A Polícia Federal descreveu na Operação Miragem um suposto esquema fraudulento no Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e dono da RecordTV, com práticas que os investigadores compararam ao modus operandi do Banco Master.
A operação, deflagrada nesta terça-feira (23), apura suspeitas de que envolvidos no Digimais manipularam demonstrativos contábeis e registros para esconder a situação financeira real da instituição. Para a PF, essas manobras buscariam apresentar solvência aos órgãos de controle e viabilizar operações irregulares.
O Banco Digimais afirmou, por meio de assessoria, que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes.”
Um dos pontos citados no inquérito envolve a captação de recursos por CDBs com remuneração superior a 110% do CDI, acima da média do mercado. A PF apontou esse mecanismo como semelhante ao usado pelo Banco Master, que se sustentou por esse instrumento até o Banco Central liquidar a instituição.
PF cita CDBs, ativos superavaliados e fundos sem auditoria
Os investigadores também apontaram a precificação de ativos muito acima do valor de mercado. Entre os exemplos citados estão títulos antigos e sem valor da Vale avaliados em R$ 650 milhões, um terreno em Pernambuco marcado em R$ 150 milhões apesar de valor real inferior a R$ 10 milhões, e uma carteira de automóveis lançada por R$ 3,5 bilhões.
Segundo a PF, a superavaliação inflaria o balanço do banco e daria lastro a uma emissão maior de CDBs. “Tais manobras financeiras, intrinsecamente aliadas à sucessiva substituição de auditorias independentes para ocultar ressalvas comprometedoras, demonstram a potencial estruturação de um conluio voltado a maquiar a real situação de insolvência da instituição, ludibriando investidores de varejo, o órgão regulador e o sistema de garantias de crédito”, diz a investigação.

O Digimais também investiu R$ 3 bilhões em fundos de investimento cujas demonstrações financeiras não puderam ser auditadas por falta de documentos, segundo alerta da auditoria Clifton Larson Allen Brasil no balanço do segundo semestre de 2025. O valor representa 73% do total aplicado pelo banco nesse tipo de ativo.
A auditoria registrou ainda que o banco comprou R$ 357,6 milhões em cotas de fundos de participações recém-criados no segundo semestre de 2025, sem detalhar o mês, e que essas aplicações passaram a valer R$ 997,5 milhões em dezembro. O salto gerou resultado positivo de R$ 639,8 milhões, mas a auditoria disse que “não foi possível avaliar a razoabilidade ou potenciais ajustes decorrentes dos efeitos das avaliações” porque os fundos ainda não tinham demonstrações auditadas.
Tentativas de venda passaram por ex-sócio do Master e BTG
O controlador do Digimais tentou vender a instituição, como ocorreu com o Master. Em janeiro de 2025, Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, anunciou a compra do banco em troca de uma injeção de R$ 800 milhões, mas o negócio acabou cancelado dois meses depois, com o avanço das investigações sobre Quadrado.
Com o banco ainda à venda, Edir Macedo entregou a administração a Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil, que assumiu a missão de organizar a instituição para uma negociação. O bispo Urbaneja permaneceu no comando do conselho de administração.
Em abril deste ano, o BTG Pactual anunciou acordo para adquirir o Digimais, informação confirmada pelo banco de André Esteves em comunicado ao mercado. Procurado nesta terça, o BTG disse que não comentaria o caso.
A tentativa de venda está ligada à necessidade de aporte de capital para cumprir regras de liquidez do Banco Central. A estimativa citada na apuração aponta necessidade de mais de R$ 7 bilhões para cobrir o rombo, enquanto cerca de R$ 600 milhões em carteiras de crédito do Master foram vendidos ao próprio Digimais.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/pf-diz-ver-semelhancas-entre-o-caso-master-e-o-banco-de-edir-macedo-saiba-quais/

