Mais de 80 nomes da indústria cinematográfica divulgaram nesta terça-feira (17/02) uma carta aberta criticando o que chamaram de “silêncio institucional” do Festival de Cinema de Berlim diante do genocídio em Gaza. Entre os signatários estão atores vencedores do Oscar como o espanhol Javier Bardem e a escocesa Tilda Swinton.
O documento afirma que os artistas estão consternados com a postura do festival e desapontados com seu “envolvimento na censura de artistas que se opõem ao genocídio em curso cometido por Israel contra palestinos em Gaza”.
O texto foi articulado pelo coletivo Film Workers for Palestine. A manifestação veio após declarações do presidente do júri da Berlinale, o diretor alemão Wim Wenders, que ao ser questionado sobre a posição do governo alemão no conflito afirmou que o cinema deveria permanecer “fora da política”.
“Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o contrapeso da política”, disse ele na última quinta-feira. Entre os diretores que assinam a carta estão o britânico Mike Leigh, o americano Adam McKay e o brasileiro Fernando Meirelles. Muitos dos signatários já exibiram obras no festival.
Swinton, inclusive, recebeu em 2025 o Urso de Ouro Honorário, prêmio que celebrou sua trajetória. Os autores da carta dizem “discordar veementemente” das falas de Wenders e sustentam que cinema e política são inseparáveis.

“Assim como o festival fez declarações claras no passado sobre atrocidades cometidas contra pessoas no Irã e na Ucrânia, pedimos que a Berlinale cumpra seu dever moral e declare claramente sua oposição ao genocídio de Israel”, afirma o texto.
O documento também critica “o papel central do Estado alemão em permitir” as ações de Israel e pede que o festival declare oposição “ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra cometidos por Israel contra os palestinos” e encerre qualquer envolvimento que, segundo os signatários, proteja Israel de críticas e de pedidos de responsabilização.
O Festival Internacional de Cinema de Berlim é conhecida por seu perfil político, e sua programação costuma abordar temas sensíveis. Na abertura desta edição, artistas usaram o tapete vermelho para defender o fim do regime no Irã.
Após as críticas às declarações de Wenders, a diretora da 76ª Berlinale, Tricia Tuttle, divulgou nota afirmando que artistas “são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão da forma que desejarem” e que não devem “ser obrigados a se pronunciar sobre toda questão política que lhes seja apresentada, a menos que queiram”.
O festival publicou ainda outro comunicado em defesa de Wenders, mencionando uma “tempestade midiática” e alegando que suas palavras teriam sido retiradas de contexto. A produtora Ewa Puszczynska, também integrante do júri, declarou que seria “um pouco injusto” esperar que eles assumissem uma posição direta sobre Gaza. As falas provocaram reações adicionais.
A escritora indiana Arundhati Roy cancelou participação prevista no evento, afirmando estar “chocada e enojada” com os comentários dos jurados. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o diretor brasileiro Karim Aïnouz, que concorre ao Urso de Ouro com Rosebush Pruning, declarou que “fazer cinema sempre foi um ato político” e avaliou que Wenders foi “infeliz” em sua colocação.
A documentarista Eliza Capai, que disputa o prêmio de melhor documentário, também afirmou ao jornal que “fazer cinema é fazer política”. Em 2024, o prêmio de documentário da Berlinale foi concedido a “No Other Land”, que retrata o deslocamento de comunidades palestinas na Cisjordânia ocupada. Na ocasião, autoridades alemãs criticaram declarações consideradas “parciais” feitas por diretores durante a cerimônia.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/mais-de-80-cineastas-acusam-berlinale-de-silencio-institucional-sobre-gaza/

