O projeto do professor Vitor Cei, bacharel em Jornalismo e Filosofia, mestre em Letras e doutor em Estudos Literários, docente da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e autor dos livros “Metafísica de Carrasco” (Catraia, 2026) e “A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis”, entre outros, sobre o “cristofascismo bolsonarista” passou a repercutir nas redes sociais e em sites de notícias após o afastamento do docente da Ufes, com financiamento estadual, para dedicação à pesquisa.
O caso ganhou novo impulso depois de um vídeo do deputado federal Evair de Melo (ES), no qual ele criticou o uso de recursos públicos no estudo e repudiou a expressão, que classificou como um “enfoque claramente ideológico” e “sem base científica”. Em meio às reações, o pesquisador escreveu o texto abaixo para o DCM.
Se você é uma pessoa sinceramente seguidora de Jesus Cristo e de seu evangelho do amor, não há razão para se ofender com a minha pesquisa sobre o “cristofascismo bolsonarista”, amplamente divulgada, polemizada e difamada em sites de notícias e redes sociais entre 26 e 27 de junho de 2026. Se você pratica o amor cristão e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,37-39), a descrição não se aplica a você, que certamente não foi uma das milhares de pessoas que, nos últimos dias, me desejaram o mal, desde a violência verbal até ameaças de violência física. Certamente, você também não concorda com o deputado federal que gravou um vídeo ameaçando tomar providências para cortar o único financiamento do meu trabalho. Afinal, Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5,44).
Se você é uma pessoa cristã, entendo o seu desconforto com o neologismo “Christofaschismus”, cunhado pela teóloga alemã Dorothee Sölle, pois ele pode soar como um oxímoro para quem compreende o cristianismo como ética do amor e da compaixão. Oxímoro, para quem não sabe, é a figura de linguagem que combina, em uma mesma expressão, palavras ou ideias aparentemente contraditórias, produzindo um efeito de tensão ou paradoxo. E aí reside a importância desse conceito crítico: explorar a tensão paradoxal que ocorre a partir da apropriação do cristianismo pelo fascismo, cujo resultado é uma perversão político-religiosa historicamente observável.

Um deputado federal, jornalistas e influenciadores digitais informaram que “cristofascismo” não é um conceito jurídico nem uma classificação oficial. A palavra também não integra os principais dicionários da língua portuguesa e circula principalmente em estudos acadêmicos sobre religião e política. Eles estão corretos em relação a isso, mas estão equivocados quando creem que a falta de registro em dicionários elimina a credibilidade da pesquisa.
Saiba que palavras do vocabulário científico da física e da química, como, por exemplo, spintrônica, retrossíntese, plasmônica e nanoplasmônica, também ainda não foram registradas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e nem por isso têm menos valor científico e tecnológico. É graças ao trabalho de cientistas, pesquisadores e professores como eu que novas palavras são registradas nos dicionários. Elas não caem do céu, são resultado de muito trabalho em universidades públicas. Saiba que 95% da produção científica nacional vem de instituições públicas. Graças ao trabalho de diversos pesquisadores, trabalhos que eu estudo para fazer o meu, um dia, com certeza, “cristofascismo” constará nos dicionários, porque há décadas é uma palavra amplamente aceita como conceito teórico nas principais universidades do mundo e na imprensa internacional.
Fascismo, por sua vez, é uma palavra dicionarizada. De acordo com o Dicionário Aulete Digital, fascismo é um “regime político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático, com base na força, na censura e na supressão violenta da oposição, como o imposto por Benito Mussolini na Itália em 1922”. Por extensão: “tendência para o autoritarismo e a intolerância”.
Como a história mostra, o fascismo frequentemente se misturou com a religião. Pesquisadores afirmam que Mussolini era ateu, mas fez discursos simpáticos ao catolicismo. Durante anos, Mussolini procurou fazer o possível para identificar o Estado italiano com a Igreja Católica, com o intuito de aumentar a popularidade e a legitimidade do fascismo. Esse comportamento é reproduzido por políticos brasileiros da atualidade, que se aproximam de igrejas de diversas denominações, e por pastores que se aproximam de políticos de diversos partidos.
Alguns membros do clero italiano da época de Mussolini, como o padre Enrico Rosa, afirmavam que o movimento fascista era “violento, anticristão, encabeçado por homens sinistros, políticos insignificantes, industriais ricos e militares ressentidos”. Mesmo assim, o governo fascista e a Igreja Católica firmaram um pacto em 1929, quando Mussolini e o papa Pio XI assinaram o Tratado de Latrão.

Também vale lembrar que “Deus está conosco” (Gott mit uns) foi um lema militar alemão usado durante o nazismo e registrado nas fivelas dos militares das forças armadas da Alemanha durante a ditadura de Adolf Hitler.
