O meu irmão Zé, o melhor de nós. Por Kiko Nogueira

O Zé e nós

O meu irmão Zé era o melhor de nós. Lhano, bonito, suave, inteligente, humilde, bom, fundamentalmente bom — e teimoso.

O Zé era teimoso e morreu como queria. Na casa dele, cercado pela família, ouvindo as maritacas. Foi apagando como uma vela, silenciosamente, elegantemente, suavemente. Do jeito que viveu. Sem grito, sem briga, sem revolta, sem perder o humor.

Já no final, Marina, a filha mais velha, contrita, quis saber se podia fazer alguma coisa por ele, qualquer coisa. “Carrega meu celular”, ele falou. Ana, a caçula, perguntou se ele se arrependia de algo nesses anos. “Paguei o INSS a mais a vida inteira”, ele respondeu depois de uma pausa dramática. Marina questionou-lhe, emocionada, se ele teria um conselho para ela. “Termina a faculdade”, ela ouviu.

Um dia, quando eu me preparava para visitá-lo, ele me avisou que a Laura, minha cunhada, estava gripada. O Zé achou que era melhor eu não ir porque poderia ficar resfriado. Ele já estava com metástase e tinha um dreno na barriga.

“Cansei”, o Zé me disse numa das nossas últimas conversas. Sem drama — suavemente. Era uma constatação, não propriamente um lamento. Era um plano, também.

Duas semanas antes ele estava andando nas ruas bonitas do bairro da Previdência. Três meses antes estava jogando beach tênis. Seis meses antes estava em seu elemento, a Ilhabela, andando de bicicleta. Amava o mar, amava a praia. Agora não conseguiu ir à cozinha fazer um café.

O Zé era atleta. Um hippie atleta, magro e cabeludo a vida toda. Corria milagrosamente, chegava em todas as bolas, e fumava Hollywood (a mesma marca do papai), até o médico mandar parar.

Era bancário e professor de matemática. Nunca furou uma greve, nem debaixo de chuva. Junto com a Laura, criou duas mulheres incríveis, Marina e Ana, sem perder a ternura jamais. Tirar o Zé do sério era uma tarefa praticamente impossível. Uma das poucas vezes em que vi isso acontecer foi me dando aula particular de física. Não posso culpá-lo.

Quando o nosso coração para no ar, o que a gente faz? E quando seu irmão e ídolo morre? Seu irmão catorze anos mais velho, seu irmão que te ajudou ficar em pé? E as conversas sobre o mistério da vida que você não poderá mais ter? E as piadas e broncas nos cachorros?

Éramos sete. Primeiro perdemos o pai, depois a mãe, depois o Paulo, e então o Zé. Agora somos três: Mari, Kika e eu.

O Zé Beto. Eu fico pensando no passado e no quanto minhas memórias vão sendo inventadas à medida em que tento segurá-las. Eu me lembro de ir para a praia com o Zé em sua Brasília azul-escuro nos anos 70 com minha irmã caçula, nós dois pequenos no banco de trás. O carro em ponto-morto, com Genesis no toca-fitas, a silhueta do Zé no banco do motorista, o cabelo longo, a Laua do lado.

Éramos seis
Éramos seis

Tocava o disco “Selling England by the Pound”, com o Peter Gabriel nos vocais, que tinha “I Know What I Like, and I Like What I Know”. Eu sei do que eu gosto e eu gosto do que eu sei. A noite estava quente e o céu estrelado na Anchieta. Um mundo inteiro foi para o espaço, mas ia durar pra sempre, o combinado era durar para sempre…

… A gente nunca está preparado para a morte. O Zé morreu depois de 11 anos se tratando de câncer e eu não sei o que fazer com isso. Ele escolheu o tempo. Ele deu tempo de a gente se despedir, mas nunca é suficiente, nunca será suficiente.

O que ele não gostava era de confusão, de confronto inútil, de pancadaria, de briga. O Zé era suave e partiu suavemente. Como no poema de Christina Rossetti, a vitoriana que gostava de escrever sobre a morte desse jeito no século 19:

Quando eu morrer, meu querido,
Não cante canções tristes;
Não coloque rosas na minha cabeça,
Nem o sombrio cipreste:
Que a relva verde fique em cima de mim
Com aguaceiros e gotas de orvalho molhada
E se você quiser, lembre-se,
E se você quiser, esqueça.

Eu não verei as sombras
Eu não sentirei a chuva;
Eu não ouvirei o rouxinol
Cantar, como se em dor:
E sonhando através do crepúsculo
Que não se levanta nem se põe,
Por acaso eu posso lembrar-me
E por acaso posso esquecer.

Te vejo nos meus sonhos, Zé. Por enquanto, pra sempre.

O Zé e eu

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-meu-irmao-ze-o-melhor-de-nos-por-kiko-nogueira/