, nem pela posição a favor ou contra o sistema. Está em oferecer o novo, ousado, e ao mesmo tempo óbvio: ferrovias e energia solar.

Conversei outro dia com uma pessoa da direção da campanha e saí apreensivo. Ouvi que também se queria defender o VLT e a ferrovia, mas que isso “não foi aprovado”.

Como assim não foi aprovado? O PT está tocando a maior obra de mobilidade urbana da América Latina, o VLT de Salvador, com dinheiro do governo Lula, e a direção da campanha acha que o governo não deve colocar trilhos como uma de suas bandeiras?

Além de não defender a ferrovia, o presidente vai esconder o que faz? Esconder uma obra dessas, na Bahia, em plena campanha, é desperdiçar o único argumento que a direita não tem como copiar, o de que a esquerda oferece, com ações concretas, expectactivas e sonhos de futuro.

Feito o alerta, vamos aos fatos. O maior susto da semana veio na terça-feira, 8 de setembro de 2026, quando o ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master no STF, afastou por liminar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de inteligência da corporação, Leandro Almada, atendendo a um pedido do partido Novo.

A Segunda Turma formou maioria em minutos, com Fux e Nunes Marques, até que Gilmar Mendes pediu vista. O país assistiu, a menos de um mês da eleição, a uma intervenção judicial sobre o comando da PF que a Advocacia-Geral da União classificou como invasão da competência exclusiva do presidente da República.

O elefante foi retirado da sala, felizmente, no dia seguinte. O presidente do Supremo, Edson Fachin, anulou tanto a liminar de Mendonça quanto a decisão de Flávio Dino que a havia revertido horas antes, manteve Andrei Rodrigues no cargo e convocou sessão extraordinária do plenário para a terça-feira, 15 de setembro de 2026.

Haverá novos embates na semana que vem, mas a natureza da briga mudou. O que se anuncia agora é um duelo entre ministros, Mendonça de um lado e Alexandre de Moraes do outro, sem envolver tanto o governo e sem tocar na estrutura da polícia que investiga o próprio banco de Daniel Vorcaro.

É nesse cenário que chega o Datafolha desta sexta-feira. No primeiro turno, Lula tem 39% das intenções de voto, contra 35% de Flávio Bolsonaro, numa pesquisa em que os dois subiram, o presidente em 1 ponto e o senador em 2, em relação ao levantamento de 3 de setembro de 2026.

Augusto Cury caiu de 8% para 6%. Ronaldo Caiado tem 4%, Renan Santos 3% e Romeu Zema 2%, enquanto brancos e nulos somam 6% e indecisos 4%.

Pela primeira vez neste ciclo, o instituto divulgou também os votos válidos. Nessa régua, que é a da urna, Lula chega a 43% e Flávio a 38%, uma distância de 5 pontos que o próprio Datafolha descreve como vantagem provável do petista, ainda que nos limites da margem de erro.

No segundo turno, o quadro é de empate técnico com o presidente à frente. Lula tem 46% e Flávio 44%, os mesmos números de 3 de setembro de 2026, com brancos e nulos recuando de 9% para 8% e os indecisos de 2% para 1%.

O senador não avança nem quando o eleitorado se decide. Em 18 de agosto de 2026 o placar era 47 a 43, e desde então Flávio ganhou 1 ponto e parou.

Gráfico

Gráfico do 2º turno Datafolha 2026, Lula 46% x Flávio Bolsonaro 44% em 11/09/2026

Intenção de voto no 2º turno, Lula x Flávio Bolsonaro, Datafolha de 18/08, 01/09 e 11/09 de 2026. Elaboração: O Cafezinho

Nos outros cenários de segundo turno, o presidente vence todos os adversários testados. Ele faz 46% contra 41% de Caiado, 48% contra 39% de Zema, 48% contra 37% de Renan Santos e 45% contra 43% de Cury, que pela primeira vez foi incluído numa simulação de segundo turno pelo instituto.

