Uma conversa envolvendo a profissional do sexo Kah Dantas e o empresário Daniel Vorcaro ganhou repercussão nas redes sociais depois que ela alegou ter recusado uma proposta financeira para atender um ministro do STF.
Em entrevista ao DCM, Kah Dantas conta como o dono do Banco Master chegou até ela, explica por que decidiu recusar o convite e fala sobre sua atuação como trabalhadora sexual e escritora. Segundo ela, a decisão de aceitar ou não um cliente envolve contexto, circunstâncias e, principalmente, seu interesse pessoal.
Kah também afirma que passou a receber ameaças depois que o episódio ganhou repercussão e que teme represálias. Por orientação de seu advogado, ela optou por não responder algumas perguntas relacionadas diretamente a Vorcaro e aos contatos mantidos antes ou depois do episódio.
Na entrevista, ela ainda comenta sobre sua trajetória profissional, sua militância em defesa das trabalhadoras sexuais e sua visão sobre a crise envolvendo Daniel Vorcaro, ministros do STF e políticos.
Diário do Centro do Mundo: Como Vorcaro chegou até você? Pela conversa que você compartilhou, vocês já haviam conversado.
Kah Dantas: Praticamente todos os homens chegam até mim da mesma forma: pelas redes sociais. Todos que têm meu WhatsApp é porque já conversamos, pelo menos uma vez, pelo Instagram.
Vorcaro solicitou serviços anteriores?
Meu advogado me orientou a não responder essa pergunta.
Quando você negou atender um ministro, qual foi a reação de Vorcaro?
Da minha parte, foi uma negociação comercial encerrada. Eu não tinha interesse. Praticamente todo homem, quando uma mulher diz “não”, as pessoas começam a procurar uma tese de doutorado por trás. Às vezes não tem tese. Tem só uma mulher dizendo não.
Ele voltou a te procurar?
Meu advogado me orientou a não responder essa pergunta.
Minha crítica tinha duas camadas. A primeira é bastante simples: trabalhadora sexual é trabalhadora. Portanto, discutir remuneração, condições de trabalho e respeito não deveria ser tratado como se estivéssemos falando de uma categoria humana à parte. A segunda é justamente a origem do dinheiro.
Se um recurso eventualmente tem origem ilícita ou está relacionado a dinheiro público desviado, isso não transforma a trabalhadora que recebe aquele dinheiro em responsável pelo crime que eventualmente deu origem a ele.
Eu critiquei o valor porque pode parecer uma fortuna para quem olha de fora e, dependendo do contexto, pode representar uma remuneração absolutamente inadequada para o serviço, para as circunstâncias ou para o risco envolvido. Eu não tenho uma tabela de preços fixa. Vario de cliente para cliente. Inclusive, tem clientes que eu até pagaria para continuar tendo por perto. Geralmente, não é o caso.
Você pede respeito às profissionais do sexo e tem uma militância ativa nas redes. Fale mais da sua atuação.
Eu tenho uma militância muito simples: acho que trabalhadora sexual é de fato uma trabalhadora. Parece pouco, mas aparentemente estamos num momento histórico em que precisamos reafirmar o óbvio. Eu falo sobre sexo porque sexo existe.
Falo sobre prostituição porque prostituição existe. Falo sobre dinheiro porque sexo e dinheiro têm uma relação histórica muito mais antiga do que qualquer escândalo contemporâneo. E tento tirar a trabalhadora do sexo desse lugar narrativo em que ela só aparece como decoração, pecado, vítima ou instrumento de algum homem poderoso. Na maioria das vezes ela é só uma mulher trabalhando.
Fale sobre sua atuação como escritora e como ela se encaixa nesse contexto.
Antes de tudo, eu sou escritora. Tenho quatro livros publicados: “Boca de Cachorro Louco”, “Orgasmo Santo”, “Inhamuns”, “Águas abundantes de um planeta recém-nascido”. Também tive contos premiados em concursos literários nacionais. Eu gosto de trabalhar justamente nessa fronteira em que a realidade começa a parecer ficção. A literatura me ensinou uma coisa muito útil: uma história não precisa ser inventada para ser absurda e muitas histórias inventadas podem ser mais reais do que a própria realidade.
Você tem recebido ameaças após a conversa se tornar pública?
Quem trabalha com sexo na internet recebe ameaças absolutamente todos os dias. Quem trabalha com sexo e se posiciona como militante de esquerda recebe mais ainda. Nos últimos dias, devido às notícias sobre mim que repercutiram em várias redes sociais, as ameaças aumentaram ainda mais. Para você ter ideia, desde a circulação do fato eu não saio nem para ir ao mercado e só tenho atendido meus clientes de forma online.
Você teme represálias de gente de poder?
