O jogo que destruiu tudo que a Seleção representava. Por Moisés Mendes

Torcedor brasileiro chora durante 7×1 – Foto: Reprodução

Os jogadores já estão lá, com seus cabeleireiros pessoais e exclusivos e seus relógios de ouro, e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Não há outro jeito a não ser tentar imitar, como tento agora, o que Nelson Rodrigues escreveu oito dias antes da Copa de 58.

É quando Nelson formula na revista Manchete e vê ser destruída logo depois, naquela Copa que apresenta Pelé ao mundo, a teoria do complexo de vira-lata. Hoje, o pessimismo é ainda mais obtuso e a esperança só é frenética na Globo.

Um pessimismo que vem se fortalecendo desde 2014, depois daquele 7 a 1 que a Alemanha aplicou em Felipão, dentro do Brasil. Ali os brasileiros incorporam um novo sentimento. Não é o resgate do sentimento de vira-lata, mas a desilusão dos arrogantes.

Ali naquele 7 a 1 começa tudo que vem até hoje. O futebol ostentação da Seleção e dos brasileiros acaba naquele jogo no Mineirão, mesmo que muitos continuem ostentando, como farsa, o que não existe mais. Nelson diria: desde 2014 o nosso futebol tem o pudor de não confiar mais em si mesmo.

Aquele 7 a 1, quando Neymar já existe, mas também não joga porque estava machucado, nos traz até aqui aos pedaços. Se 1958 nos ofereceu todos os símbolos que iriam conectar a Seleção à pátria, à identidade e ao povo, 2014 nos desconectou de tudo o que aquele time havia nos presenteado.

Foi em 1958 que Didi pegou a bola, depois do gol da Suécia, na final, e caminhou em direção ao centro do campo com aquela bola pesada, não embaixo do braço, mas na palma da mão, primeiro da mão direita, depois da esquerda.

Jogadores da Seleção Brasileira comemoram gol em amistoso contra o Panamá. Foto: Rafael Ribeiro / CBF

A cena é de começo de epopeia. Bellini assume a tarefa do capitão e busca a bola nas redes. Didi pega a bola e a carrega com certa displicência, como quem joga uma pelada. Da grande área do Brasil ao centro do campo foram 38 passos. Sei porque vi o vídeo e contei.

Os jogadores se agrupam em torno de Didi no início da caminhada, para dizer que dá pra virar. Um guri de 17 anos está no grupo. Pelé diz alguma coisa a Didi, que caminha olhando para a frente, em ritmo acelerado. Uma caminhada de 21 segundos. O jogo tinha apenas quatro minutos e o Brasil já perdia.

A Seleção venceu o fantástico time da Suécia por 5 a 2. Pelé fez o terceiro gol, depois de aplicar um chapéu no zagueiro Bengt Gustavsson. É o mais belo chapéu do mais belo gol de todos os tempos.

Aquele gol acaba com a viralatice e dá vida curta à teoria de Nelson Rodrigues. Naquela Copa, Seleção, Pelé, Garrincha, a camiseta são o Brasil. E aí descobrimos que Nelson escreveu a crônica, não para reforçar o complexo que começa com a tragédia de 50 no Maracanã, mas para dizer que tentaria ajudar a destruí-lo.

Nelson escreveu: “Sou de um patriotismo inatual e agressivo”. O Brasil venceu em 58 e voltou a ser campeão em 62 e em 70. Nelson morreu em 1980. Por dois anos, perdeu a chance de escrever sobre aquela que teria sido uma Seleção espetacular e seu fracasso na Copa de 1982. A última Seleção espetacular.

O Brasil voltou a vencer a Copa em 1994 e 2002, mas sem o brilho de 58, de 62 e de 70, ou sem os dons que, segundo Nelson, os jogadores brasileiros tinham em excesso. E então acontecem, na sequência, a perda desses dons e o desastre de 2014. O maracanaço com a derrota de 2 a 1 para o Uruguai em 1950 foi uma tragédia. A goleada de 7 a 1 da Alemanha em 2014 foi uma humilhação, uma vergonha.

O consolo hoje, vendo o Brasil do mesmo Neymar que é ídolo sem jogar – e da camiseta sequestrada pelo bolsonarismo – é que a poderosa Itália não existe mais. E Alemanha e Inglaterra existem pela metade. Essa é a Copa de países que não existiam como grandes nações do futebol no século passado. O Uzbequistão está na Copa.

As gerações que vieram logo depois daquele Brasil vira-latas são as que menos se interessam por novas ilusões na comparação até com os jovens de hoje. O Datafolha mostrou que apenas 39% dos brasileiros de 16 a 24 anos não querem saber da Copa de Trump. Mas entre os que têm 60 ou mais, o desinteresse é de 61%.

Como outro consolo, poderemos dizer o seguinte, como se fosse uma pergunta. Qual seria a vantagem de vencer a Copa num país que sabota tudo o que o esporte deveria significar?

O que ganharíamos, se o Brasil vencesse a Copa e ficasse marcado como a país que conquistou o Mundial no ano em que Trump destruía a democracia e o mundo, enquanto a maioria continuava fingindo que o mundo ainda existia?

!function(f,b,e,v,n,t,s)
{if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?
n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};
if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version=’2.0′;
n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;
t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];
s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,’script’,
‘https://connect.facebook.net/en_US/fbevents.js’);
fbq(‘init’, ‘301448060382165’);
fbq(‘track’, ‘PageView’);

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-jogo-que-destruiu-tudo-que-a-selecao-representava-por-moises-mendes/