A publicitária Renata Antunes, diretora de criação da Agência We e professora da Miami AdSchool, conta ter sido vítima, nos anos de 2017 a 2019, de um calote financeiro aplicado pelo empresário Eduardo Fischer, atual marqueteiro da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e então dono da extinta agência de propaganda Fischer América.
Atolada em dívidas trabalhistas, a empresa fechou as portas em 2019, deixando para trás uma série de processos e dívidas com trabalhadores, fornecedores e entes públicos, muitas não pagas até hoje.
À época, os funcionários buscaram a Justiça e o sindicato da categoria para tentar receber os meses de salários atrasados e as indenizações por demissões que ocorreram em massa antes de Fischer encerrar as atividades da sua empresa empresa, que tinha mais de cem funcionários.
As principais denúncias contra a empresa do marqueteiro de Flávio eram:
a) ter deixado de recolher o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) dos funcionários por, pelo menos, um ano;
b) calote no salários dos funcionários,que ficaram mais de três seguidos sem receber um centavo, embora continuassem trabalhando, na esperança de serem ressarcidos um dia;
c) Falta de recolhimento de Imposto de Renda e outros tributos federais e estaduais;
d) Não ter depositado contribuição ao INSS dos funcionários.

Entre as pessoas lesadas por Fischer está a publicitária Renata Antunes, que estava grávida e era funcionária da Fischer América na época do calote. Na última sexta-feira (22), ela decidiu romper o silêncio e expor o ocorrido na empresa do marqueteiro.
“Desde 2017, há centenas de trabalhadores e fornecedores esperando por aquilo que, em qualquer país menos afeito ao deboche, seria chamado apenas de pagamento. Gente que trabalhou, entregou, acreditou, segurou a barra, ouviu promessa, engoliu atraso, fez conta no fim do mês e, muitas vezes, entrou na Justiça como último recurso para tentar receber o óbvio”, afirma a diretora de criação da Agência We.
A publicitária expressa sentimento de revolta e injustiça pelo fato de que Eduardo Fischer estqaria agora “dando a volta por cima”, se reiventando no mercado de marketing pólítico:
“E agora ele (Eduardo Fischer) volta. Não como personagem de advertência, mas como marqueteiro, consultor, gestor de crise. A crise, pelo visto, virou currículo.
A frase ‘eu fiz besteiras’ tenta dar verniz de travessura a uma história que, para muita gente, teve gosto de desespero. Como se ‘besteira’ fosse esquecer o aniversário de alguém. Como se ‘besteira’ fosse mandar um e-mail sem anexo. Como se meses de salários atrasados, fornecedores ignorados e vidas profissionais bagunçadas coubessem numa palavra tão pequena.”
Em longo desabafo publicado em uma rede social voltada ao mercado de trabalho (LinkedIn), Renata Antunes conta que estava grávida quando foi vítima do calote de Eduardo Fischer. Revela também que o período era marcado por boatos sobre envolvimento da empresa nos atos então investigados pela Operação Lava Jato e por muitos “silêncios convenientes”:
“Naquela época, a agência também circulava em conversas atravessadas por Lava Jato e todo tipo de silêncio conveniente. O que acontecia exatamente por trás das portas fechadas, eu deixo para o leitor imaginar. Mas eu vi, com meus próprios olhos, o financeiro em pânico, gente trancada em sala, meses de incerteza e uma sensação coletiva de que alguma coisa muito errada estava sendo administrada não com responsabilidade, mas com teatro.
Enquanto isso, os débitos cresciam. Quem tinha alguma reserva saía correndo. Quem conseguia se recolocar, fugia. Quem não podia, ficava. E ficar era aceitar um cotidiano de promessas, humilhações e uma frase que virou símbolo perfeito daquele tempo: ‘Eu devo sim. So what? (‘E daí?)”
Em inglês, talvez parecesse mais sofisticada. Mas o deboche não muda de idioma. Só ganha legenda.
Eu ouvi aquilo grávida. Com o corpo inteiro tomado por um turbilhão hormonal, medo, contas, futuro, bebê chegando e um mercado que, naquela época, já escutava pouco as mulheres — menos ainda as mulheres prestes a parir. Vivi tudo isso na pele. E talvez por isso seja tão difícil assistir, anos depois, à reabilitação pública de certas figuras como se o tempo fosse uma lavanderia moral.
Ver esse nome de volta às manchetes me dá a triste confirmação de que este país tem uma generosidade infinita com o 171. Aqui, errar com dinheiro dos outros pode virar aprendizado. Dever salário pode virar fase. Destruir equipes pode virar case. E voltar à cena, ao que parece, depende menos de reparação do que de narrativa.
O Brasil tem plateia para tudo. Inclusive para essas piadas que eu gostaria muito que fossem piadas. Mas não são. São só a realidade.”
Calote em funcionários, contas bloqueadas e coleção de cavalos puro sangue
Assim como Renata Antunes, dezenas de funcionários da agência de Eduardo Fischer ficaram sem salários e direitos. O marqueteiro de Flávio foi acionado judicialmente por, pelo menos, 42 funcionários. A maioria já venceu os processos, mas ainda não voiu a cor do dinheiro.
É que, mesmo após ter sua dívida reconhecida nos tribunais por sentença transitada em julgado (sem possibilidade de recurso), o quie Efuardo Fischer faz é simplesmente não pagar, dando origem a processos de execução de dívida líquida e certa.
Neles, os credores do marqueteiro e a Justiça têm que apelar para bloqueios de contas e bens patrimoniais, quebra de sigilo bancário e até busca pelos bens de sua esposa para ressarcir os que tomaram calote da Fischer América.
Além disso, parte do patrimônio material da empresa chegou a ser leiloado pela Justiça, para pagamento de credores lesados pelo marqueteiro, como no exemplo que se vê abaixo, em que foi feito, em 2022, um leilão de materiais de escritório da agência para ressarcir a TV Bandeirantes. Entre os bens leiloados estavam cadeiras, mesas, monitores e até teclados de computador.

