O terremoto é o mais mortal e a ‘operação’ policial é a mais letal. Por Moisés Mendes

Imagem de drone mostra corpos levados a praça no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, no dia 29 de outubro de 2025. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Vejam essas duas chamadas na capa do Globo. A chamada abaixo é deste domingo:

“Menos de três meses após abalo que deixou 2.200 mortos, Afeganistão registra terremoto de magnitude ainda maior. Evento ocorrido em agosto é considerado o mais mortal da história recente do país.”

E esta outra chamada, que virou manchete de alto de página, é de sábado:

“Operação mais letal da história do Rio foi considerada sucesso por 57% dos moradores, aponta Datafolha.”

Matéria do jornal O Globo. Foto: Reprodução

O terremoto no Afeganistão foi o mais mortal da história recente do país. A “operação” policial no Rio foi a mais letal.

As duas manchetes pretendem destacar a mesma coisa: que o terremoto e a operação matam gente como nunca mataram antes.

Mas os jornalões brasileiros se negam a usar a palavra mortal para a chacina no Rio. Letal é uma palavra mais leve.

Mas é um eufemismo. Por que, se o terremoto é mortal, a operação ordenada por Cláudio Castro também não é?

Os jornais fogem da palavra mortal porque estão mais preocupados com os fuzis dos traficantes do que com os mortos.

O governo do Rio é letal, não é mortal. O pior é que essa história de operação letal acabou contagiando os jornais, sites e blogs progressistas ou de esquerda.

Nos primeiros dias após a chacina, a palavra letal aparecia em quase todas as manchetes dos jornalões. Uma convenção não escrita uniformizou a definição da matança.

Os tiros dos policiais seriam letais, e não mortais. E os jornais progressistas aderiram logo ao eufemismo. Os jornalões, que se alinharam aos defensores da chacina, estão cada vez mais letais.

(Qualquer dicionário, incluindo o Houaiss, define letal assim: que produz a morte; mortal, mortífero, fatal, letífero (ex.: uma dose letal). A inteligência artificial da Meta informa que letal “tem origem no latim lētālis e é relativo à morte ou mortal”. A raiz da palavra é lēt(um), que significa morte. Letal é, na verdade, uma palavra usual na linguagem do meio criminal, na polícia, no Ministério Público, na Justiça e entre todos os operadores do Direito. Data venia, o jornalismo das corporações, com sua letalidade, está tentando falar latim — mas para enrolar o próprio leitor.)

!function(f,b,e,v,n,t,s)
{if(f.fbq)return;n=f.fbq=function(){n.callMethod?
n.callMethod.apply(n,arguments):n.queue.push(arguments)};
if(!f._fbq)f._fbq=n;n.push=n;n.loaded=!0;n.version=’2.0′;
n.queue=[];t=b.createElement(e);t.async=!0;
t.src=v;s=b.getElementsByTagName(e)[0];
s.parentNode.insertBefore(t,s)}(window, document,’script’,
‘https://connect.facebook.net/en_US/fbevents.js’);
fbq(‘init’, ‘301448060382165’);
fbq(‘track’, ‘PageView’);

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-terremoto-e-o-mais-mortal-e-a-operacao-policial-e-a-mais-letal-por-moises-mendes/