Ao atacar urna como o pai, Flávio prova que ‘Bolsonaro moderado’ não existe

Flávio Bolsonaro em evento com diplomatas . Foto: Raul Spinassé/Novo Selo Comunicação

Por Leonardo Sakamoto, do Uol

A moderação (sic) de Flávio Bolsonaro dura até o momento em que uma urna eletrônica entra na conversa. Aí, a fantasia de candidato equilibrado vai ao chão e aparece o bolsonarismo velho de guerra: desinformação, ataque às instituições e preparação antecipada de uma desculpa para uma eventual derrota eleitoral. Ou de uma justificativa para nova tentativa de golpe ou mesmo uma intervenção estrangeira.

Diante de embaixadores de vários países, o senador afirmou hoje que máquinas usadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem das urnas da empresa Smartmatic, que a CIA aponta como envolvida em fraudes na Venezuela, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo. Mentira. A empresa nunca vendeu ao Brasil urnas nem programas usados nos equipamentos.

É salutar o convite a observadores internacionais. Mas é bizarro usar uma falsidade para insinuar que o processo eleitoral brasileiro precisa ser vigiado por estrangeiros, como fez o filho de Jair.

O senador lançou a cascata e, na sequência, tentou embrulhá-la em papel democrático. Disse que não estava questionando o sistema eleitoral, apenas defendendo a presença de mais observadores estrangeiros. Ahã, Flávio, senta lá.

O roteiro não é novo, confirmando a máxima do velho barbudo de que os fatos e personagens de importância na História do mundo ocorrem duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.

Em 18 de julho de 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio do Alvorada para espalhar distorções sobre as urnas. Usou a estrutura da Presidência para atacar o sistema que o havia elegido deputado e presidente. Por causa disso, acabou sendo julgado, condenado e declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso de poder.

Agora, o primogênito repete a apresentação. Troca-se o salão, preserva-se o método. Muda-se Jair por Flávio, mas um Bolsonaro, sempre um Bolsonaro, mantém a suspeita lançada contra as urnas.

Flávio ainda aproveitou o encontro para defender o pai, atacar o Supremo Tribunal Federal e acusar parte da Polícia Federal de promover perseguições políticas. Ou seja, não apresentou apenas a mesma teoria conspiratória eleitoral de Jair, mas também a mesma visão de Estado: instituições só são legítimas quando obedecem à sua família. Quando a investigam ou a condenam, tornam-se automaticamente aparelhadas, inimigas ou fraudulentas.

É essa a suposta versão moderada que tentam vender ao eleitorado. Um Bolsonaro que fala mais baixo, come com garfo e faca e talvez evite determinados palavrões, mas carrega o mesmo projeto político e a mesma visão de mundo no bolso. A embalagem pode ter mudado. O produto continua sendo o ataque às instituições, a transformação da família em vítima permanente e a recusa em reconhecer qualquer limite imposto pela democracia.

A democracia brasileira não precisa de um Bolsonaro que saiba usar talheres, mas de candidatos dispostos a respeitar as urnas antes, durante e, principalmente, depois da contagem dos votos. Ao repetir o pai diante de embaixadores, Flávio deixou claro que o “Bolsonaro moderado” não é um projeto político, apenas uma campanha de marketing.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-ao-atacar-urna-como-o-pai-flavio-prova-que-bolsonaro-moderado-nao-existe/