Lula, esquerda e direita

Presidente Lula. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Eu nunca fui esquerdista. Eu era um dirigente sindical que tinha uma belíssima relação com o sindicalismo alemão, uma relação muito forte, uma relação boa com o sindicalismo italiano e uma relação boa com a UGT [União Geral dos Trabalhadores] da Espanha”, disse Lula à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e ao chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o encontro do G7 na França.

Lula pintou um breve retrato pessoal, fiel à própria história, com uma sutil cutucada naqueles que usam a designação “esquerdista” em tom pejorativo. Além disso, ao dizer que nunca foi “esquerdista” o presidente não se dissocia dos valores defendidos secularmente pela esquerda global, mas sim de dogmas que foram ficando pelo caminho no decurso do tempo. Esse é o entendimento natural da fala do estadista brasileiro, distorcido pela má-fé de certos jornalões.

A leitura do que é ser de esquerda ou de direita no Século XXI não pode desprezar princípios marxistas, mas, de modo ideal, não os deve transpor literalmente para os dias atuais. O que não pode ser ignorado, em hipótese alguma, é que a dicotomia esquerda-direita persiste com solar clareza. E que o trato do termo “igualdade” é o fulcro da díade.

Norberto Bobbio, jusfilósofo italiano admirado pela esquerda e pela direita moderadas e questionado pela esquerda e a direita radicais, morto em 2004, escreveu com propriedade sobre as diferenças entre umas e outras nos tempos atuais. Dentre as considerações presentes no livro “Esquerda e Direita: Razões e Significados de Uma Distinção Política”, de 1994, a principal é: esquerda e direita continuam a existir e suas diferenças são nítidas.

Assim escreveu Bobbio: “Certas uniões ou alianças, que nas relações internacionais e nas relações entre partidos no interior de um Estado singular parecem inaturais, são na realidade consequências naturais da lógica dicotômica. Nas relações humanas, o exemplo extremo de antítese é constituído pela guerra; mas a lógica dicotômica, por outro lado, não é estranha à própria visão tradicional, religiosa ou metafísica, inclusive do mundo natural [luz-trevas, ordem-caos e, no limite, Deus-demônio]”.

Ao dizer que “nunca foi esquerdista”, Lula provoca a plateia a atentar para a lógica dicotômica de Bobbio. Enquanto existirem conflitos, nos ensina o jusfilósofo, a visão dicotômica não desaparecerá, “mesmo se, com o passar do tempo e a modificação das circunstâncias, a antítese até então principal vier a se tornar secundária e vice-versa”.

Atualmente, é certo que o critério definidor do que é ser de esquerda ou de direita reside na maneira como uns e outros lidam com o tema da desigualdade – ou “das desigualdades”. Escreve Bobbio: “As desigualdades naturais existem e se algumas delas podem ser corrigidas, a maior parte não pode ser eliminada. As desigualdades sociais também existem e se algumas delas podem ser corrigidas e mesmo eliminadas, muitas – sobretudo aquelas pelas quais os próprios indivíduos são responsáveis – podem ser apenas desencorajadas. (…) É preciso admitir que o status de uma desigualdade natural ou de uma desigualdade social derivada do nascimento em uma família e não em outra, em uma região do mundo e não em outra, é diferente do status de uma desigualdade que depende de capacidades diversas, da diversidade dos fins a serem alcançados, da diferença de empenho empreendido para tanto. E a diversidade do status não pode deixar de ter influência sobre o tratamento dado a uns e a outros por parte dos poderes públicos”.

Este é o busílis da esquerda, em perfeita sintonia com o modelo de nação buscado, com unhas e dentes, por Luiz Inácio Lula da Silva: a maior parte das desigualdades que indignam os indivíduos é de origem social e, portanto, é eliminável. Por ser uma pessoa de esquerda, anda que livre do pejorativo “esquerdismo”, Lula é o radical oposto daqueles que, por se situarem no lado direito do espectro político, nutrem a convicção de que as desigualdades são exclusivamente naturais e, por isso, não-elimináveis.

As políticas públicas implantadas pelos governos de Lula seriam suficientes para posicionar o petista, sem questionamento, na banda esquerda da régua ideológica. A ampliação do acesso a saúde, educação e trabalho, sempre amparado em direitos constitucionais, aliada ao equilíbrio tributário – está aí a isenção do Imposto de Renda a quem ganha até 5 mil reais mensais – e a iniciativas assistenciais inclusivas como o Bolsa Família, colocam um número cada vez maior de cidadãos em condições de serem menos desiguais em comparação com os mais afortunados por nascimento. Coisa de “esquerdista”.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lula-esquerda-e-direita/