Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Omar Artan seria o primeiro somaliano a apitar uma Copa do Mundo. Mas para participar do torneio nos Estados Unidos de Donald Trump não basta ser considerado o melhor árbitro do continente africano, mas ter o passaporte certo. Artan foi barrado na imigração americana mesmo portando visto válido. O governo dos EUA não apresentou qualquer justificativa. A Fifa emitiu nota dizendo que “não se envolve nos processos de imigração dos países-sede”. Tradução: sou frouxa, xenofobia não é problema nosso, segue o jogo.
Só que é problema de todo mundo que ainda acredita que futebol tem algo a ver com mérito e que Copa é momento de celebração entre os povos.
O árbitro somaliano não foi caso isolado. O atacante Aymen Hussein, principal jogador do Iraque, ficou retido por sete horas antes de ser liberado, uma humilhação pública que, ao que tudo indica, não teve outro objetivo a não ser lembrar quem manda. O meia haitiano Woodensky Pierre virou celebridade ao conseguir, finalmente, um visto para se juntar aos companheiros na Flórida. Virou notícia porque entrar nos Estados Unidos se tornou façanha. Aliás, o fotógrafo da delegação iraquiana foi barrado em Chicago por “informações confidenciais”, segundo a alfândega norte-americana.
Sete países classificados para a Copa enfrentam restrições de visto em graus variados. O Irã e o Haiti estão numa lista ainda mais excludente: seus cidadãos têm a entrada nos EUA praticamente proibida.
A seleção iraniana, que já disputava o torneio com a fumaça de bombas sobre a cabeça após Trump lançar, ao lado de Benjamin Netanyahu, um ataque de grande porte contra o país em fevereiro, terá de se basear em Tijuana, no México, cruzar a fronteira antes dos jogos e voltar no mesmo dia das partidas. Porque, afinal, é uma Copa do Mundo. Momento de paz, união, entendimento entre os povos e de colocar o esporte acima de conflitos.
A Fifa não se importa. Ela, que deveria ser guardiã do futebol como patrimônio global, entregou as decisões sobre o torneio a um país cuja política migratória trata seleções nacionais como ameaça à segurança. E para quem ainda tinha alguma dúvida sobre os princícpios e valores da federação, ela resolveu explicitá-los no sorteio dos grupos, realizado em Washington no ano passado: entregou a Trump — um homem que inicia guerras, invade países vizinhos e ameaça roubar terra de aliados — o “Prêmio da Paz da Fifa”.
Se a Fifa merecesse algum crédito, a Copa de 2026 seria seu enterro. Mas para ser enterrado, é preciso ter estado vivo em algum momento.
Enquanto isso, do lado de fora dos estádios, o cenário não é mais animador. Agentes do ICE, a polícia de caça aos migrantes, participarão da segurança do evento. O Departamento de Segurança Interna não descartou a hipótese de prisões de estrangeiros dentro dos estádios. Não é paranoia: é a política oficial do governo Trump transformada em ameaça esportiva.

O resultado é previsível. Torcedores de vários países calculam o risco de comprar ingresso, atravessar o Atlântico ou o Pacífico, e ser detidos num país que, nos últimos anos, mostrou que nem todos são bem-vindos.
E moradores dos EUA, nativos e migrantes, documentados ou não, têm razão de temer ir a estádios. O ICE não diferencia claramente uma partida de futebol de qualquer outro “local de interesse”. Minneapolis, no ano passado, viu o que acontece quando a guarda pretoriana de Trump decide que um lugar é zona de operação: pessoas foram caçadas, presas, mortas. Nesse contexto, ir ou não torcer virou cálculo de sobrevivência.
O maior evento esportivo do planeta está sendo usado como vitrine de uma política que exclui, humilha e intimida.
Trump quer a Copa como peça de sua agenda dos 250 anos da independência americana. O mundial é para ele um troféu de prestígio internacional. O problema é que troféus não jogam futebol. Árbitros africanos, atacantes iraquianos e meias haitianos, sim. Mas esses, ao que tudo indica, não têm a origem ou a cor certas.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-ao-barrar-africano-na-copa-eua-mostram-que-principal-time-da-casa-e-o-ice/