Nas minhas pesquisas, eu argumento que Jair Messias Bolsonaro é um legítimo representante de uma política do tipo fascista. Não sou o primeiro nem o único a classificá-lo assim, mas não há consenso e alguns autores discordam. Por que eu entendo que ele é fascista? Porque ele é autoritário, sempre elogiou o autoritarismo da ditadura militar e os torturadores. Ele já ofendeu jornalistas diversas vezes, mandando-os calar a boca. Ele se apresenta como nacionalista, com o slogan “Brasil acima de tudo”, apesar de ser submisso a Trump e bater continência para a bandeira dos Estados Unidos. Bolsonaro também é defensor da censura e da supressão violenta da oposição, ameaçando torturar e “fuzilar a petralhada”.
O bolsonarismo é fascista, sim, porque também promove culto ao líder, que é chamado de mito; promove a uniformização do vestuário, como a camisa da CBF; inventa um inimigo que é demonizado como o responsável por todos os males do país: esse inimigo pode ser chamado de comunista, petista ou esquerdista; promove o anti-intelectualismo e a depreciação da educação, como têm feito os que estão me atacando por estudar um fenômeno contemporâneo; o bolsonarismo tem uma visão distorcida da tradição e defende um conceito reducionista para ideias abrangentes como pátria e família; o bolsonarismo sempre desprezou os direitos humanos e só passou a exigi-los para os presidiários mais importantes do grupo; e o bolsonarismo simplifica a linguagem, reduzida a frases feitas, gritos de guerra ou hashtags.
E o bolsonarismo não inventou nada de novo. Nos anos 1940, os pesquisadores alemães Löwenthal e Guterman, exilados nos Estados Unidos, estudaram a natureza e o conteúdo dos discursos e panfletos de agitadores fascistas norte-americanos, que praticavam uma fusão artificial de fascismo italiano com nazismo alemão e revivalismo cristão. Essa fusão deu origem a uma aberração semelhante ao que denomino cristofascismo bolsonarista, na falta de nome melhor. Aceito sugestões de nomes.
Os “falsos profetas” dos Estados Unidos da América, nos anos 1940, eram lideranças religiosas ou políticas que se autorretratavam como “cidadãos de bem”, mas usavam técnicas manipuladoras e se aproveitavam do descontentamento, dos medos e dos ressentimentos de parcelas da população norte-americana. Criavam inimigos que corporificavam a “força do mal” que deveria ser erradicada pelo movimento. Mais do que a mudança das estruturas políticas, eles almejavam a eliminação de pessoas, especificamente “os inimigos estrangeiros da América”, isto é, comunistas, socialistas, refugiados, judeus, negros e criminosos.
Em 2016, o então deputado federal Jair Messias Bolsonaro homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como responsável por atos de tortura. Até hoje Ustra é considerado um “herói nacional” pela família Bolsonaro.
Em 2017, Jair Bolsonaro fez apologia de uma teocracia ditatorial cristã. Ele disse exatamente: “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar às maiorias”.
Em 2018, Bolsonaro ameaçou “fuzilar a petralhada”.
Nem vou mencionar o que aconteceu após a eleição dele como presidente, porque os crimes contra a humanidade durante a pandemia de covid-19 já foram todos registrados em minha plaquete Impeachment, e serão abordados novamente em outra ocasião.
Agora você decide. Vai amar seus inimigos, como ensinou Jesus, ou vai torturar e fuzilar quem pensa diferente de você, como defende Bolsonaro? Ou você é bolsonarista ou você é cristão. Realmente não é possível ser “cristofascista” e manter a coerência lógica, tampouco é possível seguir Bolsonaro e Cristo, porque eles seguem caminhos opostos.
Você decide. Enquanto isso, eu vou fazer o meu trabalho com seriedade e honestidade. Em 2027, apresentarei os resultados finais ao público que financiou a minha pesquisa com o dinheiro dos seus impostos.
Para concluir, ninguém pode desrespeitar o princípio constitucional da laicidade do Estado brasileiro, previsto na Constituição da República Federativa do Brasil, que define o Estado como independente em relação ao clero, às igrejas e, em sentido mais amplo, a toda confissão religiosa. Isso quer dizer que, diante da distinção entre a esfera pública do Estado e a esfera privada da sociedade, a religião deve ser excluída da primeira esfera e permanecer como questão particular. Se você é adventista, ateu, batista, budista, calvinista, católico, espírita, hindu, judeu, luterano, metodista, mórmon, muçulmano, satanista, testemunha de Jeová, umbandista, thelemita, wiccano ou o que for, isso só diz respeito à sua vida pessoal.
Em um país laico como o Brasil deve ser, ninguém pode promover censura prévia contra um projeto de pesquisa aprovado por três instituições públicas, duas brasileiras e uma portuguesa, após avaliação por pares e trâmites legais.
Se você é cristão, faça aquilo que o cristianismo tem de melhor: o exercício da caridade e do amor ao próximo. Se você não é cristão, exerça outras possibilidades de resistência e dissidência ao fascismo.
!function(f,b,e,v,n,t,s)
{if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?
n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};
if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version=’2.0′;
n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;
t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];
s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,’script’,
‘https://connect.facebook.net/en_US/fbevents.js’);
fbq(‘init’, ‘301448060382165’);
fbq(‘track’, ‘PageView’);
Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-cristofascismo-bolsonarista-explicado-aos-cristaos-por-vitor-sei/

