No debate recente sobre o pluralismo nas universidades vemos, por vezes, se defrontarem duas posições polares, mas que partem, ambas, de uma mesma compreensão equivocada da ciência e, em particular, das ciências humanas.
A militância identitária entende que o critério da legitimidade científica é a adesão a seus valores políticos. Assim, a verdade da ciência é definida de fora, pelo alinhamento ou não aos slogans do momento. Testemunho, ficção, delírio, impostura, tudo é aceito, desde que gabarite no teste de adequação ao bem-pensar do “perfeitos”. Pior ainda, uma pesquisa, para ser validada, deve assumir de antemão o discurso que se tornou consensual nos círculos progressistas – e, portanto, achados que sejam inconvenientes precisam ser descartados de antemão.
É uma visão tosca, incapaz de operar a dialética entre valores e ciência, que assume que a única alternativa à “neutralidade axiológica” conservadora é o apagamento da fronteira entre pesquisa científica e proselitismo político. E é um obstáculo ao enfrentamento dos problemas presentes, já que, em vez de vermos a realidade tal como ela é, nos apegamos a mentiras consoladoras.
Defensores do pluralismo dizem o contrário, mas muitas vezes parecem partir do mesmo pressuposto. Devemos abrigar na universidade muitas posições vinculadas a valores políticos divergentes, como se isso fosse um objetivo em si mesmo. Mais uma vez, a ciência não parece ter critérios autônomos de discriminação da validade dos discursos.
Isso fica patente quando, aliás em polêmica dirigida especificamente contra mim, se diz que dar prioridade aos melhores argumentos científicos equivale a “meritocracia”. Seria incoerente, assim, dizer que uma visão meritocrática da sociedade é empiricamente incorreta e desprovida de valor heurístico, logo pode ser descartada no debate científico, e defender rigor na ciência.
Mas a crítica a meritocracia não significa negar que existem critérios de definição de melhor e de pior! Se fosse assim, eu, como um “antimeritocrático”, não poderia dizer que um prato de comida está mais gostoso ou é mais nutritivo que outro, que um time de futebol jogas melhor ou pior que seus adversários, que fulana dirige bem e que beltrano dirige mal, que eu gosto de um filme mas não de outro.
Não é isso, obviamente. A crítica é à ideia de que o mérito no resultado alcançado define as pessoas numa escala de dignidade – e que a sociedade deveria ser assim hierarquizada, com aqueles julgados superiores desfrutando de privilégios em relação às outras pessoas. Como corolário, este raciocínio leva à ideia, incorreta não apenas moral, mas sobretudo empiricamente, de que as desigualdades presentes na sociedade seriam explicadas não pelas injustiças nas estruturas sociais, mas por pretensas diferenças inatas de mérito entre as pessoas.

A leitura de que não podemos separar bom e ruim, melhor e pior, é bizarra, denotando uma incompreensão gritante da crítica à meritocracia. Mas é sobretudo uma posição que, tanto quanto a dos identitários, opera com base no relativismo científico mais extremo: nega à ciência a capacidade de discriminação dos discursos por critérios próprios.
Mas será que nós devemos mesmo lamentar a ausência de criacionistas bíblicos nos cursos de biologia, porque representaria uma redução do pluralismo de perspectivas? A ausência de defensores do lamarckismo, do éter luminífero, do flogisto, da Terra jovem, do geocentrismo, do terraplanismo?
Ou então devemos abrir os cursos de medicina para quem acredita em chacras, em cura pela oração, em homeopatia? Um negacionista do holocausto ou da ditadura militar precisa ter lugar no curso de história? Um defensor das teorias raciais do Conde de Gobineau nos cursos de antropologia ou sociologia?
Tudo isso já foi rejeitado – pela ciência, não por ideologia. Então, vamos colocar os pontos nos ii, diante destas vozes que clamam por mais direitistas na universidade.
Em primeiro lugar, não é verdade que eles estejam ausentes. Em muitas áreas das humanidades, visões conservadoras certamente são majoritárias. Economia, Direito, Ciência Política e sua subárea de Relações Internacionais são exemplos. Em cada uma delas, os modelos predominantes, ensinados pelos professores, operados pelos pesquisadores e aprendidos pelos alunos são individualistas, estáticos, desistoricizantes. A presença do marxismo, do feminismo materialista e de outras perspectivas críticas é rala, no máximo acomodada às margens.
Eu mesmo já tive, várias vezes, artigos recusados para publicação e pedidos de financiamento de pesquisa negados por usar referencial marxista ou por chamar o golpe de 2016 de golpe. Não é ilação minha: estava dito com todas as letras nos pareceres. De certa maneira, fiquei isolado na minha disciplina, espremido entre as visões institucionalistas que sempre predominaram e o identitarismo de corte neoliberal que ocupou o espaço da “alternativa” (e que, no frigir dos ovos, se mostra igualmente conservador). Que tipo de dominação da esquerda é essa, em que posições de esquerda são vetadas?
Claro que se eu me guio pelo metro ideológico do falecido Olavo de Carvalho, para quem o governo de Fernando Henrique Cardoso era comunista e qualquer coisa depois da Idade Média é uma abominação marxista, aí sim, a direita está fora da universidade. Mas não é verdade. Muito do que é ensinado se alinha objetivamente a visões conservadoras do ser humano e da sociedade.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/meritocracia-pluralismo-e-ciencia-por-luis-felipe-miguel/