Sim, muito. Por isso coloquei meu advogado, dr. Vinícius Antunes para mediar todos os contatos que tenho recebido.
Você teve contato com Sicário e Vorcaro antes ou depois desse episódio?
Meu advogado me orientou a não responder essa pergunta.
Você foi servidora pública. Em que função? Abandonou a carreira por qual razão?
Fui sim, trabalhei na UERJ. Abandonei porque comecei a ganhar muito mais dinheiro com conteúdo adulto.
Qual sua análise sobre essa crise institucional envolvendo Daniel Vorcaro, ministros do STF, políticos etc?
Minha análise é que o caso precisa ser investigado até o fim: com documentos, dinheiro, mensagens, contratos e responsabilidades individualizadas. É preciso distinguir aquilo que está documentado daquilo que as pessoas estão imaginando e inventando. Os brasileiros precisam buscar fontes confiáveis, pois esse caso vai definir as eleições desse ano. É muito importante que se tenha um olhar crítico para os fatos e que se busque os nomes que estão realmente envolvidos nesse caso de corrupção.
Como você avalia o momento político do país? E as principais candidaturas à Presidência?
Eu acho que o Brasil está vivendo uma situação em que muita gente está tentando transformar qualquer episódio político em prova definitiva de que o país inteiro está acabado. Não compro essa ideia. Eu sou nordestina, trabalhadora e vou votar para que o Brasil continue avançando.
Vou votar em Lula e em hipótese alguma em Flávio, afinal, ele está metido nesse escândalo de todas as formas. Os eleitores precisam ficar atentos às propostas, histórico, alianças, posições públicas e consequências concretas das políticas apresentadas.
Tem alguma candidatura ao Congresso e/ou Senado com que você se identifica?
Sim, no Rio de Janeiro gosto muito do Glauber Braga no RJ, onde moro, e do Renato Roseno do Ceará, minha terra, onde nasci. Meus votos vão ser todos progressistas, UP, PSOL e PT…

Como você avalia que as profissionais do sexo estão sendo representadas nesse escândalo das festas do Vorcaro?
De maneira muito previsível. Elas aparecem quando é conveniente falar de luxo, sexo, escândalo e poder. Depois desaparecem quando chega a hora de perguntar quem são essas mulheres, quais eram suas condições de trabalho, se foram respeitadas e quais direitos possuem. É muito fácil transformar uma trabalhadora sexual em personagem secundária da vida de um homem poderoso.
Mais difícil é lembrar que ela também tem uma história. E existe uma distinção fundamental: uma trabalhadora sexual estar numa festa não prova que ela tenha participado de qualquer irregularidade cometida por quem organizou a festa. Presença não é cumplicidade, todas as minhas colegas estavam ali trabalhando.
Você vê que esse episódio impacta sua vida? Há reflexos processuais?
Na minha vida pessoal obviamente existe impacto porque uma conversa privada passou a ter interesse público desproporcional. Mas uma coisa é impacto midiático. Outra coisa são os reflexos processuais, isso estou averiguando pouco a pouco sob as orientações do meu advogado, dr. Vinícius Antunes.
Qual sua opinião sobre Daniel Vorcaro?
Meu advogado me orientou a não responder essa pergunta.
Tem alguma conversa, conteúdo ou informação sobre Vorcaro que você eventualmente possa ter e que ainda não veio a público, que considera relevante?
Meu advogado me orientou a não responder essa pergunta.
Você disse “esse nem por 100 mil”. Teria algum cachê que faria você topar o serviço?
Você perguntou qual ministro seria. Eu disse “nem por 100 mil” naquele contexto específico. Na verdade, eu queria ver até onde eles iriam em valor, mas nunca tive interesse em atender esse tipo de cliente, embora muitas vezes a gente não tenha como levantar o currículo de todos com antecedência, mas alguns são mais fáceis.
E sim, eu perguntei quem eu atenderia. Isso faz parte da conversa. O contexto, a pessoa, a situação, as condições e o meu interesse naquele trabalho fazem parte da decisão. Sobre outro ministro, sim, eu já posso ter atendido. A resposta verdadeira é: eu decido com quem trabalho. Hoje em dia tenho o privilégio de poder escolher clientes.
Não existe dinheiro suficiente para transformar um “não quero” em “quero”. E existe dinheiro que eu posso querer e, ainda assim, continuar dizendo não. Sei que essa, infelizmente, não é a realidade de muitas trabalhadoras do sexo no Brasil, que não podem recusar ofertas, mas é a minha.
Como você imagina que pode colaborar sobre esse caso?
Prestando informações e respondendo às perguntas que podem ser importantes e relevantes para a população em geral.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/profissional-do-sexo-que-diz-ter-recusado-proposta-de-vorcaro-para-atender-ministro-do-stf-fala-ao-dcm/