Na pesquisa espontânea, aquela em que nenhum nome é apresentado ao eleitor, Lula subiu de 31% para 33% e Flávio de 22% para 25%. A rejeição permanece empatada, com 46% dizendo que não votariam de jeito nenhum em cada um dos dois, num movimento em que o senador cedeu 1 ponto e o presidente ganhou 1.

A notícia mais importante da pesquisa, porém, está na aprovação do governo. Ela subiu 2 pontos em uma semana, de 45% para 47%, enquanto a desaprovação recuou de 51% para 50% e os que não sabem avaliar caíram de 4% para 3%.

Para um presidente que tenta a reeleição, esse é o fator decisivo, mais do que qualquer cenário de voto. Uma alta de 2 pontos parece pequena, mas indica um movimento do eleitorado na direção de Lula justamente na semana em que tudo conspirava contra ele.

Na avaliação qualitativa, os que consideram o governo ótimo ou bom passaram de 31% para 32%, os que o julgam ruim ou péssimo seguem em 42% e os que o veem como regular permanecem em 25%. A diferença entre desaprovação e aprovação, que era de 6 pontos em 3 de setembro de 2026, encolheu para 3.

Um patamar de 47% de aprovação basta para ganhar uma eleição. Quem desaprova um governo nem sempre vai às urnas para puni-lo, ao passo que quem aprova tende a comparecer e a votar pela continuidade.

Por isso esse índice costuma andar colado ao voto do candidato no segundo turno, e às vezes até no primeiro. Os 47% de hoje ficam a apenas 1 ponto dos 46% que o Datafolha atribui a Lula contra Flávio.

O levantamento ouviu 2.002 pessoas de 16 anos ou mais, presencialmente, entre 8 e 10 de setembro de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais e 95% de confiança. Registrada no TSE sob o número BR-01833/2026, a pesquisa custou R$ 307.641,60, pagos pela Empresa Folha da Manhã, que edita a Folha de S.Paulo, e pela Globo Comunicação e Participações.

A semana terminou melhor para o presidente também porque o eixo do escândalo se deslocou. Ao levantar parcialmente o sigilo dos autos da Operação Compliance Zero, por cobrança pública de Lula e ordem de Fachin, o STF transformou em documento oficial o que até então circulava por vazamentos sorrateiros e seletivos para a imprensa.

Agora os dados são públicos. Os relatórios da Polícia Federal mostram que Flávio Bolsonaro é formalmente investigado desde julho de 2026 no inquérito sobre o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Segundo despacho do próprio Mendonça, o senador negociou diretamente com Vorcaro um repasse de US$ 24 milhões para a produção e fez, nas palavras do relator, cobranças incisivas pela liberação do dinheiro. Outro relatório da PF, com sigilo derrubado na noite desta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, descreve pagamentos mensais de R$ 500 mil do banqueiro a um ex-chefe de supervisão do Banco Central.

O mais assustador está numa decisão de Mendonça de 2 de março de 2026. Ali o ministro foi obrigado a admitir que o Banco Master movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio para uma empresa suspeita de lavar dinheiro do PCC, como O Cafezinho mostrou nesta sexta em reportagem sobre os documentos liberados pelo STF.

Em outras palavras, o dinheiro que irrigou o banco de Vorcaro tem, segundo a PF, uma ponta no crime organizado e outra nos fundos de previdência de servidores. E é desse mesmo banco que saiu o financiamento cobrado pelo candidato da direita para o filme sobre o pai.

Lula chega à semana decisiva antes do primeiro turno com a liderança preservada, a aprovação em alta e o adversário obrigado a explicar, com documentos públicos, sua relação com os esquemas criminosos do Banco Master. A campanha ainda precisa achar o tom, mas a semana que parecia perdida terminou com o presidente mais forte.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lula-emerge-mais-forte-de-uma-semana-dificil-miguel-do-rosario/