Enquanto funcionários, credores, a União e procuradorias estaduais lutavam na Justiça para reverter o calote que tomaram, Eduardo Fischer seguiu levando uma vida de viagens, luxo e ostentação.
Enquanto os bens da empresa eram limpos pelos credores, sem com isso serem minimamente suficientes para cobrir as dívidas deixadas pelo marqueteiro, ele postava em suas redes sociais as fotos de suas viagens e idas a restaurantes e clubes de elite da sociedade paulista.
Por causa disso, em um dos processos de execução de dívida trabalhista líquida e certa, movido por uma ex-diretora da agência fechada a quem Fischer devia mais de R$ 600 mil, a Justiça autorizou que os bens pessoais de Eduardo Fischer e de sua esposa fossem bloqueados para que a ex-funcionária pudesse ser ressarcida, em uma decisão judicial chamada “despersonificação da personalidade jurídica”.
A desconsideração da personalidade jurídica é um instituto legal que permite afastar temporariamente a separação patrimonial entre a empresa e seus sócios. Em situações de fraude, abuso de direito, confusão patrimonial ou desvio de finalidade, o patrimônio pessoal dos sócios ou administradores pode ser alcançado para quitar dívidas da pessoa jurídica.
Foi extamente este o caso de Eduardo Fischer. Em 2018, a publicitária Andrea Weiss Margini, então diretora demissionária da agência de Eduardo Fischer, ingressou com ação na justiça do Trabalho para receber salários e direitos devidos pelo marqueteiro.
Ela venceu em todas as instâncias e, em 2021, foi aberto um processo de execução de “Cumprimento de Sentença Definitiva”, para fazer com que o marqueteiro de Flávio efetivamente pagasse o que devia à ex-funcionária. O valor determinado pela Justiça era de R$ 645.905,87.
Ocorre, porém, que a Justiça não conseguiu encontrar bens em nome da empresa devedora, passando a entender que Fischer estava ilegalmente transferindo pari si mesmo o patrimônio da companhia executada, uma vez que ostentava uma vida de viagens e luxo enquanto escapava de pagar o que sua empresa devia.
É o que se pode ver no trecho transcrito abaixo de uma decisão judicial do processo movido pela publicitária Andrea Weiss Margini.

Assim, foi determinado que os bens de Eduardo Fischer e de sua esposa fossem buscados para pagar seus ex-empregados. Ainda em 2021, ocorreu o bloqueio de suas contas bancárias, mas o marqueteiro tirou todos os valores antes que pudessem ser alcançados pela Justiça.
Assim, a ex-funcionária lesada passou a ir atrás dos bens patrimoniais do marqueteiro de Flávio, e descobriu que Eduardo Fischer era dono de uma coleção de cavalos puro sangue, mantidos em hípicas espalhadas pelo estado de São Paulo.
Resultado: a Justiça expediu um mandado de penhora de toda a coleção puro sangue de Eduardo Fischer, que não continha qualquer Dark Horse, mas apenas animais de raça orçados em mais de R$ 50 mil cada, com especial destaque para os cavalos chamados “Unicórnio”, “Imperador do Retiro” e “Júpiter do Retiro”, como pode ser ver na ordem judicial abaixo.

Ao que parece, a escolha de Eduardo Fischer para cuidar da campanha do azarão Flávio Bolsonaro não poderia ter sido mais apropriada.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/publicitaria-relata-calote-de-marqueteiro-de-flavio-quando-estava-gravida-lesou-dezenas-de-funcionarios/

